João do Morro, sambista de Recife, hoje no MOFO
Essa matéria aí embaixo do Leonardo Lichote saiu no Segundo Caderno do Globo semana passada. Eu estive lá no show do Rio Rock & Blues Club e estarei logo mais no MOFO aqui na Lapa. João do Morro é diversão garantida e música da melhor qualidade. Imperdivel mesmo.

João do Morro, sambista de Recife, faz shows no Rio
RIO – A roda de samba no bar na franja do Morro da Conceição, em Recife, era igual a outras tantas nas quais João Pereira da Silva já havia cantado suas músicas. Mas naquele dia o sinal fechou na hora certa, e um grupo que apenas passaria de carro por ali gostou do que ouviu e resolveu ficar para conhecer melhor aquelas canções – bem-humoradas crônicas, com base de pagode baiano. Começava o nascimento de João do Morro, o mito – mais um, entre tantos da era digital, de periferia chegando ao centro e vice-versa. O músico se tornou fenômeno ao mesmo tempo popular (nas carrocinhas de CDs piratas) e “alternativo” (em festivais como o RecBeat e boates nobres da capital pernambucana). Daí para a internet (e para o posto de personagem-cool-da-semana em algum momento de 2009) foi um pulo. Agora, ele ultrapassa mais uma fronteira, com seus primeiros shows fora do Nordeste: toca hoje no Rio Rock & Blues Club, e, no dia 17, no Mofo Lapa Bar, ambos na Lapa.
João lembra o dia em que seu samba – formado na infância, quando aprendeu a tocar percussão numa escola de música de sua comunidade, e, depois, nas bandas de axé e pagode das quais participou – começou a dar seus passos para fora do Morro da Conceição:
– Os caras pararam no sinal e daí a pouco perguntaram: “É perigoso ficar aqui?” Falei que estava tranquilo, eles gostaram e, na saída, disseram que iam me ligar para eu fazer umas festas. Foi assim que caí nas festinhas da burguesada.
João estranhou quando, pouco tempo depois, foi chamado para animar um “Shabat”:
– Achei que era aquela história judaica. Só depois descobri que era “chá-bar”, um chá de panela que a pessoa faz num bar para não sujar a casa.
Do chá-bar para casamentos e aniversários, o nome de João começou a circular na “burguesada”. Dessa relação surgiu um apoio de R$ 1.500 para gravar seu primeiro disco.
– Gravei por R$ 250 e fiz mil cópias por R$ 1.200 – conta.
João decidiu então sair do açougue onde trabalhava havia seis anos e investir na carreira artística. Ia a bares com música ao vivo para vender CDs e dar canjas – uma delas foi gravada e virou disco pirata.
– Ouvi minha música numa carrocinha e perguntei: “Quem é esse aí?” “É João do Morro, tá estourado.” Perguntei quanto era, ele disse: “Para você é R$ 5.” Comprei – lembra João, que gravou depois o CD “Do morro ao asfalto”.
O apelo de suas músicas vem do humor popular, que flerta com a vulgaridade, aliado a um olhar esperto sobre o cotidiano da periferia – do garotão sustentado pelo homem mais velho (“Papa-frango”) ao alisamento capilar (“Balaiagem”), passando pelo papo de usuário (“O avião”). Um “cronista social”, enfim, como apareceu nas primeiras reportagens locais.
– Só soube que o que fazia era crônica social depois que me disseram. Não sabia quem era Noel Rosa, que meu empresário me mostrou – diz, lembrando outra referência. – Acho massa Bezerra da Silva falar só do morro, mas quero cantar do barraco à cobertura. Só que moro no Morro da Conceição até hoje. Porque planta sem raiz murcha.