Sacrifício

Novo blog do LH sobre música, mas uma dica do mestre Marcelo Pereira.

Quem assistiu ao filme “Sangue Negro” (There Will Be Blood) talvez se recorde da cena em que o protagonista está realizando a sua primeira prospecção de petróleo em um poço no meio do deserto, apenas com baldes, cordas e outros instrumentos bastante rudimentares. A trilha que se passa nesta cena é chamada “Convergence” e foi composta através da utilização de diversos instrumentos percussivos, de madeira e de pele. A música se inicia com um tambor simulando uma batida de coração e evolui com a entrada gradual de outros instrumentos defasados, que apenas no final convergem para uma única e compacta marcação.


Como em um rito sacrificial, os tambores em defasagem seguem em direção a uma só pulsação. Isolados e enfraquecidos, caminham para a realização de um sacrifício sagrado final, necessário para prospectar a primeira gota de sangue da terra-mãe. No filme, este sangue negro alimenta o desejo pela busca de mais sacrifícios por todo o seu enredo, e o bode expiatório exigido pelos deuses do deserto é o melhor amigo do protagonista, que morre dentro do poço.


Embora este seja um bom exemplo de como a música contemporânea erudita está massivamente presente no cinema atual, o compositor de “Convergence” não é o autor típico. Arranjador da BBC que diz sofrer grande influência do compositor polonês Krzysztof Penderecki, Jonny Greenwood é também guitarrista da banda Radiohead.

Entretanto, há muito tempo que os compositores têm buscado o retorno ao ruído e à evidência do ritmo. Esta busca vem redimir a repulsa que o sistema tonal teve pelo ruído e pela percussão que não seja afinada, por toda a história da música ocidental desde o cantochão e seu canto sem pulso, que inaugurou a nossa tradição clássica até o período romântico.

A música primitiva e modal, marcada, pulsante e rítmica, deu lugar no ocidente à música das alturas, à melodia e harmonia como base primordial. Mas esta música modal e “primitiva” tinha no ritmo e na pulsação e, consequentemente no ruído, o alimento para o desenvolvimento das alturas em outras dimensões de escuta. No modernismo, o recalque deste ritmo gerou a Sagração da Primavera, de Stravinsky, um balé profano de 1913 que é considerado o marco da incorporação do ritmo na música moderna. Nesta obra, particularmente na “Dança do Sacrifício”, o ritmo conduz a peça, deixando a harmonia em segundo plano. Depois, é o ruído que entra definitivamente na nossa tradição musical com o futurismo de Edgar Varèse e seu entusiasmo na ciência e nos avanços científicos com a obra Hyperprism, que usa sirenes, metais, e vários instrumentos percussivos.

Mas este retorno ao ritmo vai ter nas obras de Steve Reich, compositor norte-americano de NY, uma importância muito mais primordial. A peça Drumming, realizada somente com instrumentos de percussão, realiza o reinado do tempo, a melodia do ritmo e a harmonia do ruído. Nos vídeos abaixo Drumming é executada apenas com tambores. Estes estão afinados, porém, como em um concerto de Bach não é o ritmo que prepondera, em Drumming não são as notas dos tambores que imperam. São as diversas texturas criadas pelas fases e defasagens entre as batidas que chamam nossa atenção. Ali os instrumentos melódicos e harmônicos é que são sacrificados para que possamos, como em um ritual sagrado de uma nova dimensão musical, prospectar outra esfera sonora.


segunda parte

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