MC LDN #10
Maria do Carmo Pontes, a correspondente avançada do b®og em Londres (com foto e micro-perfil aí na barra lateral), mandou a décima coluna MC LDN diretamente de Paris… Lá vai:
Huyghe & Parreno
Giovana Maria Sebastian. À porta da exposição do Pierre Huyghe, no Beaubourg, em Paris, um homem anunciava a entrada de cada um dos visitantes pelo primeiro nome, introduzindo uns aos outros e, a todos, a teatralidade da mostra. Concebida como uma retrospectiva de meio de carreira do artista francês, a exposição reúne trabalhos produzidos nos últimos 20 anos, como o belíssimo Recollection (2011). Este consiste num aquário com um caranguejo-ermitão (espécie que vive em conchas de caracóis abandonados) que se apropriou de uma reprodução oca da Sleeping Muse (1908), de Brancusi, e fez dela sua casa; por onde quer que o caranguejo vá, ele carrega consigo a icônica cabeça da musa. A mostra conta ainda com performances ocasionais e outros trabalhos marcantes da carreira do artista, como obras da série Untilled (sic), apresentadas inicialmente na dOCUMENTA 13 (2012), e No Ghost Just a Shell (1999-2003), em parceria com o Phillipe Parreno, que oferece o uso da imagem da mangá Annlee (adquirido pelos artistas) de graça para outros artistas criarem obras com a boneca. Para além de trabalhos individuais, a mostra prima pela maneira como os encadea, colocando grande ênfase no pano de fundo da exposição, isto é, a arquitetura. Essa estratégia é radicalizada na mostra Anywhere, Anywhere Out of the World, de Phillipe Parreno, não por acaso em cartaz ao mesmo tempo que a mostra de Huyghe, no Palais de Tokyo, também em Paris. Parreno respondeu de forma sagaz ao convite de ocupar integralmente o espaço do Palais, criando uma coreografia de luz e som cujo alcance excedia a própria fisicalidade dos materiais, perpassando as salas do museu. Porões e outros ambientes que não são comumente abertos para exposições estavam acessíveis, orquestrando um verdadeiro labirinto que por vezes levava a becos sem saída. Ocasionalmente os visitantes encontravam obras, tanto de Parreno quanto de outros artistas da gang: Huyghe, Tino Sehgal, Dominique Gonzalez-Foerster – cuja estante falsa La Bibliothèque Clandestine (2013) esconde uma sala secreta contendo desenhos de Merce Cunningham e John Cage, poderosíssimos em sua ingenuidade – entre muitos outros. Foi emocionante me perder pelas entranhas do museu, me deparar com trabalhos como Zidane: A 21st Century Portrait (2006), de Parreno e Douglas Gordon, que eu tive o prazer de ver pela primeira vez as 17 projeções ao mesmo tempo. Cada um a seu modo, Huyghe e Parreno conceberam exposições surpreendentes onde, em ambos os casos, o meio é a mensagem.