Entrevista com Glenn D. Lowry – diretor do MoMA

Tá lá no site da Fundação Iberê Camargo.

Gestão e criatividade

Glenn D. Lowry é o atual diretor do 
Museum of Modern Art (MoMA)de Nova York. Ele assumiu o cargo em 1995, e hoje comanda uma equipe de cerca de 750 pessoas e um dos acervos mais amplos de arte moderna do mundo.

Iniciada com uma doação de oito gravuras e um desenho, a coleção do MoMA cresceu para um total de mais de 150 mil pinturas, esculturas, desenhos, gravuras, fotografias, maquetes e objetos de design. Também possui cerca de 22 mil filmes e 4 milhões de 
stills, além de uma biblioteca com mais de 300 mil livros, livros de artista e periódicos.

Na conversa abaixo, Lowry fala sobre seu papel administrativo e o trabalho que considera importante na gestão de um museu, além de comentar a situação destas instituições nos Estados Unidos.
Como você administra o MoMA pensando tanto na parte administrativa quanto na cultural? Que tipo de habilidades são necessárias para que esta articulação funcione de forma equilibrada?
Eu não penso muito sobre a questão de administrar um museu, porque acredito que, se você entende corretamente a missão – que para mim é o programa de mostras, as iniciativas educativas –, se isso tem o tipo de impacto sobre a comunidade que deveria ter, se atrai o tipo de atenção crítica que deveria atrair e se gera no público o tipo de resposta que deveria gerar, então o lado administrativo, a dimensão financeira passa a tomar conta de si mesma. É claro que, para ser esperto neste sentido, você precisa ter pessoas que saibam lidar com contabilidade, que descubram como executar bons programas de associados e fazer a captação de recursos necessária. Mas isso é rotina, é algo quase mecânico. A parte importante é, na verdade, o lado criativo, que tem a ver com imaginação: que tipos de exposição devem ser realizadas, trabalhar com curadores para ter certeza de que você encontra os intelectuais corretos para fazerem estas exposições e fazer aquisições estratégicas, para que você tenha uma coleção realmente consistente. Eu acho que todos esses aspectos são necessários para administrar um museu. No fim das contas, um museu de arte não é sobre ser um museu – é sobre ser arte. Então, você tem que se lembrar sempre que, nesta situação, é a arte que interessa, e não o museu. Isto não quer dizer que você ignora as outras questões, mas você tem que ter certeza de que não são elas que guiam a instituição. Elas são a parte mecânica, a parte técnica, e estão lá para dar suporte à parte criativa.
Você é conhecido por apoiar a arte contemporânea, e por ter implementado um programa no MoMA neste sentido. Por que isto é importante, e que diferença faz para o museu?
Eu acredito muito que um museu de arte moderna e contemporânea tem que basear o que faz no comprometimento e na confiança nos artistas. E se tem a sorte de trabalhar com artistas vivos, lidando com o momento atual, o momento contemporâneo, é um privilégio. Esse privilégio permite que você conheça esses artistas, defenda-os quando apropriado, mas, mais importante, permite que você se certifique de que eles se sentem parte do que você está fazendo. E se você consegue canalizar essa energia, esse talento e essa sabedoria que os artistas tem, isso abre um mundo que, de outra forma, seria inacessível. Então, eu acredito na arte contemporânea porque acredito que toda arte começa, em algum ponto, como arte contemporânea. E o privilégio que nós temos trabalhando com artistas contemporâneos é que nós falamos com eles, pensamos com eles, aprendemos com eles e garantimos que somos um lar, tanto intelectual quanto fisicamente, para os seus interesses. Isso energiza o museu.

Existem muitas maneiras diferentes de se olhar para a arte. Você pode olhar para ela por um viés histórico – o que aconteceu no século XV, o que aconteceu no século XVI –, ou você pode olhar para ela por um viés contemporâneo: “como é o cenário hoje em dia?”. E é isto que estamos tentando fazer, estamos tentando olhar para o que se faz hoje, mesmo se isso envolver lidar com o fim do século XIX a partir do olhar de artistas vivos, e fazer estes trabalhos voltarem à vida porque ressoam com o trabalho de artistas atuais.
E quanto ao público, como o MoMA chega até ele? Quais são, atualmente, as principais questões para que um museu continue ampliando seu público? 
Bem, em primeiro lugar, eu acredito que nos Estados Unidos – e suspeito que isso também seja verdade em outros lugares – o público é realmente muito inteligente. As pessoas sabem o que sabem: sabem do que gostam e fazem análises inteligentes. Talvez elas nem sempre tenham a linguagem sofisticada para descrever isso da maneira como um crítico ou intelectual o faria, mas penso que a maior parte das pessoas é bastante esperta a respeito daquilo que vê e pensa. Portanto, se você cria um ambiente convidativo, que faz com que as pessoas se sintam em casa e possam compartilhar a energia que artistas criativos geram, você pode criar algo semelhante a um laboratório, onde as pessoas entendem que estão vendo objetos feitos por outras pessoas, que falam por meio de uma linguagem complicada e que tentam passar mensagens poderosas e importantes, e que se você dedicar o tempo necessário e for devagar, você pode aprender a partir disso, mesmo se não tiver certeza absoluta do que está sendo dito. Então, o que tentamos fazer no MoMA é desacelerar as pessoas, criar um ambiente social – porque, quando você vai a um museu, você não está sozinho, é um espaço público. E se você reconhece que aquele é um espaço público, realmente motiva os visitantes e diz que há uma espécie de mágica que ocorre quando arte de qualidade encontra as pessoas… Há alguma alquimia, que não se pode descrever de maneira precisa. Mas através de uma combinação de instalação inteligente, iluminação bem pensada e pessoas receptivas você pode criar um ambiente no qual até mesmo alguém não-familiarizado com aquilo que está prestes a ver pode encontrar algo interessante e fascinante.
Mas existe alguma dificuldade, nos Estados Unidos, em fazer as pessoas visitarem museus?
Existem muitos tipos de barreiras. É claro que existem barreiras sociais, econômicas e intelectuais, e existe também a barreira do tempo: as pessoas já não tem muito tempo, então precisam fazer escolhas difíceis. Mas acredito que, quando você cria uma programação instigante, o boca a boca é a voz mais poderosa. Você pode usar marketing e programas educativos para criar público – e é claro que o MoMA e todos os museus fazem isso –, mas acho que o ingrediente mais forte é quase sempre o boca a boca. As pessoas entram, se divertem, acham fascinante e interessante, contam para seus amigos, seus filhos, seus primos, seus sobrinhos, e logo todos começam a dizer “eu também quero ver isso, quero entender por que as pessoas estão falando disso”. No mundo da propaganda, isso se chama “buzz”. Mas o “buzz” não é efêmero, ele é bastante real, e essa é a energia criada pelos momentos empolgantes. E não existe nada mais empolgante, na minha concepção, do que ver grandes obras de arte. Se você pode olhar grandes obras de arte feitas por artistas atuais, isso faz com que você sinta que vive este momento. E aí não é preciso se preocupar com o público. As pessoas sabem, intuitivamente, que aquilo é importante para elas.
O senhor mencionou a falta de tempo das pessoas hoje em dia, e essa aceleração do cotidiano tem muito a ver também com as novas tecnologias. Qual é o papel da Internet para os museus neste contexto?
A Internet é uma dádiva para os museus, porque ela é automaticamente relacionada com conteúdo e comunicação. E essas são as duas coisas centrais na atividade de um museu: o comprometimento com o conteúdo, que são as obras de arte e as ideias por trás destas obras, e com a comunicação. Então, é claro que é preciso usar as redes sociais, é preciso pensar sobre tecnologia, é preciso encontrar meios de entender que o que se pode fazer na Internet é uma atividade paralela a, mas diferente daquilo que você pode fazer nas galerias, embora você possa interconectar estes públicos. Por exemplo, no MoMA, cerca de 1,5% ou 2% de todos os visitantes que passam pela porta são brasileiros, mas cerca de 8% de nossos visitantes na Internet são do Brasil. Então, nós estamos construindo um público muito mais amplo por meio da Internet do que aquele que algum dia passará pela nossa porta – e isso é ótimo. Estas pessoas são tão amigas para nós, e eu espero que nós sejamos para elas, quanto as pessoas que nos visitam pessoalmente.

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