Veículo Rastreado

Em 2002 fiz minha primeira exposição individual em São Paulo no Gabinete de Arte Raquel Arnaud. Chamava-se Portátil – 98/02 e reunia seis trabalhos realizados entre os anos de 1998 e 2002. O conjunto de obras afirmava a pluralidade de meios que sempre marcaram minha produção desde o início. Para o folder da exposição escrevi esse pequeno texto aí embaixo:

Veículo Rastreado
“Não precisa de mais nada. Não precisa de ninguém. Linhas no computador. Cinco imagens na tela em frente ao nariz. Dois cartões no bolso traseiro esquerdo, um vermelho e um amarelo. / Cupim come a madeira. Música com buracos. / Os talentos precoces amadurecem lentamente, quando amadurecem / Poucos amigos. Péssima pescaria. Sangue ruim. / Disse que não vai se repetir. Tudo irrita. A pele queima. Liga a televisão duas vezes. O soldado que nunca lutou, o atleta que nunca competiu. / Estará lá novamente quando voltar. Trinta dias, seis cidades diferentes. / Acorda perto da Central do Brasil sem documentos e sujo. Volta até o cinema da noite anterior. Onibus e depois barca até Niterói. Encontra a mãe morta. Pára e pensa. Não tem dinheiro. Nenhum. / Na parede: o chão. Na janela: o poste. Vai cortar o cabelo e diz que ama o aprendiz. Comprou uma máquina fotográfica. Idéia nova (zero). /Poltrona da sala de estar. A lembrança de uma criança. Em casa permaneço lendo o campo, o campo do futebol. /Ruído. Segura minha mão. Tudo vai explodir. Alguém desce pelas escadas correndo. O dia está amanhecendo. As estrelas vão embora. Ninguém se importa. Existe diferença. /Banco do bar. Banco do assalto. / Pais olhas seus filhos. Nervosos. Vão descobrir um caminho melhor, longe das drogas. As boates de sacanagem não prestam mais. Tudo vai melhorar no ano que vem. / Tristes e tortos, todos foram feitos de borracha.”

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  1. Fred Coelho said: