FC/RIO #3 – Dinheiro é um pedaço de papel?
Nosso correspondente local Frederico Coelho foi a Brasilia falar no seminário sobre Helio Oiticia e depois saiu para beber com Sergio Martins e Felipe Scovino. Chegou ontem ao Rio e mandou sua terceira coluna. (Na barra lateral direita do b®og tem uma apresentação do Fred pra quem ainda não conhece a figura)
Dinheiro é um pedaço de papel?
Um dos temas que debatemos diariamente no meio cultural brasileiro atual é o seguinte: qual o valor do meu trabalho? Os que trabalham com o que estão começando a chamar por aqui de economia criativa ou com ações relacionadas ao meio intelectual e estético vivem se fazendo esta pergunta pois o mercado sempre lhe pergunta isso na hora do contrato. Nas artes visuais, essa pergunta é mais dramática: “como faço para ganhar dinheiro como artista”? Ou melhor: “se vivo entre o limite trágico-libertário do criador e a necessidade pragmática das contas no fim do mês, como posso fazer dinheiro”? Ou mais: quem paga o artista? O mercado de arte? O colecionador? O Estado? A galeria? Ou simplesmente o seu investimento concentrado em seu trabalho? Quantos intermediários o artista precisa para circular sua mercadoria e poder vendê-la como forma de sobrevivência no capitalismo nosso de cada dia?
Outro exemplo deste dilema, posto de outra forma. Na música, as páginas do Segundo Caderno d’O Globo alimentam, depois de séculos, uma polêmica pública. Política? Talvez. Cultural? De certo ponto de vista sim. Mas a polêmica é, mesmo, relacionada a quem paga quem. Na troca de cartas entre Antonio Adolfo, ECAD, Ronaldo Lemos, Joyce e nos artigos de Hermano Vianna e de Caetano Veloso (não tomando nenhuma posição contundente e deixando em aberto a dúvida tensa, o que também é importante), todos discutem, cada um do seu ponto de vista, o pagamento (ou não) de direitos autorais na música brasileira. Quem debate são os jovens músicos da era digital, os novos nomes da cena musical brasileira? Não. Quem debate e defende posições são compositores ligados à geração que fundou a MPB – e, de certa forma, a profissionalização do músico brasileiro nos aos 60 do século passado. São eles que debatem em público com novos agentes da cultura-século XXI que apresentam a opção legítima e complexa de refundar formas de distribuição do produto, que reivindicam uma proposta descentralizada de direitos, uma nova forma de circulação livre das informações e conteúdos culturais.
Simplificando deveras, os proponentes do Creative Commons constroem sua representação pública como os que querem ser risco, experimento, invenção, liberdade, criação de laços sociais universais – tudo que a arte alimenta no mundo e no homem; já os compositores e músicos passam a imagem de tradicionais, institucionais, nacionais, exigem direitos, querem ser reconhecidos como trabalhadores da cultura. Eles querem o reconhecimento de uma vida profissional que precisa do controle do mercado: ouviu, paga. Sem julgamentos de certo ou errado, quem trabalha merece seu reconhecimento simbólico e – no capitalismo – financeiro. Você vale mais se trabalha mais, ou melhor. Grandes compositores vendem mais, arrecadam mais, tocam mais e por isso não dependem tanto do ECAD quanto pequenos compositores que tem um hit ou apenas dois discos bem sucedidos. E o que os novos músicos e compositores têm a dizer sobre isso? Iniciam suas carreiras apostando nas novas formas de circulação da mercadoria “música” ou se aferram ao direito garantido de um pagamento via recolhimento de imposto por parte de uma agência central como o ECAD?
