Lygia Clark para ver e sentir Por Eduardo Graça | Para o Valor
Mostra no MoMA é a maior jamais dedicada a um dos nomes centrais do neoconcretismo brasileiro
A redescoberta de Lygia Clark (1920-1988) pelo mercado, que ganhava destaque cada vez maior nos últimos anos, se consumou no ano passado, quando a tela “Superfície Modulada nº 4” foi arrematada por R$ 5,3 milhões na Bolsa de Arte de São Paulo, tornando-se a obra de arte mais cara de um artista brasileiro negociada em leilão. A expectativa, a partir desta semana, é a de o poder de atração da artista mineira chegar ao grande público americano. Quase 300 obras representando a trajetória de Lygia, de forma mais ou menos cronológica, estarão à mostra na maior exposição jamais dedicada a um dos nomes centrais do neoconcretismo brasileiro. “Lygia Clark: O Abandono da Arte, 1948-1988”, inaugurada neste sábado no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), reúne pinturas, desenhos, esculturas e “objetos relacionais” e ocupa, até o fim de agosto, metade do sexto andar e toda uma galeria no quarto andar da prestigiosa instituição de Manhattan.
Quando os curadores começaram a pensar na curadoria, levaram em conta que o grande público no Hemisfério Norte ainda desconhece o trabalho da Lygia. “E os especialistas, em geral, pensam – e isso quero ressaltar – que a conhecem com alguma propriedade. O que queríamos de fato mostrar era a produção de uma artista interessada em refletir sobre a transição do pensamento moderno para a arte contemporânea, de forma singularíssima, a partir da chamada periferia do planeta”, diz, em ótimo português, o curador de Arte Latino-Americana do MoMA e responsável pela curadoria da mais recente edição da Bienal Internacional de Arte de São Paulo, Luis Pérez-Oramas, um “venezuelano com alma de brasileiro”, como costuma se apresentar aos interlocutores sul-americanos cuja língua materna não é o castelhano.
Por essa razão, a divisão da mostra é em temas específicos e ela foi pensada com a certeza de que seria “assumidamente grandiosa, a ser percorrida com calma, voltada para a integração do visitante com a obra plástica e, especialmente, por meio de seu aspecto sensorial, bem ao gosto de Lygia”.
“O Abandono da Arte” é fruto da sensibilidade e da dedicação física e intelectual de Pérez-Oramas e da principal curadora do Museu Hammer de Los Angeles, Connie Butler, sua parceira na cerzidura da exposição. Não menos importante foi a participação, em cada etapa da construção do evento, que inclui ainda uma série de filmes experimentais a ser apresentados na Cinemateca do MoMA, da família da artista.
Coube aos herdeiros de Lygia, que morreu em 1988 aos 67 anos, iniciarem, nas últimas décadas, um processo minucioso de catalogação de toda sua produção, fundamental para a revalorização no mercado de obras como a notória série “Bicho”, símbolo do processo de transformação da criação plástica em experiência de fato corpórea, atrelada à vida real, na definição do poeta e crítico Ferreira Gullar.
Um dos destaques da exposição, não por acaso, é a instalação de 8 metros “A Casa É o Corpo: Penetração, Ovulação, Germinação, Expulsão”, exposta inicialmente no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio no emblemático ano de 1968 e posteriormente apresentada na Bienal de Veneza. Percorra o simulacro de útero criado pela artista, deixe-se ser transportado para a escuridão, a asfixia, a claustrofobia do labirinto de Lygia, até a liberação do renascimento ao fim de um percurso em nada previsível, e a primeira reação é inevitável: a obra de arte criada há 47 primaveras é, no museu povoado por visitantes oriundos de todos os cantos do planeta, ainda uma experiência visceral, de tirar o fôlego do público.
Mostra deve ser percorrida com calma, voltada para a integração do visitante com a obra plástica e por meio de seu aspecto sensorial, recomenda curador do MoMA
“Um de nossos principais desafios foi o de criar uma exposição em que, em muitas galerias, os visitantes não poderiam, por motivos óbvios, tocar nas telas. Mas em outras, no entanto, eles eram, ao contrário, aconselhados, instigados, convidados a se integrar ao resultado do fazer artístico, a mexer, a entrar, a se jogar”, diz Connie Butler, uma das maiores divulgadoras da arte moderna e contemporânea brasileiras nos Estados Unidos. “Nesse sentido, essa é uma experiência única para nós e para o próprio MoMA aparentemente paradoxal, mas com uma lógica muito clara, paralela ao processo de experimentação da própria artista e de sua transformação no relacionamento com a arte.”
Além das experiências sensoriais participativas, em horários específicos os espectadores poderão participar até mesmo de simulações das práticas terapeutas incorporadas por Lygia em sua arte. Toda a terceira e última parte da exposição no sexto andar é dedicada a obras cujos objetos – sacos plásticos, pesadas luvas, pedras, máscaras, vários tipos de tecidos – são manipulados por monitores especialmente treinados para reinterpretar a relação entre a psicanálise e a arte, tema caro à artista desde a época em que viveu em Paris até o fim de sua vida.
