Marchand Franco Terranova morre aos 90 anos
publicado no site do Globo as 15h25 do dia 30/12/13
Um dos idealizadores da Petite Galerie, ele lutava contra um câncer
RIO – Morreu na manhã desta segunda-feira aos 90 anos o marchand Franco Terranova. Um dos idealizadores da Petite Galerie, que funcionou entre 1954 a 1988 em Ipanema, foi um do precursores no mercado de arte brasileiro. Pela galeria passaram artistas como Carlos Vergara, Ernesto Neto, Volpi, Luiz Áquila, entre outros. Ele lutava havia dois meses contra um câncer.
Quando chegou ao Brasil vindo da Itália, em 1947, o estudante de literatura e poeta Franco Terranova tinha experiência como aviador, tendo atuado em batalhas da Segunda Guerra Mundial. Deixou o país pelo qual lutou, bradando que se recusava a viver numa Itália comandada por Mussolini — e já encantado com o personagem de Zé Carioca, que o fez pegar um navio rumo ao Brasil.
Chegou aqui sem dinheiro, primeiro ao Paraná e a São Paulo e, em seguida, ao Rio. Na cidade em que se consagraria como um dos grandes nomes das artes visuais, Terranova dormiu uma ou outra noite na praia até ser abrigado pela família Matarazzo, com quem tinha parentesco. O imigrante conseguiu emprego na Petite Galerie, a diminuta casa inaugurada em 1953, em Copacabana, pelo pintor Mario Agostinelli (1915-2000).
Um ano depois, Terranova já era um dos sócios da galeria de arte que, por suas mãos, seria convertida num dos principais pontos de encontro de artistas na década de 1960. Em 1954, a casa migrou para o endereço em que fez história (na Praça General Osório, 53, em Ipanema).
Lá, Terranova expôs, nos anos 1950, José Pancetti e Alfredo Volpi, e, na década seguinte, Carlos Vergara e Antonio Dias. Nos anos 1970, chegou a ter uma filial em São Paulo, mas era o Rio que ganhava força como espaço de vanguardas artísticas. Mais tarde, nos anos 1980, lançou artistas como Ernesto Neto e Jac Leirner.
— Lembro do dia em que ele foi ao meu ateliê pela primeira vez. Era julho de 1987, e tive um dos maiores encontros da minha vida. Mostrar meu trabalho a ele foi um dos momentos mais espirituais que vivi — lembra Ernesto Neto, que, em março de 1988, fez, na galeria de Terranova, sua primeira exposição individual. — Mesmo antes de expor lá, eu já sonhava com uma mostra na Petite. Estar na galeria em 1988 foi muito importante na minha carreira, mas, mais que isso, foi emocionante. Tenho um amor profundo por ele, um respeito enorme. Considero Franco um pai.
Emocionado, Neto conta que Terranova sonhava fazer uma exposição num navio “e sair com ela pelo mundo, navegando” (“Era um poeta, tinha uma visão ampla da vida”, diz o artista).
Casado desde o início da década de 1960 com Rossella Terranova, italiana nascida em Atenas, o galerista manteve nos fundos da Petite um espaço, o Petit Studio, em que a mulher trabalhava preparando atores para espetáculos, filmes e novelas.
Em 1988, ele decidiu fechar a galeria. Mais tarde, em entrevista ao GLOBO, disse ter deixado o ofício para as mulheres, citando nomes como os das galeristas Raquel Arnaud e Nara Roesler, ambas marchandes que atuam em São Paulo.
Um dos quatro filhos que teve com Rossella, o fotógrafo Marco Terranova conta que, desde o fechamento da Petite Galerie, o pai passou a se dedicar integralmente à poesia. Embora tenha seguido investindo em obras de arte (e ainda servindo de referência para colecionadores e artistas), deixou de ter o espaço físico da galeria.
— Ele continuou interessado em arte, mas virou poeta em tempo integral. Seguia para o computador todos os dias para escrever poemas — lembra Marco, que trabalhou ao lado do pai em “Sombras”, livro lançado pela editora Réptil em 2012.
No título também participou outra filha do galerista, a designer Paola Terranova. Para o projeto, ele convidou 72 artistas a fazerem ilustrações. Um time de artistas consagrados, como Cildo Meireles, Abraham Palatnik, Frans Krajcberg e Carlos Vergara, aceitou seu convite.
— Franco tinha visão de artista de vanguarda e também uma adesão às vanguardas. Era um poeta que a vida toda praticou poesia — disse, entre lágrimas, Vergara, que também fez sua primeira individual na Petite Galerie, em 1967. — Vivemos coisas inesquecíveis. Fiz uma exposição com Franco fechada por um general em 1968, de forma brutal, durante a ditadura. E ele docemente segurou o tranco. Foi um companheiro que sabia manter distância, não era invasivo, passava uma amorosa segurança. Foi importante no início da minha carreira e, agora, na maturidade, me deu um presente: quando abri minha exposição no Museu do Açude (em setembro passado), Franco surgiu lá, caminhando. Era um homem capaz disso: aos 90 anos, subir lá para ver minha exposição.
Como poeta, Terranova também foi prestigiado. Lançou 13 livros e é tido como um precursor da poesia concreta por Ferreira Gullar, que assinou o prefácio de “Sombras”. Em 1960, no “Jornal do Brasil”, ele publicou um poema pela primeira vez. A construção espacial se repetiria em todos os seus textos, desde o primeiro livro, “O girassol” (1973).
— Conheço Franco desde a Petite Galerie. Fomos muito amigos, ele me visitou no exílio, em Buenos Aires. Teve uma importância enorme nas artes plásticas do Brasil. Tinha o juízo crítico de um artista, o que ele também era. Não fazia só pelo dinheiro, prezava pela qualidade. Pela Petite Galerie só passavam os melhores — disse Gullar.
Ele deixa mulher, quatro filhos, duas netas e um livro no prelo, “Carma carnadura”, que será lançado pela Réptil no início de 2014. Para a obra, posou nu diante das lentes do filho Marco, a fim de registrar as marcas da velhice no corpo humano. Já seu texto trata de um homem que morre em plena vida.