álbum, postal e sampler – vik muniz @ nara roesler, rio

texto que escrevi para a exposição Álbum, de Vik Muniz que inaugurou ontem na Galeria Nara Roesler, Rio de Janeiro.

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Há uma ótima loja de queijos na First Avenue, à qual eu vou com uma frequência razoável, o suficiente para notar que a pessoa atrás do balcão nunca expõe um queijo sem antes cortar um oitavo dele. Quando perguntei por que ele fazia isso, ele respondeu bruscamente: “É óbvio… Se eu não cortar, ele não se parece um queijo.” 
Vik Muniz (Extrato do texto “Surface Tension”, originalmente publicado em Parkett, No. 46, 1996)

Visita ao ateliê do Brooklyn – Na antessala do ateliê, o verso do chassi da Mona Lisa repousa no canto; ao lado, uma pequena foto do próprio Vik sozinho no Louvre segurando o original de Leonardo da Vinci. Sobre um pedestal branco há outra Mona Lisa, a obra chama-se Souvenir Gioconda, do artista italiano Fabio Viale. É uma escultura que parece feita de pequenas bolinhas de isopor, mas, na verdade, foi toda esculpida em um único bloco de mármore. Passo os olhos pelos livros da enorme estante e separo os que falam sobre a obra de Vik. No pequenino Natura Pictrix – Interviews and Essays on Photography descubro o texto “Mirrors; Or, How to steal a masterpiece” em que Vik descreve uma fila sem fim de pessoas com câmeras coladas ao rosto, tirando fotos da Mona Lisa de Leonardo. “Como num teste oftalmológico, cada fotografia vai avaliar a relação entre o fotógrafo e o objeto. Centenas de milhares de fotografias são feitas aqui todo o ano e, de fato, o objeto sorri diferentemente em cada uma delas. Por causa do reflexo do vidro protetor, é impossível fotografar a Mona Lisa sem se fotografar a si mesmo. Uma impossibilidade que acaba criando a forma mais bizarra de autorretrato.”

Erika abre a porta do ateliê e me deparo com pilhas de fotos espalhadas pelo chão e sobre as mesas. São milhares de fotos de álbuns de família e cartões postais que Vik vem comprando nos últimos anos em leilões online. Um bebê sorridente, a escola, a sala de aula, uma criança de calça curta, a primeira comunhão, o acampamento, a namoradinha, a casa, o carro novo, uma mulher sentada num canhão, outra observando a paisagem, um pescador com vara e peixe. Por um instante todas as famílias me parecem iguais. Todo álbum se parece com o próximo. O ritmo da vida daquelas pessoas era lento.

Penso na comunicação entre os homens por meio de imagens e nas ideias de Décio Pignatari. No desaparecimento da foto de papel, na desmaterialização da imagem e do som. Na minha coleção de CDs que não tocam mais, lojas de discos desaparecendo pelo planeta, a volta da onda do vinil, o colecionador Zero Freitas e sua obsessão. As livrarias fechando suas portas, o fim do livro, do jornal, da revista. As redes sociais. Tudo hoje é informação digital o tempo todo. Tudo vai desaparecer. Os objetos/coisas já falam entre si. A vida é veloz.

Vik entra pelo Skype e começamos uma conversa. As fotos estavam indo para o lixo e, agora, cada uma delas será digitalizada e catalogada num banco de dados de acordo com suas características e procedência. Depois, numa pequena folha de papel, centenas de pedaços de fotos são colados como num mosaico, reconstruindo as imagens que caminhavam para o desaparecimento. É um trabalho manual, Vik gasta quase 30 dias para construir cada imagem, organizando pacientemente áreas de cor no plano. Nas paredes do ateliê estão as 11 grandes fotos da exposição. São imagens ao mesmo tempo toscas e doces, atraentes e agressivas. “A colagem não é impecavelmente realizada, há uma mão brasileira por trás, os chineses certamente fariam melhor”, diz Vik. A menina da banda do colégio, o bondinho, o homem no camelo, o Coliseu, o casal abraçado, duas girafas, a bicicleta nova, o pescador, a mulher no deserto, a Estátua da Liberdade, a praia. Tudo está carregado de afeto. O álbum e o postal. Dois momentos da história da fotografia onde imagens invadiram a vida das pessoas de forma contundente. Num álbum, a família organizava sua história, documentava seus momentos, depositava sentimentos. No postal, comunicávamos nosso deslocamento no espaço (cheguei), a conquista de um território (estou aqui) e também sentimentos (sinto saudades).

O nascimento da obra de Vik se dá simultaneamente à popularização do sampler na música pop, eletrônica e hip hop dos 80/90. O sampler é um gravador eletrônico que armazena trechos de áudio para serem reproduzidos e/ou reprocessados, criando novas e complexas melodias, padrões rítmicos ou efeitos. Volto para casa ouvindo Paul’s Boutique dos Beastie Boys, 3 Feet High and Rising do De La Soul e Endtroducing do Dj Shadow (o primeiro disco inteiramente feito com pedaços de outras músicas). Imagens e sons invadem a cabeça. As fotos do álbum de Vik são quebradas, feitas de pequenas partes. Fragmentos de informação vibrando na superfície. Colcha de retalhos digitais. Um jogo de cortar e colar em que a leitura da imagem se dá por meio da parte e do todo. Cut and paste.

Penso na folha e na floresta. Na conexão direta entre a obra de Vik e o pop de Warhol. Não há antropofagia no sampler de Vik, ele procura seus iguais no arquivo da cultura, captura e gera um novo elemento no acúmulo das coisas do mundo. Lembro do último encontro com o médico dos meus olhos e ele explicando “quem vê é o cérebro, o olho recebe a luz que se transforma em impulso elétrico, que é levado para o cérebro pelo nervo ótico e lá vira imagem.” Ao recriar imagens com as quais temos enorme intimidade, Vik nos joga dentro delas. Agora eu também sou um pedaço. Uma pequena parte. Todos somos iguais e diferentes.

Raul Mourão, setembro de 2014

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