FC/RIO #1 – Frederico Coelho é o novo correspondente do bRog

Caros leitores, dessa vez não é um correspondente internacional não. É um correspondente interior. Um enviado ao centro da cidade purgatorio da beleza e do caos. Um reporter pesquisador que quer descobrir o tamanho do caroço de manga que anda engasgado na garganta da capital mundial do bundalelismo, da roubalheira e do travestismo. foca mandando noticias do miolo do corpo esquartejado d’Janira, pensamentos do coração do Rio e entrevistas com as melhores mentes insanas do pedaço. Os editores dessse pequenino b®og resolveram que urge ter um correspondente nacional-local com raizes fincadas no Cacique de Ramos e também no Suvaco do Cristo. Foi decidido em assembleia extraordinaria na noite de ontem o seguinte: Só Coelho, que é prof doutor em Helio Oiticica, amigo do Bafo da Onça e cacique Dj Miró da festa Phunk, pode em nossos dias tirar a polaroid digital do aqui, do agora e do que será o amanhã. Sarava Fredin! Bemvindo ao b®og. La vai a primeira coluna do garoto. É noise! (Aí na coluna lateral tem uma apresentação do Fred pra quem ainda não conhece a figura)

foto do Mauricio Valladares (o homem nos bastidores da noite de ontem)
FC #1
Tempestade Emocional

Fazia calor na cidade, mas o vento anunciava preguiçoso um temporal. O teatro lotado, mas quieto. Tudo, digamos, um grau acima. Uma noite calma no disperso, caro e internacional verão carioca. No meio do palco imenso, uma moça e um rapaz. Duas guitarras, um baixo, uma bateria muito bem tocada, orquestra de cordas, trio de metais. Nenhum DJ. Ele tocava violão, sanfona, teclado e piano. Marcelo Jeneci é um nome meteórico na música brasileira que saiu de trás das bandas de músicos famosos e dos teclados do grande disco de Arnaldo Antunes (sempre ele) e vem ganhando o palco central da, ainda, MPB. Sim, o show de Jeneci confirmou que ainda existe o que chamam de MPB, com suas bases na cultura popular brasileira e na força da CANÇÃO. Alou rapaziada, a canção popular brasileira não acabou. Janeci não tem nem trinta anos e voou por décadas e décadas de referências e diálogos melódicos e literários presentes na nossa música. Quem foi ontem no show de Jeneci viu isso. Goste ou não, louve ou não, ontem foi exibido um momento de Afirmação potente da nossa canção em todas suas possibilidades, em toda sua herança e esperança. Toda a geração de músicos jovens que vêm ocupando as páginas e telas do Brasil contemporâneo são, em sua ampla e vasta maioria, cancionistas. A turma de SP, a nova turma do RJ, eles fazem canções. E Janeci, ontem, no Casa Grande, mostrou belíssimas canções. Nada nostálgico, nada conservador, nada presumível. Canções atemporais na maturidade em que foram compostas e, principalmente, defendidas no show. 
Em 1968 os Mutantes se apresentavam no Teatro Casa Grande, exatamente ali onde ontem Jeneci se apresentou. Onde arrebatou um respeitável público que dificilmente prestaria atenção nos seus delicados e intrincados arranjos caso o show fosse no Circo Voador, por exemplo. Os Mutantes, ainda garotos, no Leblon, eram dirigidos por Maria Esther Stockler e José Agripino de Paula, proclamando um enclave alucinado de São Paulo na zona sul carioca, perto do clássico bar Antonio’s. Será que Roniquito atravessou a rua para conferir a juventude colorida do espetáculo? Será que Paulo Mendes Campos tomou outro ácido para ver Rita Lee Jones e os Irmãos Batista tocando o som tropicalista? Ontem Jeneci desembarcou São Paulo e sentado no piano lembrou Mutantes, pois Laura Lavieri cantava pequeno e afinado como Rita e ele em alguns momentos foi Arnaldo Batista. E Arrigo Barnabé. E Elton John. E Rick Wakeman. Ele foi também Roberto Carlos, Thom Yorke, Belchior, Los Hermanos, Radiohead, Odair José, Dominguinhos, Deodato, ele foi sereno e seguro, genuinamente dedicado ao seu som.
Hoje em dia é quase impossível um show valer mais do que um CD. Geralmente o show é a execução melhorada dos arranjos do disco. E Jeneci ontem fez isso. Porém, fez isso com tanta força, beleza, tranqulidade e, principalmente, felicidade, que sua música calou fundo em todos que estavam a fim de estar ali para ver um novo som. Convocou o lendário – e cada vez mais conhecido – Arthur Verocai para conduzir os arranjos das cordas, em uma participação discreta, elegante, como tudo no show. O acordeon com as cordas, o piano com as guitarras, Tulipa Ruiz brilhando e ao mesmo tempo sacando de forma também altamente elegante que o show era de Jeneci, sua vocalista Laura singela e tranquila, a bateria ora clássica, ora hardrock, as canções de Roberto, o despojamento sem nada além da música sendo executada sem afetações pela banda, suas letras contemporâneas e clássicas ao mesmo tempo, nada diferente, a reinvenção criativa dos mesmos temas de nossas canções de rádio e remorso, o amor, a saudade, a praia, o sol, o mar, um navio a navegar, um avião a decolar e uma chuva insistente. Uma chuva que aparece várias vezes em suas letras e pode ser vista como a metáfora do clima melancólico de suas músicas. 
Talvez seja por isso que Jeneci elogiou enfaticamente seu muso inspirador Marcelo Camelo na participação do compositor de barba e bermuda. Camelo sempre deixou chuvas e tempestades em suas músicas, mesmo nas solares. O belo momento deles dois tocando em violão e piano “Pois é” ficará longamente marcado para quem gosta das composições de Camelo, sem dúvida. Alegre e choroso, solar e chuvoso. Jeneci invejou a bermuda de Camelo. Pensou em se mudar para esta quente cidade. E disse que a marca que veste seu show se chama Garoa. Ao sair do show, todos sorriam calorosamente mesmo que espremidos pela chuva que caía calma na cidade. 


Frederico Coelho, 11 de janeiro de 2011
1 comment
  1. a vida é larga said: