O campo todo fraturado

O campo todo fraturado, 2010
aço 1020 com resina sintética, dimansões variáveis

Segue abaixo a coluna do Francisco Bosco de hoje no Segundo Caderno d’O Globo. Ao fim do texto ele menciona o trabalho acima. Uma honra ser citado pelo escritor-pensador-letrista que vem ocupando sua coluna no Globo com textos maravilhosos a cada quarta. Pra quem não conhece o autor recomendo a leitura do pequeno Banalogias que saiu pela Objetiva e no site da livraria da Travessa sai por R$30,16. Lá vai…
Limpando a área
O escritor Paul Valéry costumava dizer que antes de se proceder a uma investigação teórica é recomendável “uma limpeza da situação verbal”. Pouco visitada pelos filósofos, a área discursiva do futebol anda precisando de um bom ajuste conceitual para clarificar suas figuras de jogo. Às vésperas da Copa do Mundo, apresento aqui três verbetes do que, com o tempo, pode vir a ser um Dicionário Filosófico do Futebol.

Paradinha e Cavadinha – A International Board, órgão responsável pelas regras do futebol, acaba de proibir, para alívio dos goleiros, a famigerada paradinha. Esta se caracteriza por uma finta que o batedor do pênalti faz no momento de chutar a bola, induzindo o goleiro a saltar antes do chute e, assim, deixar um lado do gol vazio para o batedor. O ponto que interessa mostrar aqui é o seguinte: o fundamento dessa proibição não é legal, e sim moral. A paradinha não infringe nenhuma lei do futebol. Prova disso é que o mesmo recurso continua a poder ser usado em cobranças de faltas. Nessa, um jogador pode fingir que vai bater, enquanto o outro vem por trás e bate, enganando o goleiro segundo o mesmo princípio da paradinha.
Da perspectiva legal, um jogador pode fazer o que quiser até tocar a bola e esta girar sobre seu próprio eixo; só aí o jogo recomeça. A paradinha não infringe essa lei. Sua proibição, portanto, tem outro fundamento, de ordem moral. A paradinha é uma covardia contra o goleiro. Ela é um recurso a mais a favor de alguém – o batedor – que já se encontra em posição favorecida. Há algo de vilão de telecatch no batedor que emprega a paradinha. É pena que Nelson Rodrigues, o maior escritor da dimensão moral do futebol, não pôde escrever sobre ela.
Seu oposto simétrico é a chamada cavadinha. Nesta, o batedor aposta todas as suas fichas que conseguirá deslocar o goleiro apenas pela intenção do corpo durante a corrida em direção à bola. No instante do chute, ele toca levemente a bola, em geral no meio do gol. É um lance heróico, de grandeza moral. Por ele, o batedor se expõe ao fracasso retumbante: o goleiro, se não for fintado, pode matar a bola no peito e sair jogando. Não deve ser por acaso, diria Nelson, que o último a fazer isso chamava-se Loco.

A regra é clara – O bordão iluminista do ex-juiz Arnaldo César Coelho é de uma inutilidade à toda prova. Pois, se a regra é clara, o jogo não o é. A regra do impedimento, por exemplo, é, em si, clara: estará impedido o jogador se receber uma bola e não houver no mínimo um adversário, além do goleiro (portanto dois, na falta deste), atrás da linha imaginária em que ele se encontra. No jogo, contudo, essa fórmula simples se complica. Às vezes até mesmo no “tira-teima ficamos em dúvida quanto a como aplicá-la.
E isso é só o aspecto da regra menos suscetível a dúvidas. A coisa se confunde mesmo quando se trata da questão da posição ativa ou passiva do jogador. A regra diz que, se um jogador estiver em posição de impedimento mas não participar ativamente do lance, sua posição será desconsiderada e o lance prosseguirá normalmente. Mas se o jogador, mesmo que não participe diretamente do lance (tocando na bola), tirar proveito de sua posição, interferindo de algum modo na jogada, aí será marcado impedimento. De novo, no jogo é muitas vezes difícil determinar se o jogador em posição de impedimento teve ou não participação ativa numa jogada.
Ao lembrar isso, não estou afirmando que a regra é equivocada. A regra é clara, o jogo não é. É no intervalo dessa assimetria fundamental que se situa a figura do juiz. Outro dia um comentarista de mesa-redonda disse o seguinte: “Aí entra a questão da interpretação, essa palavrinha que me incomoda”. Ora, mas não há regra sem interpretação. Postular que haja uma transparência tal entre a linguagem e o fato de forma a prescindir de uma mediação para aplicar a universalidade de uma à particularidade do outro é de uma ingenuidade absurda. A capacidade de interpretação é precisamente o que faz com que o juiz não seja uma mera máquina de calcular. Só a interpretação pode processar a complexidade que está envolvida em cada lance particular, e que não pode, porque nunca é uma complexidade idêntica a si mesma, ser contemplada pela regra.
O craque – Junto à leitura desse verbete, recomendo ao leitor que veja a obra “Campo fraturado”, do artista Raul Mourão (raulmourao.blogspot.com), que me revelou a seguinte visão do jogo e do craque.
Um jogo de futebol é um campo de paradigmas, de infinitos paradigmas virtualmente presentes a cada instante. O que chamo aqui de paradigmas pode ser também chamado de possibilidades, para ajudar a compreensão. A cada momento do jogo, entre essa multiplicidade de paradigmas possíveis, só alguns poucos são visíveis. Exemplo: um jogador está com a bola na ponta-direita, seu tronco está virado para a linha de fundo, um marcador está em seu encalço. Os paradigmas visíveis são poucos: ou o jogador vai cruzar (e aí ou a bola chegará à área ou baterá no adversário), ou vai tentar cortar para o meio, ou vai parar para recuar. O jogador vulgar é esse que obedece aos paradigmas visíveis. O craque – é essa sua definição, digamos, geométrica – é aquele que saberá trazer do caos virtual um paradigma insuspeitado, e inesperadamente torná-lo visível, realizá-lo no jogo. Essa é a diferença fundamental estabelecida por Pasolini entre futebol de prosa e futebol de poesia. A poesia, que tem no craque seu poeta, é o paradigma-surpresa. O outro nome disso é beleza.

Francisco Bosco, maio 2010

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