João Roberto Kelly + Andre Weller
Andre Weller velho de guerra me mandou esse flyer e o release abaixo do seu mais novo curta q estréia nesta próxima sexta no Festival Internacional de Curtas de São Paulo.
Só vou de balanço
Uma aula de piano e de balanço, como o próprio nome em inglês, o esperto “Swing Master Class”, do novo curta de André Weller nos sugere. Desde seu primeiro e surpreendente filme, o premiado “No tempo de Militinho”, que o cineasta e músico exercita o que costuma chamar de “investigação musical” e que a crítica nomeou merecidamente de “cinema sincopado”.
“No balanço de Kelly”, o curta com lançamento no Festival Internacional de Curtas de São Paulo nesta próxima sexta, também não é diferente: uma apurada pesquisa do estilo do compositor da música mais executada em todo Brasil, “Cabeleira do Zezé”, o irreverente e divertido João Roberto Kelly. Mas também poderia ser um gostoso bate papo entre amigos de fato e de direito, eliminando a diferença de idades, entre uma gargalhada e um gole de cerveja, ao redor do piano. Sim, os dois estão ao piano, dividindo a mesma banqueta. O “sorriso de marfim” serve para ilustrar a conversa entre os dois pianistas. É “cinema a quatro mãos”, como eles gostam de definir orgulhosamente este trabalho. Weller conheceu Kelly na televisão. Das surpresas vespertinas, entre uma música, uma mulata, e outra, o futuro diretor e estudante de piano percebeu, ainda nos áridos anos 80, que o piano tocava algo além de Beethoven e Chopin. As reminiscências de André servem como força motriz para reviver os programas de João. Seu curta bem poderia ser um making of deste despretencioso show de intimidades na telinha. Ou seria um making of de um filme?
“No balanço de Kelly” também pode ser um desfile de pérolas, um bloco dos relicários, tesouros escondidos por aí. O que falar do encontro emocionado e emocioante do compositor bonachão e de um inspirado Grande Otelo cantando apaixonadamente a “Dança do Bole Bole” em imagens de arquivo de 78? Ou da raridade do piano a quatro mãos mais balançado do mundo entre um jovem João e o luminoso Luis Reis, ainda em 74, alimentando a fogueira do sambalanço? “Mulata Iê Ié Ié” e “Rancho da Praca XI” estão lá também: um fragmento colhido por Weller e que agora pode ser visto e saboreado junto com uma receita de como fazer marchinhas pelo maior compositor vivo (e bem vivo…) do gênero. Não satisfeito em reviver estas pérolas, o diretor ainda promove uma outra definitiva: um ensaio tocante e indescritível entre dois grandes da música: Elza Soares canta, em meio a lágrimas, acompanhada por um piano camerístico e surpreendente de João Roberto Kelly. É arrebatador.
Aula de piano, investigação musical, um despretencioso bate papo entre amigos. Um making of, um desfile de pérolas. Um ensaio. “No balanço de Kelly” pode até ser tudo isso. Pode até ser um documentário sobre uma das figuras mais geniais, intrigantes, queridas, mais cantadas e menos conhecidas dos últimos 50 anos. Muito além das marchinhas, “No balanço de Kelly” é um dos documentos mais reveladores já registrados. E é saboroso também. Se o corte de Weller em “No tempo de Miltinho” foi o próprio tempo, o balanço é agora a sua tónica neste seu novo trabalho. A única diferença é a que para mostrar todo o balanço, o swing do experiente compositor, André teve que experimentar e beber da fonte. O resultado só vendo.