Os Beatles e a Anima

É um post que peguei lá no excelente blog do psicologo doutor professor Henrique Pereira chamado Cidade e Alma. Foi a dica da madrugada do Marcelo irmão do Henrique (que lá pelas 2h da matina chafurdava o blog do Antonio Cicero e tentava comprar sem sucesso “o mundo desde o fim”, livro de filosofia do Cicero, onde ele defende uma concepção de modernidade mas que está esgotado no Brasil, disponível apenas numa edição portuguesa…). Cidade e alma é mais um blog assinado no esquema RSS – Google Reader e daqui pra frente não perco mais nada. Delícia. Obrigado Pereiras.

Os Beatles e a Anima

Nelson Rodrigues dizia que ele não seria quem era sem suas “obsessões”. Pois eu também tenho as minhas. E uma de minhas obsessões mais incorrigíveis são os Beatles.

Para quem esteve ausente do planeta Terra nos últimos 50 anos, aqui vai uma breve explicação. Os Beatles foram um dos maiores fenômenos culturais do século XX. Fenômeno a um só tempo de comportamento, indústria e, principalmente, música. A maior parte de suas canções suportou o impiedoso teste do Tempo e continua, depois de quase quarenta anos do término da banda, a alegrar nossos corações. Continua, é preciso dizer, a influenciar uma nova geração de músicos, como é o caso do extraordinário pianista de jazz Brad Mehldau e de Elliott Smith, talentoso cantor e compositor já falecido (“buon’anima!”).

Gostaria de falar dos Beatles de um prisma diferente do habitual, isto é, do musical. Gostaria de imaginar a música do quarteto de Liverpool da perspectiva da psicologia junguiana.

A música dos Beatles foi profundamente marcada pelo que Jung chamou de anima. Por “anima”, entenda-se a face imaginativa, erótica e feminina da psique. James Hillman, analista junguiano, explica:

“Funcionalmente, a anima opera como aquele complexo que conecta nossa consciência habitual com a imaginação, ao provocar desejo ou obnubilar-nos com fantasias e devaneios, ou aprofundando nossa reflexão. Ela é ambos ponte para o imaginal e também para o outro lado, personificando a imaginação da alma. Anima é psique personificada, como Psyché na sua historia antiga de Apuleio personificava a alma”.

Eu diria mesmo que a música dos Beatles pode ser entendida como uma experiência da e com a anima. Primeiramente, a anima surge projetada na figuras de garotas e no relacionamento amoroso juvenil. É o caso de canções dos primeiros discos da banda, algo ingênuas para os ouvidos de hoje, tais como I saw her standing there, I wanna hold your hand e From me to you.

Aos poucos esta projeção foi sendo desfeita ou, antes, transformada. A anima foi tornando-se mais uma espécie de potência imaginante a investir outras temáticas e mesmo outras formas de fazer música. As canções dos Beatles foram então ficando mais complexas na forma e no conteúdo. Começam a romper com o formato de combo, introduzindo elementos orquestrais e instrumentos exóticos, como a cítara. Surgem experimentações com feedback. A anima dos fab four passou a ser vivenciada como a própria imaginação criadora — a femme inspiratrice — do grupo.

Mas foi depois da segunda metade de 1966, quando a banda decidiu parar de apresentar-se ao vivo, que a criatividade dos Beatles parece ter de fato explodido. Interessante observar que a retirada da projeção da anima coincide então com a retirada dos Beatles dos palcos.

De 1966 em diante, os Beatles vão se tornando musicalmente mais ousados. O trabalho em estúdio se sofistica. A cada faixa de cada disco uma surpresa, uma revolução sonora: they boldly go where no man has gone before. A criatividade da banda do sargento pimenta parecia inesgotável. Deste período, podemos citar, dentre tantas canções maravilhosas, Tomorrow Never Knows (influência indiana, budismo tibetano e experimentação eletrônica), Honey Pie (foxtrot), Revolution (temática política), Blackbird (reinvenção de música erudita, temática ético-política), Something (o fascínio misterioso da amada), Because (reinvenção do clássico), Sun King (surrealismo), Her Magesty (ironia iconoclasta).

Personificada, a anima se revela, por exemplo, nas personagens femininas de Eleonor Rigby, Lovely Rita, Lady Madonna, Julia e Let it be (“Mother Mary comes to me”).

Para finalizar: imaginemos os Beatles como um fenômeno arquetípico. O quarteto inglês como uma espécie de mandala, uma imagem arquetípica do si-mesmo. Por emanar um fascínio mítico, sua música tem encantado tanta gente durante tanto tempo. Lennon & McCartney (seguidos de perto por Harrison), esses herois pós-modernos, ajudaram e ajudam a tornar a miséria de nossa condição humana mais suportável.

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