O visitante é convidado a se deitar em um tatame, instalado no piso central da galeria, de onde pode interagir com os objetos criados por Lygia. O batismo da exposição – e a noção do “abandono da arte” – é espelhado de forma mais nítida em seu momento derradeiro, mas a costura do trajeto proposto pelos curadores se dá com base justamente na ideia de que Lygia Clark investigou de forma originalíssima o tratamento terapêutico por meio da arte. Em seu primeiro artigo sobre a mostra, o jornal “The New York Times” intitulou a descrição elogiosa de Ken Johnson assim: “Veja. Sinta. Toque. Cure-se”.
A aparente ênfase no anticonvencional ao se debruçar na obra de Lygia se dá, curiosamente, no momento em que o MoMA se vê em meio a uma de suas mais explícitas encruzilhadas. Presente na pré-abertura de “O Abandono da Arte”, Glenn D. Lowry, diretor do museu há duas décadas, enfrenta saraivada de críticas por causa do que parte da comunidade artística local detecta ser concessão demasiada ao gosto do grande público, uma fixação pela “espetacularização” das mostras e busca desenfreada por mais espaço físico. A instituição está em via de começar sua segunda expansão na era Lowry – à custa do vizinho prédio do Museu de Arte Folclórica, demolido no mês passado – para aumentar ainda mais o impressionante número de quase três milhões de visitantes/ano do MoMA.
No “New York Times”, Randy Kennedy escreveu que “muitos especialistas temem que a criação de uma ‘art bay’ na rua 53, com uma ala permanente cruzando o que antes era o espaço entre os dois prédios, agora a ser usada como palco de ‘eventos espontâneos’, com entrada franca no primeiro andar, incluindo uma nova área dedicada exclusivamente para performances, empurrará o museu em velocidade ainda maior para a necessidade de agradar a um gosto mais popular, à custa da seriedade e do distanciamento crítico da cultura pop que garantiram sua reputação”.
Não chega a surpreender, portanto, o fato de a maioria dos repórteres americanos questionar seguidamente os curadores e Lowry, na abertura para a imprensa da exposição dedicada à artista brasileira, sobre os reais resultados terapêuticos da experiência artística de Lygia Clark e suas conexões com as tradições freudianas ou lacanianas. Ou a reação imediata dos curadores em corrigir os que insistiam em nomear os “objetos relacionais” de Lygia de “instalações”.
“O Abandono da Arte”, no entanto, é estruturado de modo nítido em três grandes temas, quase totalmente independentes uns dos outros: primeiro, as experiências da artista com a abstração, desde o aprendizado com o paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994) nos anos 40; mais tarde, o período do neoconcretismo brasileiro, cujos outros dois nomes mais reconhecidos pelos americanos são os de Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Pape (1907-2004); e, por fim, o “abandono da arte”, anunciado a partir de 1966, abrangendo as duas últimas décadas de produção da artista.
Na entrada da exposição, os primeiros trabalhos de Lygia, pinturas e desenhos criados entre 1948 a 1959, são marcados pela busca de uma abstração tridimensional e a negação da superfície plana, com o que os curadores perceberam ser tentativas explícitas de diálogo com precursores da geometria abstrata moderna, como Paul Klee (1879-1940), Fernand Léger (1881-1955), Piet Mondrian (1872-1944), Vladimir Tatlin (1885-1953), Max Bill (1908-1944) e Georges Vantongerloo (1886-1965). Entre os destaques, as “Superfícies Moduladas” e os “Planos em Superfícies Moduladas”.
Na sala dedicada ao “neoconcretismo” aparecem os trabalhos formais derradeiros da artista, com a maravilha imaginativa dos “Bichos” e a série “Trepantes”. Por fim, no “Abandono da Arte”, os “objetos sensoriais” – “Caminhando”, “Pedra e Ar”, “Respire Comigo”, “Diálogo de Mãos”, “Máscaras Sensoriais”, “Óculos”, “Diálogo de Óculos”, “Estruturas Vivas”, “Rede de Elásticos” – traduzem tanto a crise pessoal de Lygia quanto seu questionamento sobre a utilidade prática do fazer artístico. Algumas das criações mais radicais do período serão ativadas apenas em ocasiões especiais durante a semana, com o monitoramento de funcionários treinados pelo MoMA e o encorajamento de engajar do visitante, incluindo “Canibalismo”, “Viagem”, “Túnel”, “Baba Antropofágica” e “Estruturação do Self”.
Todos os passos da mostra são acompanhados pela cineasta e cenógrafa Daniela Thomas, que prepara um documentário produzido por Connie Lopes em parceria com Vanessa Clark, cuja linha narrativa será dada tanto pelas entrevistas com nomes fundamentais para o entendimento da arte brasileira contemporânea como pelas cartas e textos deixados pela própria Lygia.
“Ela foi uma das maiores influências em minha carreira e minha geração. Filmei toda a preparação para a exposição, acompanhei o trabalho dos curadores, terei no filme a voz de Paulo Herkenhoff e Gullar. A expectativa dos curadores, da família e a minha é a de que essa exposição e o registro audiovisual dela escancarem para o grande público do eixo do Atlântico Norte o que nós já sabemos: o tamanho, a dimensão, a grandiosidade da obra de Lygia Clark”, diz Daniela.