Ativo na Rua – uma letra para som sem voz

Ativo na rua

Um radar faminto
Engatilha e fuzila

Atento na rua,
Um olhar parado
Cheira dejetos visuais
E acha entre as aspas
Os ascos, as farpas

O olhar agora anda e acha cores e formas
Espremidas serenas no monte de lixo

(Sacos rasgados, odores vazados, moscas em vôos preguiçosos)

Andávamos na rua e vimos
Reluzentes por demais,
Sufocantes, sensuais,
Um pedaço de ódio
Um naco de amor
Um pé solitário
Um objeto em pó
Folhas de compensado
Um tempo abandonado
Uma vida partida
Um pêssego com a pele rasgada

Vimos entre os ossos urbanos

A cloaca das formas
A bacia das almas
A basura de asas
Voando sobre as casas

Na secura serena do dia quente na Lapa.

No dia 7 de janeiro Fred Coelho passou no ateliê para trocar idéias. Depois vagamos pelas ruas da Lapa embaixo do calor infernal que assolava a cidade. Um música tocou no ar. Só som, sem voz humana. Paramos no boteco da esquina. Ao lado uma pilha de lixo. Na escada de azulejos do Selaron um monte de gringos fotografando. Rabiscamos no papel a letra para uma música que não existe ainda. Achei ela aqui agora e resolvi subir junto com as fotos daquela tarde.

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