ARTE BRA e o prazer de ler sobre arte
Frederico Coelho escreveu lá no blog dele objeto sim objeto não
Luiz Zerbini
A relação entre arte e escrita é orgânica. Para alguns, em leitura radical do mundo, tudo é texto. Mesmo que a imagem seja o cerne, imagem também é texto. Letras são imagens. Cores trazem gramáticas e vocabulários. Esculturas desenham espaços ou inventam discursos onde impera o pleno vazio.
Em 2002 o poeta e dínamo estético Waly Salomão sugere a Luiz Zerbini um desenho a partir de seu poema “a vida é paródia da arte”. O texto de Waly, segundo o artista, o intimidava na abordagem visual das suas palavras. Ele lia e relia e não conseguia produzir nenhuma imagem relativa ao poema. A resposta estética de Zerbini foi, pois, um contra-poema. Um poema-resposta pra Waly, a única forma de dar voz às milhares de imagens que povoavam sua cabeça. Um contra-poema tão belo e intenso quanto qualquer um de seus quadros. Como ele diz, “Resolvi fazer um desenho para cada estrofe / depois um desenho para cada linha / depois um desenho para cada palavra / e aí muitos desenhos para cada palavra”. A palavra torna-se então seu próprio desenho. Aqui, nessse poema-resposta, Zerbini escrevia ou pintava?
A dupla arte e escrita, portanto, vai além da relação óbvia entre a prática estética do artista e o texto “explicativo” do crítico – ou do próprio artista. Arte e escrita, esse encontro fundado no oco do tempo da história do homem, compõe um campo de ação específico, em que palavras e imagens formam um corpo só. Um campo de ação em que a ideia imagética é indissociável do desafio textual de transformá-la em linguagem corrente, expandindo a potência da linguagem estética. Arte e escrita formam um casamento em que movimentar a mão – seja na tela, no ferro, na cera, na pedra, na tinta, na química ou no papel – é escrever, sempre, as ondas gigantes crescendo no mar dos sertões de nossas cabeças (salve Otto).
Essa introdução dispersiva serve apenas para falar do impacto da leitura desse poema-resposta de Zerbini a Waly (e dessa relação poética típica do Rio de Janeiro, poesia-arte via editora Dantes, encontros no Jardim Botânico, histórias que devem ser esmiuçadas, coisas nossas na cidade que todos adoram dizer que nada acontece – mesmo que ao menos algo aconteça). E serve principalmente como porta de entrada do verdadeiro prato-assunto do dia: ARTE BRA. Conheces? Gostas de arte? Manjas os papos difíceis da crítica? Espantas as famílias burguesas com sua ira contra o sistema da arte? Então se afaste de ARTE BRA. Pois a coleção de livros da AUTOMÁTICA sobre artistas brasileiros contemporâneos e suas carreiras (com títulos dedicados a Marcos Chaves, Raul Mourão e agora Lucia Koch e Luiz Zerbini) é, no melhor sentido e precisão da palavra, desmistificadora. Foi nela, no livro dedicado a Zerbini, que encontrei a história acima, sobre o pintor e o poeta.

