Na floresta das balanças de ferro o vento sopra frio
Trata-se aqui talvez da procura do gesto mágico, da utópica busca que de um leve toque apenas saia o movimento perpétuo, a vida imparável, o não atrito eterno, eternizante… O desejo omnipotente da transformação da morte em vida, do estático em móvel, do bruto em ágil.
Do ferro em carne ?
O ego logo na ponta dos dedos. A alma que pronta acede ao toque. O pó morto que voa feito vivo em movimento.
Os balanços de ferro de Raul Mourão, esculturas cinéticas, podem ser casas ou cadeiras, homens, cães ou pequenas cidades, uma mesa em mexida conversa a dois, gaiolas e pequenas prisões, moinhos de vento sem o Quixote, corpos ôcos, coisas fechadas de ferro e muitas outras… dependendo, claro, de quem os olha. Uma enorme grade tipo cerca dependurada ao contrário numa parede parece chamar por outras (in)seguranças; o telhado baloiçando do cimo de uma casa parece um aviso pendente, anedótico e trágico, um rasgante vento forte …
É suposto que os balanços balancem sempre, essa a vontade ambiciosa do artista. Impossível, claro. Dependem do toque humano antes que parem. E antes que comecem.Como eles, não estaremos também nós condenados a viver aos bocados, apenas por algumas vezes? A adormecer horas a fio numa morte parada e aparente todos os dias, a depender também nós de um toque, ainda que interior, que nos puxe para esta real idade em que estaremos então, despertos, em movimento? Seremos nós assim também fantoches fantasmas de ferro, condenados a agir por resposta a um impulso, surgido de dentro de nós ou não, a reagir apenas no sabor de um vento, palhaços alheios a uma vontade própria, figurinos ôcos de ferro, fortes por fora, vazios de dentro…Alguns balanços, que são também balanças todos eles, claro, jazem mortos, acho que nascem já mortos. Para esses nada a fazer. Não haverá para alguns nem sequer a possibilidade remota de um mágico toque que os desperte, que os anime, que os levante.
O peso da vida estática que lhes assenta numa morte eterna e dura tudo esmaga, impassível e cruel, como se de ferro ao vento frio. Pode-se dizer que as balanças hesitam, que se dividem entre os dois lados que vão invadindo no seu movimento, acima ou abaixo, como os baloiços. Não escolhem subir nem descer e querem viver ambos. Uma palerma indecisão a tender ao infinito não fosse, claro, dependerem do humano toque, do grave gesto, para que esse pobre bailado parvo se eternize.
Quando várias balanças se encontram num mesmo lugar a magia ondulante desse encontro surge dos desencontrados movimentos delas todas. Contagiante, plástica, séria. A tal floresta de ferro resplandesce então numa conversa alegre, surda e colorida, ganham vida outras coisas belas que saiem delas e voam, voam… Tudo vibra bem vivo assim, e a vida ganha por algumas horas, por alguns momentos…
Apenas por alguns momentos.
Claro que tudo isto é trágico. Claro que a morte sempre vence tudo. Claro que nada se eterniza. Claro que há beleza assim…
Jorge Emanuel Espinho