Bundalelismo: esboço de uma teoria carioca – primeira parte

Mais uma obraprima que Frederico Coelho publicou lá no blog dele, objetosimobjetonao. De novo ele acertou na mosca e deixou um montão de perguntas no ar. Texto cheio de graça poesia e raiva. Fred é o melhor pensador do RioDJanira (como ele bem batizou nosso balneario querido e fudido), o olhar mais atento e agudo pra cima do real, o texto mais delicioso do pedaço. LEIAM E PASSEM ADIANTE!


I – o quadro
O rio d‘janira engole. Esse pedaço encravado e improvável entre sal, areia e granito grita e canta aos quatro ventos sua impossibilidade. Sua velhacaria. Sua preguiça dadivosa. Sua genialidade gratuita. Seu desperdício de beleza. Sua fusão perfeita entre a surpresa diária da natureza e a certeza cotidiana do ódio entre classes. Uma energia sinistra, uma sarna hedonista que alimenta o esmeril e tritura o passante, uma máquina iluminada e enferrujada que afunda a cidade e nos liberta para o mundo.
Muitas vezes, porém, o carioca acredita piamente que não precisa do mundo. Basta o paredão impávido da Pedra da Gávea ou a mureta do Bar Urca e está tudo certo, e não há nada mais. Essa é a força criadora da cidade. Essa é a certeza venenosa que nos fartamos entre bravatas estéticas e silêncios sobre nossa afasia cultural. Essa crença atávica em nós mesmos, essa condescendência tropical e gordurosa com o precário → dentre os bares e as artes, dentre as aulas e as casas de festas, o precário como estilo, o arremedo como direito autoral, o projeto não como esforço inicial, mas sim como resultado e realização. Em um discurso radical e sem relativismos (pois sempre existem alternativas e caminhos divergentes), vivemos dia-a-dia a aceitação de estar ficando para trás, praticamos envergonhados e entredentes a louvação de província, valorizamos pouco o ESFORÇO SUPREMO que é preciso para ampliar as possibilidades de ações e ideias. Pois, no rio d’janira, somos reluzentes, somos a tradição cultural do país, somos personagens de novelas, somos assassinos em capas de jornais.
II – a teoria
O Bundalelismo é uma praga. O Bundalelismo é uma delícia. O Bundalelismo – e seu desdobramento, o Obaobismo – é, de fato, uma prática cultural. O Bundalelismo é a certeza de que pouco é muito, de que a festa não vem depois da colheita e sim durante, de que a cigarra sempre, sempre, sempre, se dará bem sobre a formiga. O Bundalelismo é genial porque engloba tudo em um “all togheter now” levando todos em frente sem precisar de licença de nenhuma tradição. Pois o Bundalelismo é uma tradição carioca. O Bundalelismo é rizomático, se entranha na cultura, se espalha pelas instituições, se desdobra em todas as áreas. No Bundalelismo, qualquer espaço pode ser ocupado. O Bundalelismo é um furacão que quando passa nos dá a impressão de que tudo será destruído e renovado, mas depois vemos que a destruição aparente não tirou nada do lugar. Apenas deixou um leve cheiro de felicidade e ressaca.
O Bundalelismo é contemplação. A ação fica para depois. Aliás, para o bundalelista, a contemplação é a ação. O Bundalelismo, enquanto prática, é ação imóvel, Movimento Uniforme Variável. Uma ação contemplativa em um mundo tapinha nas costas.
III – a prática
A prática bundalelista propõe a ação cultural enquanto um objeto cuja superfície é agitada (agitação é uma ideia chave no Bundalelismo) porém o interior é oco. O bundalelista é múltiplo, é poli, vive dentre grupos e projetos, planeja e pondera (por poucos minutos) porém se basta. No Bundalelismo não há preocupação em ampliar a festa para além dos mesmos convidados. No fundo, o bundalelista tenta reproduzir, pro resto da vida, sua turma legal do colégio.
Não há coadjuvantes no Bundalelismo. Todos têm um sobrenome. Ou um nome que se torna um sobrenome dentre os bundaleslistas.
O Bundalelismo sou eu. O Bundalelismo é você.
O bundalelista é oxigênio, pois é essencial para a vida fluir tranquila feito vento terral em fim de tarde de verão. O bundalelista é tóxico porque entope os espaços e coagula o sangue novo, logo transformando ao primeiro toque tudo vigoroso e inovador em Bundalelismo. O bundalelista se contenta com pouco, pois pouco é “verdadeiro”. O bundalelista acha que “mais ou menos” é igual a “ótimo”. O bundalelista investe pela metade porque fazer por inteiro para que? O bundalelista começa e deixa pra lá, pois para o bundalelista o que importa “é a intenção”. O Bundalelismo domina a Zona Sul mas acredita piamente que se comunica com o mundo todo. Pois para o bundalelista a Zona Sul é o mundo todo.
Um evento bundalelista é de graça porque o bundalelista confunde camaradagem com exploração, acha que “ser brother” é não respeitar o trabalho alheio. O Bundalelismo é um determinismo geográfico. O Bundalelismo é a cara do rio d’janira mas não é o rio d’janira. O Bundalelismo pode ser Federal, Estadual, Municipal, pode ser público e privado, amador ou profissional, pessoa física ou pessoa jurídica. O bundalelista pode ser de esquerda ou de direita, apesar de todo o bundalelista, no fundo, achar que faz parte do “povo carioca”, isto é, a classe média. O Bundalelismo é a eternização da representação do carioca como um cara gente fina e malandro, pronto para se dar bem.
O Bundalelismo é irresistível na beira da praia e nas ruas da Lapa, nas noites de lua e nas ruas da gávea. O Bundalelismo é grudento e vem com cerveja quente. O Bundalelismo prega paz para todos em meio a gambiarras, improvisos, romantismos escolares e poesia barata. Por isso, é profundamente carioca e profundamente nocivo. Não se engane: no rio, todos nós, quase todos os dias, praticamos em algum momento o Bundalelismo. O lance é perceber que ele, apesar de ser uma graça, não basta. Em toda a loucura, é preciso rigor. Fazer bem feito não significa morar em torres de marfim. A qualidade do produto não anula sua potência poética. Espontaneidade demanda decantação. Poesia demanda labuta. A vida está lá fora, pronta para ser explodida.

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