Vampire Weekend no Circo

Chico Dub me mandou um email com a imagem do cartaz acima e o seguinte recado abaixo… e também veio junto a coluna do Dapieve de 7 de janeiro. Ave Chico!

Nesta quinta, o pessoal do Queremos organiza mais um show no Rio. Depois de Miike Snow, Belle & Sebastian, Mayer Hawthorne e Two Door Cinema Club, chegou a vez do Vampire Weekend.
Pra quem não conhece, o Vampire é uma das mais famosas bandas indies dos últimos anos. Com dois discos lançados, é uma e chance e tanto de ver uma banda no auge tocando no melhor palco da cidade, o Circo Voador. Sem contar que a abertura (mais do que apropriada) fica por conta da banda Do Amor.
Pra esquentar, ouça a mixtape que o pessoal da Tecla preparou para divulgar o show. São 60 minutos com sons do “universo Vampire” (Paul Simon, The Clash, Talking Heads, King Sunny Adé….).

E com a palavra, Arthur Dapieve:
VAMPIRISMO
Colunista admite: é do ‘Contra’
“O primeiro grande sucesso do hoje valorizado Odair José foi “Vou tirar você desse lugar”. Era uma daquelas suas habilidosas canções de apelo popular, pegajosas e levemente apimentadas — como convinha a 1972, ano de impenetrável ditadura e de censura feroz. Falava do amor de um sujeito por uma prostituta. Ele fora pela primeira vez ao bordel para se distrair, “em busca de amor”. Na segunda, estava com saudade da moça. E, na terceira ida, já cantava um refrão para ela: “Eu vou tirar você desse lugar/ Eu vou levar você pra ficar comigo/ E não interessa o que os outros vão pensar.”
Não penso que fosse intenção de Odair fazer metalinguagem, mas na minha cabeça qualquer música sempre deveria almejar nos tirar do lugar. Porque o ouvinte tende a ser uma maria vai com as outras, uma espécie de prostituta que dança com meio mundo e não se move de verdade por quase ninguém. A maior parte da produção musical não tem nem a ambição nem a capacidade para nada mais do que pegá-lo, sacudi-lo um pouco e… Deixá-lo exatamente no mesmo lugar. Seja este o elevador, a pista de dança, o automóvel ou a academia. Ela entra por um ouvido e sai por outro, ainda que demore semanas no caminho, martelada pela memória ou pelas rádios.
Compare com o conjunto das obras, por exemplo, de Bach, Roberto Carlos ou Radiohead. Suas músicas tiram o ouvinte do lugar, do lugar-comum. Ao dosarem familiaridade e estranheza, repetição e invenção, elas nos transportam para novos universos, maravilhosos lugares que, uma vez vislumbrados, parecem sempre ter estado ali. A boa música é uma viagem sem volta. Porém, conforme o bom ouvinte é movido daqui para lá, de lá para acolá, e vai conhecendo mais lugares, ele precisa lutar contra a angústia de achar que já ouviu de tudo. E que nada mais irá tirá-lo desse lugar.
Eppure si muove, felizmente… Porque todo esse introito é para lhes contar que o CD de música pop internacional que me levou mais longe em 2010 foi “Contra”, do quarteto nova-iorquino Vampire Weekend. E ele só me bateu em todo o seu esplendor depois de dois amigos, que entendem de música, terem desdenhado da banda. Um disse que “Contra” nada avançava em relação ao disco de estreia, “Vampire Weekend”, de 2008. Outro anunciou que não daria um centavo para ver o show do grupo no Circo Voador, em 3 de fevereiro. Para completar, “Contra” não entrou na lista de 50 melhores do ano da querida “Mojo”, a revista inglesa com quem ando me estranhando.
Então, depois de ter viajado à beça com “Contra”, lançado aqui recentemente pelo bendito selo Lab 344, pensei se não estaria maluco. Fui pesquisar outras listas de melhores de 2010 e, ufa, lá estava o CD. Estava na revista americana “Rolling Stone” (sexto lugar, entre 30) e nas inglesas “New Musical Express” (24º lugar, entre 50) e “Q” (quinto, entre 50). Não que isso fizesse grande diferença — ele podia ter sido ignorado por todas que continuaria sendo o meu número 1 — mas é sempre bom saber que alguém mais no mundo, ou na imprensa, sentiu o disco mais ou menos do jeito que senti.
Uma das coisas de que mais gosto em “Contra” é justamente ele ser um segundo disco do nível que é. Porque costumamos ser ludibriados por primeiros discos. Eles concentram todo o tesão acumulado em anos de ralação, são um jorro de criatividade represada, tão bons que dobram a responsabilidade da segunda vez. Aí, quando vem o sucessor, transado num curto intervalo, fica aquela coisa meia-bomba, frustrante. Isso não ocorre com “Contra”, em parte porque o espaço entre o nascimento da banda, em 2006, e o lançamento do aclamado “Vampire Weekend” também tenha sido breve.
O grupo foi formado por alunos da Columbia University, lá em cima na Broadway, esquina com a Rua 116. O que conferiu aos seus membros certa aura intelectual — as letras são de gente que estudou, ao menos um pouco — e lhes deu oportunidade de definir seu som, não sem ironia, como “Upper West Side Soweto”. A menção ao gueto negro próximo a Johannesburgo, na África do Sul, demarca de imediato a sua paixão pelas músicas de todo aquele continente. Nisso, o Vampire tem antecessores ilustres na própria cidade de Nova York: Paul Simon, fase “Graceland” (até a voz de Ezra Koenig lembra a do ex-parceiro de Garfunkel), e David Byrne.
Já a porção “Upper West Side” garante que o grupo mantenha distância de qualquer “raiz” imobilizadora. São quatro garotos americanos de ouvidos abertos, que flertam com ritmos e harmonias africanas, mas praticam ainda o bom pop-rock de sua terra, mais música latina e eletrônica. Vampirismo do bem. Assim, “Contra” traz, em pouco mais de 36 minutos, uma quantidade notável de músicas sedutoras. Nada menos que nove entre dez faixas: “Horchata”, “White sky”, “Holiday”, “California English”, “Taxi cab”, “Run”, “Cousins”, “Giving up the gun” e “Diplomat’s son”, referência ao falecido Joe Strummer, do Clash, outro amante dos sons desse mundão besta. A mais fraca é justamente a derradeira, que explica o título do CD, “I think ur a contra”.
Acho que “Contra” também me moveu tanto por ser alegre, para cima, em que pesem alguns raros climas sombrios. Costumo preferir músicas tristes, livros tristes, filmes tristes. Até as mulheres me apaixonam mais quando nelas flagro uma expressão de tristeza. Por isso, imagino que aqueles que forem ao show no Circo serão felizes.”
Arthur Dapieve
texto publicado em sua coluna no Segundo Caderno do Jornal O Globo (07/01/2011)

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