E os artistas visuais? A arte é imagem e a imagem é o que mais circula no mundo atual pela web, sem dúvida. Um trabalho pode ser registrado por terceiros e circular infinitamente através do Google image. Os sites de artistas estão aí escancarados para quem quiser ver, assim como livros e outros suportes que divulgam essas imagens. Porém, nada disso substitui a EXPERIÊNCIA de estar com ou conviver com a obra (ir à exposição, ao museu, ao ateliê ou comprá-la para ficar admirando em casa). Eu posso ouvir a obra completa do Caetano ou da Joyce em casa e não perderei tanto assim do seu objetivo inicial quando foi feita. Mas se eu ficar em casa vendo por livro uma obra de Richard Serra ou Chelpa Ferro, não viverei nem um décimo do que realmente está em jogo durante sua criação e exibição. Assim, o que o artista vende não é a execução da obra (como na música) ou a máxima possibilidade da série (como o cinema/DVD e a música/CD). Quanto mais o artista torna-se produtor de séries infinitas e mercadológicas, vazias de questões pertinentes ao meio crítico e histórico da arte, menos ele vale como artista para o seu campo de pares. Vide Romero Brito, artista milionário e totalmente desprestigiado entre os artistas brasileiros. Portanto, o artista vive de VENDER SUA OBRA. Ou de bolsas. Ou de prêmios.
Um jovem artista, hoje, no Brasil, quer o que? Claro que esta pergunta é retórica, já que cada pessoa vive a partir de uma motivação pessoal insondável aos outros. Porém, vamos fazer esse esforço de generalização: um jovem artista hoje no Brasil inicia sua carreira JÁ VISLUMBRANDO a profissionalização através da arte. E isso não é um problema. Isso é o amadurecimento de um sistema da arte que conta com universidades, cursos, galerias, escolas, certa expectativa de colecionadores etc. O mercado vive do fresh and new, numa espécie de capitalismo à La Pound (Money is news that stay news). Assim, novos artistas disputam com artistas maduros ou consagrados o mesmo campo, as mesmas listas, os mesmos prêmios. A questão é saber se todos precisam utilizar as mesmas PRÁTICAS para se relacionar com esse sistema que o Brasil constrói a duras penas nos últimos cinqüenta anos. Há muitos caminhos para se estabelecer como um artista profissional (no sentido de ocupação)? Ou há apenas os caminhos estreitos que serão reproduzidos por todos, sejam eles radicais, conservadores, inventores, diluidores, mestres ou monstros?
Semana passada Daniela Name postou em seu blog alguns comentários e artigos refletindo sobre a ausência de artistas cariocas na lista final do Premio Marcantonio Villaça deste ano – assim como no PIPA do ano passado. A repercussão foi ampla dentre os que freqüentam o blog. A questão que Daniela colocou é mais um sintoma do que um problema, apesar do sintoma raramente ser debatido ou posto em xeque. O problema mesmo não é entender a precariedade institucional de uma cidade em contraste com a organicidade entre insitituições, galerias, compradores, museus e universidades. O problema é entender se pode existir uma especificidade em cada espaço criativo regional ou se todos terão que trabalhar e viver sob o mesmo diapasão que emana do grande centro financeiro. É o mercado que consagra a arte feita em São Paulo? Não creio. Assim como não é o fracasso institucional do Rio de Janeiro que impede a ascensão de artistas cariocas em certos meios. A questão é saber, novamente, o que o artista espera do seu trabalho como forma de vida, profissão. O investimento agudo e solitário na linguagem que se escolhe como arte é um trabalho árduo e, na perspectiva romântica porém real, sem retorno financeiro garantido. Como investir na linguagem e ser um profissional remunerado por um mercado volátil e uma ausência completa ou quase completa de aquisição de obras por parte das instituições e do Estado? Matemática difícil de se resolver.
Mas a grande notícia, o grande tema da história cultural brasileira atual é a promessa de Jorge Ben(Jor) em apresentar um show completo com todo o disco Tábua de Esmeraldas, tocado do mesmo jeito e se possível com os mesmos músicos. Isso é a maior notícia do ano. E não tem preço.