E livre seja este infortúnio – Francisco Bosco
Sábado, no ateliê aqui na Lapa, Francisco Bosco lança seu livro, são ensaios mas com alma de poesia. O lançamento acontece entre 19h e 22. Depois rola festa/pista até 1h da manhã com os djs Nepal, Arthur Miró (Festa Phunk) e Rodrigo Montoni. O release que Francisco me mandou diz assim:
E LIVRE SEJA ESTE INFORTÚNIO ] FRANCISCO BOSCO
O tema do novo livro de Francisco Bosco, E livre seja este infortúnio, pode ser resumido de modo singelo e direto: “as pessoas mudam?” Por meio de uma série de textos heterogêneos quanto à escrita (alternando ou equacionando os registros teórico, autobiográfico e narrativo), mas intensamente coeso quanto à questão perseguida, o livro se debruça sobre trajetórias de vidas e analisa momentos de ruptura radicais. Em que condições uma pessoa pode se transformar? Que práticas existenciais propiciam ou impedem uma transformação psíquica?
Como descreve Nuno Ramos, “o livro pergunta essencialmente (e quase deseja) por uma crise. Inominável, disforme, completa, essa crise ronda como um eco de fundo cada frase e cada raciocínio, e é seu elemento verdadeiramente unificante, a um só tempo pessoal e cultural. O mundo descrito por Francisco Bosco quer quebrar-se, ou está prestes a.”
Mirando obssessivamente os momentos e as condições de grandes transformações, trata-se de um livro que não deixa de compartilhar o interesse primordial do gênero autoajuda – chegando, contudo, a uma conclusão diametralmente oposta: o movimento que precede uma ruptura radical é aquele de um pensamento negativo, capaz de sustentar um incômodo e impedir que seu potencial transformador se desperdice sem a direção e o conteúdo necessários.
À maneira dos relatos de casos clínicos pela psicanálise, o livro tem a concretude como método: por que Kafka não pôde se livrar da opressão tirânica de seu pai?, por que Arnaldo Baptista passou da infância à melancolia, e daí a uma aparente tentativa de suicídio?, por que uma ascese parece ser condição necessária para a realização e sustentação de um ato transformador?, por que o ciúme pode, em certas condições, revelar-se uma via insuspeitada de reinvenção do eu?
Os conceitos fundamentais de que se vale o livro são egressos da psicanálise. Mas, antes disso, esses conceitos remetem a problemas que não são exclusivos da psicanálise ou de qualquer outro campo de saber; os problemas são sempre da vida, os conceitos é que pertencem a territórios discursivos. Esse livro compartilha com a psicanálise o interesse por determinados problemas. Mas, nele, o diálogo primordial é com esses problemas, e não com a psicanálise.
O filósofo Gilles Deleuze dizia que, se não formos capazes de remontar as abstrações aos problemas de que elas se originam, a teoria não serve para nada. Pois bem, E livre seja este infortúnio é um livro fiel a essa perspectiva, a qual entende que os conceitos são meios – a vida é que é o fim.