Depois de Paris e Nova York, Tunga leva obra de arte monumental à Bahia

Saiu no Segundo Caderno d’O Globo de sábado passado esse perfil do Tunga. 

O artista plástico Tunga / Foto de Márcio Lima
Susana Velasco, enviada especial a Salvador

SALVADOR – Numa viagem a Bangcoc, na Tailândia, Tunga foi parar num mercado de amuletos bizarros, como lagartixas trançadas e excrementos petrificados, entre outras bugigangas que deram um susto no artista plástico:
– Parecia que eu tinha ressuscitado ali.
Tunga viu ali parte do repertório de objetos míticos que desde os anos 70 compõe a sua obra, criada a partir de elementos que se contaminam e se alimentam: tranças, ímãs, serpentes, rãs, pentes, bengalas, ossos, crânios, redes e cálices repletos de gel, líquidos e substâncias que remetem a fluidos corporais. Com essa extrema presença física dos materiais, o artista criou uma obra que, hoje aclamada internacionalmente, trata de questões transcendentais.
– A busca do anímico é uma forma segura de se falar de poesia e arte – afirma Tunga, aos 58 anos. – A arte que me interessa é a que articula os sentidos que não são passíveis de serem revelados por uma mediação crítica. O momento de calar é o momento em que a poesia fala.
Apesar de ressaltar o indizível de sua obra, Tunga fala sem pudor sobre ela, com sua multiplicidade de discursos. Em algumas horas, no intervalo da montagem da exposição “À luz de dois mundos”, em Salvador, ele fala sobre Winnicott, Tristan Tzara, Newton, Santo Agostinho, San Juan de la Cruz, Freud. Sobre psicanálise, filosofia, História da arte, religião, literatura, arqueologia, antropologia, erotismo:

– Fazer arte é se interessar por tudo. O artista é uma espécie de clínico geral que lança mão dos seus especialistas quando necessário. Na hora de criar, me coloco na posição de sujeito múltiplo, como se dispersasse uma identidade. O que temo da postura da arte contemporânea é a presença excessiva de especialistas, que cria categorias empobrecedoras.
O interesse infindável se materializou numa obra inconfundível – sempre se vê Tunga numa obra de Tunga -, com a qual o pernambucano radicado no Rio se tornou um dos mais importantes e singulares nomes da arte brasileira. Tunga foi o primeiro artista contemporâneo a expor no Museu do Louvre, em Paris, onde cerca de quatro milhões de pessoas viram a monumental “À luz de dois mundos” sob a pirâmide do museu. A obra também já foi montada no P.S.1, centro de arte contemporânea do MoMA, em Nova York, e, inédita no Brasil, desde este sábado está exposta no Palacete das Artes Rodin Bahia, em Salvador, no programa de escultura contemporânea Quarta Dimensão.
Ali, Tunga dispôs uma balança que equilibra, de um lado, um grupo de crânios, e, do outro, cabeças de esculturas (réplicas de peças do Louvre) presas por tipitis – cilindros usado pelos índios para espremer mandioca. Entre os dois mundos, um esqueleto negro sem cabeça deita numa rede. A obra ainda carrega objetos típicos do vocabulário de Tunga, como tranças e uma bengala e um pente gigantescos.
– Na arte contemporânea, o Tunga é aquele que consegue dar força poética, materializar visualmente com muita força conceitos muito abstratos, questões filosóficas. Ele usa elementos imediatamente comunicativos e consegue criar uma escala espetacular sem espetacularizar a obra – diz o crítico de arte Paulo Sergio Duarte, que montou uma apresentação com imagens da produção e da exposição de “À luz de dois mundos”, exibida agora em Salvador.

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