FC/RIO #6 – A Copa

Enviei email ontem mais uma vez aos correspondentes aqui do b®og (FC RIO + JC/LA/CA + MC LDN + JD/YALE + GP/NY) solicitando novos textos. Novamente Frederico Coelho prontamente atendeu o chamado e nos enviou suas anotações em texto delirante sobra a COPA do mundo 2014 no Brasa. FC mandou também essas 3 imagens que ilustram o post. (Na barra lateral direita do b®og tem uma apresentação do Fred pra quem ainda não conhece a figura)

a_copa_fred_coelho_2 a_copa_fred_coelho_3 a_copa_fred_coelho

A Copa.

A Copa. Abismo e horizonte infinito. O novo mito salvacionista que alavanca as ufanias e o velho câncer que corrói o caráter de um país. A Copa como síntese entre o Caos e o Cosmos. O momento ápice de um regime faminto de mercado. A Copa é a bocarra escancarada sem vergonha de fazer com a vida convirja para puro ouro dos seus bolsos. Tudo vira Copa. O carro é Copa. A comida é Copa. O banco é Copa. O ar é Copa. Compre o ar da Copa. Salve-se com a Copa . Ame a Copa. Foda com a Copa. Não há poesia na Copa. Há poesia no futebol, sempre haverá poesia nos jogos. Não na Copa. A Copa é, como disse Verissimo, o monólito negro de Kubrick, atravessado nos céus das cidades do país de Neymar, encravado na vertical da terra de Cabral, fazendo sombra nos sentidos, obnubilando as ideias mais claras como a luz atlântica que explode nas faces estouradas e carcomidas de felicidade e petróleo. A Copa foi o salvo-conduto para o ciclo da insanidade pública por parte dos governos. A Copa é a bunda brasileira, a grande bunda-Adidas-brasileira, plena de desejo alheio, potência sexual e excremento. A Copa, aliás, é mais que a grande bunda brasileira balançada pelo mundo. A Copa é a própria energia sexual que move o desejo pela grande bunda brasileira. A Copa é um devir-devoração que arrasta as pessoas para um estado extático de devaneio. A Copa é boa porque é boa. A Copa é péssima porque é péssima. A Copa é mil anos de história, no embate entre natureza e cultura, entre luzes e trevas, entre local e global, entre humanidade e capital, entre o que fica e o que passa, entre civilização e barbárie. A Copa ocupa, violenta, transforma, rasga, funda, cobra, gasta, fascina e vaza. A Copa é uma forma materialista de acessarmos o mais profundo subconsciente coletivo ao redor da animalidade dos corpos em busca de seu espaço no sol. A Copa é a vitória desse corpo dos trópicos que define nossa nacionalidade. A Copa é da refundação dos desdobramentos do corpo em movimento em nosso imaginário, é a vontade atávica de vencer o mundo através desse corpo criativo em movimento, é a percepção de que o mundo assimilou tecnologicamente a naturalidade do nosso corpo criativo imagético em movimento e nos venceu. Agora, a Copa é a chance de, aqui, na terra de Iracema e de Tupã, provarmos que o paradigma da naturalidade do dom da superação da razão pela elasticidade dos músculos malabaristas e dos repiques, surdos e gritos da massa cheia de dente e de fúria ainda imperará no Quinto Império. A Copa é um devaneio que começou em uma época plena da vontade de potencia brasilis em ser centro do mundo. A Copa é fruto de um arranjo geopolítico em transformação. A Copa é uma forma de fuder com a população, porém com legitimidade assegurada pela ideia de progresso. A Copa é o progresso – ou a ideia de progresso que nossa época está oferecendo ao mercado. A Copa é a chance de ouro e o tiro pela culatra. A Copa será lisérgica para os tarados das mesas redonda, excitação máxima, olhos esbugalhados na mesmice repetitiva do VT. A Copa apagará a mente sobre todo o resto, só existe seu imperativo categórico em todos os assuntos. A Copa é monotemática e monopolista. A Copa será na rua, na porrada, no pau e pedra. A Copa é uma bala de borracha. A Copa é uma máscara preta. A Copa é uma vitrine quebrada. A Copa é a tropa de choque. A Copa é o choque. Nunca mais seremos os mesmos depois da Copa. Nunca mais nos lembraremos de quando o mundo não olhava fixo, ao mesmo tempo, para o nosso cartesianismo tropical, para a nossa ciência da gambiarra, para os nossos dispositivos de improviso. Éramos livres para nos fuder ou nos reinventar em paz. A Copa é a prova dos nove. A alegria dos nove. A Copa é o estupro e a paixão. A Copa, é o Brasil. Desafio, desalento, desatino. A Copa é o mundo de hoje. Cuspido, e escarrado.

 

Comments are closed.