As palavra e as coiza – parte I – paranóia delirante

Texto que o crítico de arte e doutor-professor Felipe Scovino escreveu lá para o número 1 do ATUAL – o último jornal da terra.

As palavra e as coiza – parte I – paranóia delirante
Há algum tempo virou lugar comum nos ensaios sobre artes visuais identificar certas poéticas como uma “simbiose perfeita entre arte e vida”. Durante alguns anos, acreditei e reproduzi esse discurso. Ele cabia perfeitamente dentro das propostas sensoriais, relacionais, ativadoras de potência e participativas de Lygia Clark, Pape e Oiticica. Aproximar uma proposta fenomenológica e sensível como os objetos sensoriais de Clark (formados por elementos cotidianos e orgânicos como água, plástico, conchas, pedras, etc), por exemplo, do discurso da arte era a proposta mais radical, concisa e perfeita encontrada pela história da arte. Não quero afirmar que as obras dos artistas citados não teriam essa ligação com a “vida”. A interrogação que se faz é a seguinte: qual objeto ou manifestação de arte não teria essa ligação com o orgânico, sensível, afinal, com a vida?
Partindo desse princípio, que tipo de vida é a sua, meu caro? Ou que tipo de vida você quer ver? A cheia de florzinhas, bucólica, colorida e ao mesmo tempo utópica? Ou a real, aquela cheia de problemas, paranoias, suja, gradeada, com o som alto das buzinas, luzes desfocadas, mulher gritando, filho berrando, marido bêbado e contas a pagar? Alerto: não sou beatnik nem muito menos punk ou mesmo fã dos filmes do Woody Allen ou Jim Jarmusch. Só fiquei mais atento ao trabalho do Raul. Conhece a obra do Raul Mourão? Não!? Por onde você andou entre 1988 e 2009? Pois é, eu também cheguei meio atrasado mas topei com uma grade do cara há alguns anos. Sua série de trabalhos que tem as grades como suporte e tema dialogam intensamente com o mobiliário urbano brasileiro surgido no final década de 1980 e consequentemente com os sintomas de medo e violência que assolam a população. Estes trabalhos parecem nos perguntar o que fizemos com o nosso espaço urbano e o que nos tornamos. Margeando o comentário de que a arte cada vez mais se infiltra na vida e vice-versa, ampliando e tomando novas direções apontadas pelo neoconcretismo, sua obra faz parte de um conjunto de trabalhos que aponta uma desconfiança em relação ao outro que tem sido cada vez mais freqüente nos dias atuais. Não estamos mais falando de estranhamento ou diferença, mas pânico. Atingimos um grau mais elevado nessa (negativa de uma) relação humana. Raul, numa conversa, comentou que não procura mostrar exclusivamente o lado escroto da cidade em sua obra. O fato é que vivemos num mundo que se torna cada vez mais violento, individualista, insensível, cruel e desumano. Não sabemos nem queremos nos relacionar com o outro. Escroto não é “um” lado da cidade, mas o mundo em que vivemos e construímos. Cercados de orkuts, blogs, facebooks, fotologs e messengers, vivemos num mundo saturado de imagens e cada vez mais solitário. O sexo tende a se tornar virtual e até o boneco de plástico para trepar virou peça de museu. Aquilo que era o cúmulo da bizarrice (para alguns) se converteu em saciedade de desejo via câmera de vídeo digital, teclado e fibra óptica. São tantas as informações, que cada vez ficamos mais perdidos e burros. Nesse contra-senso em que as trocas intelectuais se constituíram, penso que não é mais “função” da arte (se acreditarmos que ela tem função) alertar sobre esse aspecto da contemporaneidade, mas efetivamente tornar-se uma mediadora de experiências ou acentuar a sua diferença num ambiente mergulhado em publicidade, MTV e imagens do que deveríamos ser para tornarmo-nos felizes, mais bonitos ou bem-sucedidos. O humor na obra de Mourão vem corroer esse conceito de ideias disformes, variando do sarcástico (7 artistas, 1995) ao mórbido (Mata-mata, 2003), passando pelo bizarro (Surdo-mudo, 1999), o kitsch (Luladegeladeira, 2006), o agressivo (Foda-se, 2002) e o inesperado (Buraco do Vieira, 2001). O humor portanto também passa pela biografia de cada trabalho, ou seja, as memórias que ele guarda ou como ele foi gerado. Nessa simbiose de humor e caleidoscópio de violência e poesia, a palavra não funciona apenas como título descritivo da obra em Mourão, mas também como poesia visual e incorporação fenomenológica de ideias. A palavra em Mourão não é descartável nem meio para se conhecer o mundo em poucos segundos mas um dado indispensável para mergulhar num intervalo de tempo variável que permite ao seu leitor/espectador contemplar uma dimensão onde ver o mundo é fazer o mundo e não simplesmente apropriar-se daquilo que se vê. A palavra de Mourão “jorra” redes de relações com as coisas, estabelece um estranho sistema de trocas, de fusões, irrelevantes, quiçá, para a experiência ordinária, mas que para a experiência artística constituem, de uma parte, a matriz dos problemas e das soluções e, de outra, o modo da participação e do êxtase, com o mundo.

Felipe Scovino é crítico de arte, flamenguista, gosta de noise e acabou de conhecer o fígado acebolado com jiló.

1 comment
  1. traplev said: