MC LDN #3
Maria do Carmo Pontes, a correspondente avançada do b®og em Londres (com foto e micro-perfil aí na barra lateral), mandou a terceira coluna MC LDN. Lá vai:
Ernesto Neto
The Edges of The World
Dentre os artistas cuja produção inclui instalações, parece haver um acordo tácito quanto aos temas que devem ser abordados: trauma, sociedade e violência figuram entre os assuntos favoritos. Como uma ovelha negra de sua linhagem, Ernesto Neto concebe a cada nova instalação maneiras inusitadas de acolher o espectador. Em sua nova mostra “The Edges of The World” que até 5 de setembro ocupa o último andar da Hayward Gallery em ocasião do “Festival Brazil” (com z mesmo), Neto concebeu um ambiente onde escultura vira desenho, que vira madeira, depois pintura de parede, água, som, cor e, claro, cheiro.
Logo ao terminar o último lance de escada que conduz à exposição o visitante é fagocitado por um pano de lycra claro sobre sua cabeça como um teto rebaixado, de onde cai um pequeno pêndulo com pedrinhas. Trata-se só da ponta de uma grande rede de tecidos com vários pequenos pêndulos que perpassa todas as obras expostas. Quatro esculturas de madeira em forma de escada estão dispostas ao longo da mostra, e os espectadores são bem vindos para subir nas escadas e ver a exposição de outro ponto de vista através desta rede de tecidos translúcida.
Os trabalhos continuam extremamente orgânicos, como é próprio do artista, mas a sua paleta de cores aumentou e agora apresenta tons fortes como vermelho, verde ou roxo. Esta preocupação com cores é justificada na maior instalação presente “Horizonmembranenave”, um túnel de lycra rodeado por uma uma escultura vermelha do mesmo tecido tal qual um coreto, uma escada espiral e um largo tecido verde que, disposto a cerca de 40 cm do chão, percorre todo o lado esquerdo da obra. Em todos os casos, o espectador é convidado a interagir com a obra: pisar, subir e entrar, assim como o é com a escultura central da instalação, onde é chamado a adentrar este túnel sustentado por diversos arcos de Madeira dispostos com intervalos entre um e outro como vértebras. O trajeto segue curvo, formando um espiral que começa laranja e torna-se gradativamente amarelo, verde limão e assim vai, passando por todas as cores do arco-íris numa sucessão de sutilezas e cheiros que desemboca num grande terraço. Nesta área externa o artista colocou um lago e duas cabanas amarelas que servem como vestiário; os visitantes são convidados a trocar de roupa e mergulhar. Os outros dois terraços do andar também foram utilizados por Neto, que armou um jardim num e uma enorme escultura de discos de aço articulados entre si no outro.
Meio mundo, meio corpo, certamente visceral, a exposição interage com quase todos os sentidos e impressiona por sua riqueza de detalhes e cuidadosos acabamentos. O espectador ao sair da mostra não só esteve dentro do arco-íris como o tocou, viu de cima, cheirou e certificou-se de onde ele começa e acaba. Alguém já criticou Neto por fazer sempre o mesmo tipo de obra. Se esta crítica é válida ou não para olhar a produção de qualquer artista é um outro e longo assunto. No caso do Neto, de fato os materiais e as formas são parecidas e até repetidas, mas seja no Armory em Nova York, no MACRO em Roma ou na Hayward, o artista se reinventa constantemente: a cada mostra as narrativas se renovam, dialogando com o espaço de forma única e estabelecendo relações que, precisamente por serem orgânicas, se remodelam de acordo com os diferentes ambientes. E ele o faz cada fez melhor.
Serviço: Hayward Gallery
Southbank Centre
Londres, Inglaterra
http://www.haywardgallery.org.uk/