MC LDN #6
Ao menos uma vez por mês, eu e minha boa amiga Lucy Moore, jovem pintora inglesa, fazemos uma caminhada pelas galerias de Mayfair. O roteiro é sempre parecido, começando invariavelmente pela White Cube de Mason’s Yard, passando pela Thomas Dane, Sprüth Magers, Stephen Friedman, Gagosian e terminando na Sadie Coles HQ. Sexta-feira passada, enquanto fazíamos o nosso tour, chegamos num impasse após visita à exposição da Beatriz Milhazes no Friedman: eu queria seguir para a Sadie Coles ver a individual de Angus Fairhurst enquanto Lucy queria visitar a nova Hauser & Wirth em Savile Road. Como ela infelizmente se muda ainda esta semana para a Austrália, acabou tendo maior poder de escolha e nós seguimos para Savile Road.
Para a inauguração deste novo espaço, que consiste em duas salas ocupando meio quarteirão em pleno Mayfair, a Hauser & Wirth organizou uma exposição com os trabalhos de tecido de Louise Bourgeois. O uso deste material por parte da artista não é nenhuma novidade: grande parte de suas esculturas e instalações envolvem o uso de tecido, fato compreensível uma vez que os pais de Bourgeois trabalhavam no ramo de tapeçaria na França, o que muito influenciou a carreira da artista (daí sucede sua mãe ser retratada como uma aranha [Maman, 1999]). A grande surpresa, foco e novidade desta exposição são trabalhos de parede, quadrinhos de não mais que 50 cm que a artista produziu entre 2002 e 2008.
Tendo nascido em 1911 e falecido em maio deste ano, a artista-ícone francesa penetrou praticamente todas as mídias passíveis de serem penetradas nas artes-plásticas: fez esculturas de variadíssimos tamanhos em madeira, pedra, pano, mármore e cobre; desenhou, pintou, expôs seus traumas, fragilidades e sexualidade, instalou e desinstalou, pendurou, castrou, jantou o pai e demonizou a mãe. Além de 3 ou quatro grandes instalações deste já familiar repertório de Bourgeois, foi de uma beleza ingênua ver os trabalhos recentes da artista – pequenos, com um sem-número de cores e formas, alinhados em molduras individuais sobre a parede. São colagens, todas sem título, de retalhos de panos acumulados durante toda uma vida, costurados de forma a compor ora figuras geométricas como retângulos ou linhas, ora teias partindo de um ou mais centros do tecido. Por vezes o volume saltava o pano, com bolas ou pequenas pedras penduradas sobre ele. Eu pude quase enxergar Louise Bourgeois em seu studio no Brooklyn, em meio àquelas instalações monumentais, sentada num canto, tecendo as suas memórias num trabalho solitário e individual. Tornando-se ela mesma em Maman, revivendo lembranças de uma vida, enfim encontrando os devidos lugares de cada uma, esperando, já aos 90 anos, que alguma Moira lhe cortasse o próprio fio.
A artista revela com esta exposição uma dimensão do percurso da vida, voltando ao palpável, ao artesanato, ao pequeno, como nós mesmos ficamos fisicamente pequenos após certa idade. O trajeto de Bourgeois, artista, não foi a desmedida busca do mais e do maior, desafiando até aonde vai a ambição humana. Quem sabe ela não resolveu os temas que tanto a atormentaram ao realizar a obra de uma vida? Os anos finais foram de balanço, achar nome a lugar para as coisas, tempo de fechar um círculo: ciclo.