MC LDN #1
Conheci Maria do Carmo Pontes na galeria Fortes Vilaça alguns anos atrás (ela trabalhou lá de 2007 a 2009). Depois nos encontramos em outras muitas festas em SP e umas poucas no Rio. Em 2009 ela foi fazer um mestrado em curadoria de arte contemporânea na Goldsmiths em Londres e nos afastamos um pouco, apenas uma conversa aqui por email e uma acolá no Facebook. Semana passada nos encontramos mais uma vez em São Paulo. Resolvemos então interromper esse negócio de festas e trabalhar um pouco. Iniciamos uma reunião rápida na pista de Eliana Finkelstein e terminamos no terraço de Daniel Roesler. Ficou resolvido assim: Maria do Carmo agora assina MC LDN e será a correspondente do nosso querido b®og em Londres, mandando notícias do circuito de arte e resenhas de exposições. Vai mandar também um texto sobre a exposição do Zerbini na Laura Alvim aqui no Rio, outros textos antigos, imagens de exposições, links e pensamentos soltos.
Esse texto de estréia aí embaixo é sobre o evento No soul for sale que inaugurou sexta passada na Turbine Hall, Tate Modern e terminou no domingo.
Mais informações lá no site.
Cada um no seu quadrado
Nem feira nem exposição. É assim que os organizadores de “No soul for sale: A festival of Independents”, segunda edição do evento iniciado em 2009 na X Initiave, Nova York, e neste ano na Tate Modern de Londres definiam o evento. Os curadores Cecília Alemani, Maurizio Cattelan e Massimiliano Gioni tiveram a tarefa de escolher 70 espaços dedicados a arte no mundo todo para expor no legendário Turbine Hall em ocasião dos 10 anos da Tate. Num espaço de poucos metros quadrados sem paredes e delimitado por fitas no chão aludindo a Dogville, o papa dos independentes, os expositores tinham a liberdade de mostrar o que bem entendessem. Curiosamente, todos decidiram mostrar a mesma coisa, criando assim uma estética do acúmulo e da repetição
Pilhas era o que mais havia: de papel, camiseta, tijolo, fita e objetos achados (afinal, arte contemporânea que se preze tem que ter um ou outro acaso). Se a intenção era otimizar o espaço ou discutir a veloz criação e profusão de imagens na atualidade não era claro, assim como não era clara a razão de certos objetos estarem lá, como brinquedos, bolsas, camisetas e souvenirs (for sale, diga-se de passagem). Muitos dos trabalhos expostos tinham o discurso do fazer aparente, uma necessidade de mostrar a mão do artista no trabalho unida a uma falta de recursos que por vezes acarreta numa estética pobre, de coisa mal-feita.
Neste grande mercado de pulgas das artes era possível identificar alguns bons trabalhos, com destaque para “I have not only sacrificed my soul for this but my time”, do suíço Stefan Sulzer, no stand da Arrow Factory, de Pequim. Trata-se de uma fotografia de grandes proporções mostrando um pôr do sol sobreposto por esta frase, dividida internamente por molduras formando um poliptico de uma imagem só. Ou “Lead, Follow Or Get The Hell Out Of The Way”, pintura de parede do noruegues Marius Engh no stand na editora Torpedo, também da Noruega. Ambas as obras partem de lugares diferentes para discutir questões semelhantes (e relevantes) da contemporaneidade, como tempo, foco e, sobretudo, desempenho.
Nem feira nem exposição. Este encontro independente, ainda que na mais estabelecida das instituições, é importantíssimo para o mundo das artes. Mas a questão fundamental e no entanto abordada só individualmente por algumas poucas obras é aonde esta independência toda está indo. A maioria dos expositores não ambiciona o irascível mercado mas estratégias para permanecer independente num mundo ditado por suas regras. Neste sentido o evento era uma etapa, não um fim em si, tal qual muitos trabalhos ali pareciam em fase de construção e não prontos para serem expostos. Ainda assim, entre performances e obras, o clima que prevalecia era o de um “oba, oba” deslumbrado e desarticulado, onde o papel e as perspectivas de centros de arte independentes não entrou realmente em pauta. O resultado foi mais um capítulo da série “Porque a idéia era boa e a realização foi mediana?”, com sorte pauta para o próximo encontro. Difícil não se identificar com o trabalho de Sulzer ao deixar a galeria.