Atlantico Sul – o blog da Alexandra d’O Publico
A jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho é correspondente do jornal O Publico no Brasil e criou o blog Atlantico Sul onde coloca seus textos e fotos sobre sua estada aqui no Bananão, sobre a volta a Portugal com livros do Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Hollanda, Stefan Zweig embaixo do braço e momentos de férias na Praça Tahrir bem no meio da revolução. Alexandra está morando no Rio perto das Laranjeiras e está sendo perseguida pelo Brasil o tempo todo. Mora numa casa com Preta e Bela no bairro onde morava um bruxo escritor. Adorei os textos, adorei o blog. Recomendo… Pegueis esses 2 trechos lá agora:
– É difícil ter uma visão idílica do Brasil depois de viajar por estradas de terra até ao vale do Jequitinhonha, já considerado o lugar mais pobre do país. Ou depois de deambular pelos arredores industriais de São Paulo sob um céu de chumbo. Ou depois de apanhar um daqueles comboios que levam ao fundo do Rio de Janeiro. O Brasil é o escândalo das 850 mortes numa noite de chuva e a humanidade de um país inteiro a ajudar. É uma identidade a caminho. É um grande caminho.
– Quando a soma de tanto desejo encontra o seu momento tudo parece começar. Viver o Brasil agora é uma experiência de exposição a essa energia, que trespassa o corpo como trespassa a língua.
Sendo eu portuguesa, há nisto um sentido político construído pelo passado. Mas o futuro do nosso passado é sempre feito a partir deste exacto momento, e se isso é válido para o passado individual também será válido para o passado comum.
A identidade não se perde, está em movimento. Ser lisboeta-português-europeu será uma carga fixa, que cada um funde com outras como pode ou quer.
Muito mais que o sentido político passado — gerador de toda uma bibliografia colonialista, pós-colonialista e pós-pós-colonialista — interessa-me o sentido político futuro, por exemplo a forma como o brasileiro absorveu o estranho, o estrangeiro, o bárbaro. A sabedoria que fez o brasileiro ficar soberano.
O medo é uma perda de soberania. Quanto mais medo a Europa tiver, menos será soberana.
PS:
Alexandra esteve no ateliê faz umas 5 semanas para fazer uma entrevista. Falei pelos cotovelos, pelos joelhos e pelos tornozelos. Estava em uma das crises de euforia mórbida e desembestei a falar. Ela estava coletando diversos depoimentos de artistas (musica, artes plasticas, cinema, dança e literatura se nao me engano) sobre o Rio decadente de agora e de como poderá ser o Rio de amanhã. Uma cidade hype internacional como nos 60? Uma cidade arrumadinha como o jovem prefeito da Barra? Um novo destino turistico/cultural do planeta? Falamos das UPPs, dos projetos mirabolantes, da mudança, da transformação, da desrdem absoulta, de sonhos e de desanimo. Falamos da cena artística numerosa, talentosa e singular porém acanhada da cidade hoje. E também de como artistas partipam e participarão desse processo de transformação / re-invenção do Rio. Semana passada passou um fotografo d’O Publico e fez fotos aqui no ateliê. Acho q a matéria ainda não saiu. Ela pensava em falar ainda com o B Negao, Flora Sussekind, Enrique Diaz, Ruy Castro, Lia Rodrigues e outros mais. Vou mandar um email agora p ela pra ver se já saiu quando sai etc e tal.