Raul Mourão
Explico-me: em ARTE BRA, cai o véu do afastamento “de classe” entre arte e informação. Sem precisarmos das ferramentas da academia, em ARTE BRA lemos-vemos a carreira do artista abordada de forma direta, compacta, informada e informativa. É isso. Para o curioso e para quem procura profundidade no assunto. Ao invés de inventar o artista como personagem conceitual, ao invés de rodopiar teoricamente ao redor de citações e do costume cansativo da escrita-“name-dropping”, em ARTE BRA nós lemos-vemos uma pessoa que, antes de tudo, trabalha. Que antes de tudo leva sua opção de trabalhar com arte a sério. Pessoas que vivem a arte não como compromisso fatal, não como sina maldita, mas como transpiração dos sentidos, investimentos de afetos e, principalmente, incorporação do mundo, da história e do outro. Através dos quatro livros, descobrimos que arte não é conceitualismo vazio para neo-críticos conservadores atacarem de forma gratuita, mas sim esforço profissional e dedicação na manutenção de um espaço de ação e reflexão.
A forma como chegamos a essas conclusões é, justamente, o valor que a coleção dá ao texto e à relação entre arte e palavra. Uma relação da arte com a palavra, porém, vista no sentido prático, isto é, no sentido de fazer com que o artista seja entendido na extensão da sua obra. E isso ocorre com destaque em dois recursos editoriais que ARTE BRA nos oferece nas suas quatro edições: uma entrevista coletiva e uma preciosa cronologia.
Sobre a entrevista coletiva, é fundamental em um livro sobre um artista e sua carreira que ele mesmo conte com suas próprias palavras o seu trajeto. Melhor ainda se ele pode contar isso em um papo amplo, aberto, com diferentes pessoas, diferentes pontos de vista. São assim, generosas e plurais, que as entrevistas da coleção se apresentam (onde mais, por exemplo, podemos ler o relato detalhado de Zerbini sobre seu encontro seco e divisor de águas com Joseph Beuys, em pleno 1982, no frio de Dusseldorf?).
Mas é principalmente sobre a cronologia – essa tão difícil arte de escrever uma vida em diacronia e sincronia simultaneamente – que a sensação de que “ali há alguém que trabalha” melhor repousa. Nas quatro cronologias – Marcos Chaves, Raul Mourão, Lucia Koch e Luiz Zerbini – temos verdadeiras aulas sobre a cena da arte brasileira nos últimos trinta anos. Exposições, estudos, encontros, ateliês, revistas, festas, intervenções, contatos, viagens, parcerias, coletivos mesmo fugazes, todas as informações possíveis nos são fornecidas. No cruzamento dos quatro artistas/trabalhos encontramos pontos de encontro e outros pontos de criação, cenas intensas, momentos importantes. As cronologias de ARTE BRA são a transformação do efêmero – eventos, encontros, revistas de poucas edições – em História da arte. Não há exagero nessa afirmação. Ler os intensos dias de paz e de luta de Zerbini ou Koch, por exemplo, é ver como podem ser diferentes e ao mesmo tempo próximas as vidas de artistas brasileiros. É entender que há diversos percursos possíveis para um artista em busca da realização de suas ideias. As cronologias completas de ARTE BRA nos mostram isso, essa importância de cada movimento, de cada conversa que gere um trabalho por menor que seja. É a habilidade e a sabedoria de registrar a micro-história contemporânea da arte.

Marcos Chaves
ARTE BRA faz com que o leitor interessado em arte saia de sua leitura mais interessado ainda. Quebra uma série de preconceitos rasteiros sobre a arte brasileira contemporânea mostrando que os artistas estão vivos, ao menos os artistas de uma geração formada nos anos 70/80 que já passaram por uma década de século XXI e permanecem em plena expansão criativa e profissional. Constatamos a intensa produtividade e pesquisa dessa geração, a infinita conversa com os meios e com as técnicas, o diálogo inventivo e não mais reativo com a arte mundial. Para novos tempos, novas artes. A coleção nos mostra também que os textos sobre arte, cada vez mais, podem e devem ser valiosos parceiros na leitura de cada obra, como são os textos de Agnaldo Farias sobre Raul Mourão ou de Moacir dos Anjos sobre Lucia Koch, para ficar apenas em dois livros.
Beleza editorial – capas, fotos, diagramação (o livro de Lucia Koch nos faz ver seus trabalhos de luz e filtros mesmo através das páginas impressas) – alia-se ao conteúdo rápido, dinâmico, colado na história do artista e de sua geração. Livro sobre a prática da arte, que promove no leitor um sincero respeito pelo trabalho do artista abordado. E que demonstra, melhor de tudo, um precioso respeito pelo leitor.
ARTE BRA: não percam.

Lucia Koch