A hora é esssa – Rio na cabeça
Abaixo o texto do reporter Fabio Brisolla que saiu na revista O GLOBO de hoje. Clique aqui para conhecer o blog da série Rio na cabeça.
O anúncio dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro renovou o ânimo dos cariocas. A maioria acredita, agora, na recuperação da Cidade Maravilhosa. E o desenvolvimento urbano está no foco do debate. Mas que Rio desejamos? A Revista O GLOBO convidou dez cidadãos para pensar em ideias para melhorar a cidade e desenvolvê-las em parceria com arquitetos ou designers. De hoje a 13 de dezembro, publicaremos um projeto por semana — o primeiro, do coordenador do AfroReggae, José Júnior, e do designer Luiz Stein, está no fim desta reportagem. Depois dos dez, será a vez de um projeto do leitor, clique aqui para saber como participar.
A série — batizada de “Rio na cabeça” — começou com um debate na galeria de arte Progetti, no Centro. O diretor de criação da Totem, Fred D’Orey, sugeriu transformar o Rio em um paraíso internacional do surfe, com ondas artificiais dignas de Pipeline. O artista plástico Raul Mourão pensou em uma esteira rolante conectando o MAM ao metrô da Cinelândia e ao Aeroporto Santos Dumont. A coreógrafa Deborah Colker planeja invadir a Praça Paris, na Glória. Um ônibus para transportar boêmios até a Lapa foi a aposta do empresário Léo Feijó. Em comum, a certeza de que estamos diante de uma grande oportunidade de transformar a cidade. “Rio na cabeça”.
Em 2016, a cidade terá novos estádios, ginásios, pistas de atletismo e uma vila olímpica para milhares de atletas. O Rio deve receber US$ 50 bilhões até lá, segundo o governo do Estado. Obras de infraestrutura, especialmente na área de transportes, prometem garantir o trânsito de torcedores e, posteriormente, dos cariocas. Pelo menos no papel, a perspectiva de novos investimentos extrapola o projeto olímpico. Um
exemplo é a revitalização da Zona Portuária, um investimento de R$ 200 milhões, na primeira fase, com o início das obras previsto para dezembro. O projeto Porto Maravilha inclui a criação da Pinacoteca do Estado, um parque no Píer Mauá e a recuperação de ruas.
A segunda fase, estimada em R$ 3 bilhões, prevê a demolição do Elevado da Perimetral, no trecho entre a Praça Mauá e a Rodoviária Novo Rio, e a construção de túneis subterrâneos, além de expandir as obras de infraestrutura nas ruas da região. Uma avenida paralela à Rodrigues Alves seria criada para absorver o trânsito durante a obra na Perimetral.
— A primeira fase deve durar dois anos — diz o secretário municipal de Desenvolvimento, Felipe Góes. — Aguardamos a aprovação de um projeto de lei (na Câmara dos Vereadores) que nos permitirá captar recursos privados para a segunda fase.
Ana Luiza Nobre é uma espécie de líder dos arquitetos que vêm criticando o Porto Maravilha: “Não foi anunciado qualquer concurso público. São projetos pífios, sem nenhuma qualidade arquitetônica ou urbanística, a começar pelo Píer Mauá, que pelo jeito está prestes a se transformar numa pracinha de interior”, ela escreveu em seu blog.
Boa parte do projeto do Porto foi elaborada na gestão do ex-prefeito Cesar Maia, pelo Instituto Pereira Passos e quatro escritórios de arquitetura, entre eles o de Paulo Casé, autor do obelisco de Ipanema e da passarela recém-destruída a pedido de Eduardo Paes.
— Claro que aproveitamos o que já estava pronto. Caso contrário, não teríamos como iniciar a obra agora — diz Góes.
Carlos Fernando Andrade, atual superintendente do Iphan, levanta outra questão: se a ideia é revitalizar o Porto, a região deveria abrigar a vila olímpica, e não a Barra.
— A Barra é o bairro que mais cresce no Rio, enquanto outros decrescem. Abrigar boa parte da estrutura dos jogos lá é esvaziar ainda mais outros bairros — critica Andrade.
Felipe Góes garante que as intervenções urbanas do projeto Porto Maravilha serão suficientes para revitalizar a região, e que o projeto não será escanteado pelas Olimpíadas:
— A revitalização do Porto é uma prioridade do prefeito. Não abandonaremos o projeto. E transferir a vila olímpica para o Porto está fora de cogitação. A maioria das instalações fica na Barra. O projeto foi mplamente debatido.
Polêmicas à parte, mesmo com seus inúmeros problemas o Rio sempre foi uma cidade reconhecida undialmente com relação ao projeto urbano, graças a nomes como Pereira Passos e Lucio Costa. E agora temos a chance de retomar essa posição. Recentemente, o Rio realizou dois concursos pelas melhores propostas de arquitetura e urbanismo para o Museu da Imagem e do Som, em Copacabana, e o Complexo
Hotel das Paineiras, que atraiu mais de 80 escritórios. E vem aí o museu Casa Daros. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy elaborou ao assumir o projeto Grand Paris, no qual dez grandes escritórios de arquitetura do mundo foram convidados a especular sobre o futuro daquela metrópole.
projeto vencedor do concurso do Hotel Paineiras de autoria do escritório paulista Estúdio América
projeto vencedor do concurso do MIS na Av Atlântica de autoria do escritório Diller-Scofidio
— Existem problemas em Paris parecidos com os do Rio, como a dificuldade de integrar os diferentes meios de transporte — avalia a arquiteta Nanda Eskes, que trabalhou dez anos em Paris e foi uma das convidadas da nossa reunião.
— O poder público tem o dever de estimular a boa arquitetura. São os edifícios públicos e as intervenções urbanas que devem estabelecer o patamar de qualidade desejado, que naturalmente será seguido pelos cidadãos e investidores privados — emenda o arquiteto Pedro Rivera, que também esteve na galeria Progetti.
Ele ressalta que a cidade é a extensão de nossas casas, nossa residência coletiva. Por isso os habitantes devem participar do debate sobre arquitetura e urbanismo.
— Nunca houve uma conjuntura tão favorável, um clima tão otimista, com projetos sendo aprovados, pessoas voltando a pensar na cidade. É agora ou nunca. O cidadão que nunca se envolve deve pensar no que pode fazer pela cidade que ama — diz Fred D’Orey.
José Júnior emenda:
— Se quisermos mudar o Rio, é hora de sair da zona de conforto. O momento é esse.