A Primavera que Espero ou A Verdadeira História de Viriato Sapopemba

Capítulo 1

Viriato Sapopemba de pai e mãe amava andar de ônibus. Uma patologia moderna, típica dos seres urbanos do século XX. Andar de ônibus era um exercício de alargamento da mente de Viriato. Pequenas janelas são televisões de realidade, dizia ele aos amigos que fazia nas inúmeras viagens cruzando a cidade e o país. Às vezes, entrava num ônibus para Santa Cruz só pra ver a Avenida Brasil e suas veias curvas de linhas coloridas, moinhos de farinha abandonados e gasômetros. E dali extraia teorias mundiais sobre a transformação do homem. Transeuntes são seres pacíficos que permanecem em estado estático de espera pelo impacto das violências verbovocovisuais: som e imagem e fumaça são basicamente os elementos de interação dos seres com o ambiente urbano.

Viriato era urbano e amava a cidade alojando sua mente numa espécie de Balzac moreno. A cidade era mais que espaço: era extensão do ser, pois a cidade era aquilo que as janelas dos ônibus mostram para todos. A questão é saber escolher a trilha sonora para cada momento de visão. Viriato era cineasta formado na cinemateca do MAM early sixties e dava conta de suas produções superoitotais – o filme que só o autor vê / radicalização do dilema entre obra-público. Sapopemba dizia a todos nas rodas do bar da Líder: o filme é você!

Assim, o homem vai costurando um olho no ouvido e na boca e no corpo para entender como a totalidade atinge a tonalidade, como a fusão atinge a refração da sua lente. Entende? perguntava Viriato ao motorista do 240 rumo à Cidade de Deus. Estou indo visitar meu amigo Smurf lá na Freguesia pois ando com saudades das tardes lascando fumo na pedreira da Pau-ferro. Pois ando nostálgico das partidas de sinuca com brenfa do quiririm no bosque. Smurf já me fez rodar a cidade num jipe do exército e numa bicicleta sem freio. Smurf é guerreiro e a muito não o vejo.

Assim Sapopemba sensibilizou o piloto e ele parou fora do ponto. Viriato voava acima do horizonte numa olhada em largo pelo bairro que ele aprendera a amar. Viu as vacas e cavalos nas suas vielas escondidas sob o mato alto. Viu o mundo invisível dos loucos da marinha e a solidão do batalhão da PM. Seu coração sabia que era dentro do ônibus que ele sentia-se bem. Devia voltar ao solo mais eram as tomadas de grande angular que lhe impediam de pousar, diminuir seu raio de ação e contracenar com os figurantes.

Mas Viriato é santo e fechou as asas repentinamente. Caía como um Ícaro e ninguém sabia como segurar tal criatura descomunal. As ruas entraram em pânico, corriam para todos os lados e diziam em voz histriônica seus mais recônditos pecados. O homem de bem dizia que roubava até neném enquanto de joelhos via Viriato desabando. A menina dizia que vivia de pica mas era só até ficar rica enquanto Viriato chegava perto do solo. O playboy afirmava que dava o rabo e matava viado mas nunca afinava enquanto via Viriato prestes a morrer.

Em meio aos prantos dos mortais, Viriato perto do solo pára no ar. Ao assumir a forma de cidadão pagante de impostos, afirma que o mundo está mudando tanto que ele entende os pecados dos seus camaradas de civilização. Isso tudo, tudo isso em grande e épica narrativa, Viriato Sapopemba viu do filme feito por ele da janela do ônibus que ele mantém até hoje na ativa. O meu verbo, dizia ele em forma de enigma milenar: CIRCULAR.

Frederico Coelho, autor da novela em dois capítulos aí de cima esclarece que ela foi escrita no séxulo XX e narra a intrépida e lendária vida de Viriato Sapopemba, de pai e mãe.

Essa mini-ficção deliciosa com a cara do Ivan Lessa dos bons eu encontrei lá no blog dele, Objeto sim, objeto não em meio aos ensaios maravilhosos que o Fred pendura por lá. Objeto é blog para assinar e conferir todo dia.

E acabo de ver que ele colocou a segunda parte.

1 comment
  1. Heyk Pimenta said: