MC LDN #4
Maria do Carmo Pontes, a correspondente avançada do b®og em Londres (com foto e micro-perfil aí na barra lateral), mandou a quarta coluna MC LDN. Lá vai:
Final Show – The Royal College of Art
Junho e Julho são meses reveladores do calendário acadêmico londrino, quando o ano letivo termina e acontecem os “Final Shows” dos mestrandos em arte. Estes ocorrem em torno de muita expectativa, com a presença esperada de grandes colecionadores como o legendário Charles Saatchi, curadores, críticos e outros envolvidos no mercado. Todos partilham da busca ansiosa por novos nomes, na obsessão ambiciosa de revelar jovens artistas pelo prazer futuro sem modéstia de dizer “Este eu conheço há tempos”, “Fui eu quem o descobriu” ou “Gosto muito antes de ser famoso”. Esta curiosa e inevitável relação entre arte e mercado é o tema de “Goldsmiths: But is it art?” série de 2009 da BBC que acompanhou alguns estudantes de arte no ano final de seus estudos na renomada escola responsável por praticamente toda a geração “YBA”, leia-se Damien Hirst, Tracey Emin e outros 4 ganhadores do Turner Prize, outro revelador de jovens (e balzacos) talentos.
Igual a tudo na vida, o conjunto final é instável, apresentando obras maduras, prontas para competir no farto mercado; medianas, onde há um certo potencial mas o artista ainda se encontra meio perdido entre a crítica, o grotesco e o decorativo e alguns poucos sem salvação, estes deveriam considerar seriamente abrir uma lanchonete ou migrar para o mercado imobiliário. A exposição final do Royal College of Art, que até 4 de julho esteve em cartaz nos prédios do colégio em Battersea, era ilustrativa desta irregularidade. Apesar dos alunos serem divididos ao ingressar o curso entre suas práticas, como bons contemporâneos os pintores muitas vezes apresentaram fotografias e instalações, os fotógrafos pinturas e os escultores vídeos e performances. De maneira geral, o departamento de pintura pareceu mais profissional (para usar jargão) do que os demais, com destaque para os ótimos Gareth Cadwallader e Annie Fehrenbacher. O primeiro estava representado apenas por “Still Life”, pequena pintura de cores quentes ultra-realista onde um sujeito está inteiramente oculto por frutas e carnes que ocupam todo o plano, tudo o que vemos é o seu braço sobre uma mesa xadrez segurando um cigarro. Fehrenbacher apresentou uma grande instalação que ocupava uma sala inteira do prédio, com um conjunto de esculturas centrais no chão que iluminavam pontualmente uma parede onde, de forma quase ritualística, a artista pendurou esculturas de penas em forma de aves e fotografias.
Ao contrário da pintura onde a maioria dos artistas tinha a sua própria sala, os escultores se dividiram entre 3 grandes salas com vários artistas em cada, tendo a difícil tarefa de estabelecer um diálogo entre obras ainda que muitas vezes não houvesse diálogo possível entre elas. Poucos artistas se destacavam nesta multidão de objetos, caso das esculturas semi-abstratas em bronze de David Buckley e as fotografias, vídeos e esculturas de Jesse Wine, cuja prática consiste em combinar dois materiais improváveis e comumente descartáveis e assim atribuir-lhes aura.
Muito além do “Eu vi primeiro”, a graça em ser contemporâneo ao seu tempo é o ver em si. Milhares de artistas se formam em artes anualmente no mundo, nem todos serão capazes de ter o seu pé de meia no mercado. A nós cabe eleger, acompanhar e olhar, e olhar, e olhar.