GP/NY #3

Mais uma colaboração antiga do Gustavo Prado que coloco agora no ar apesar da exposição do Nick Cave não estar mais em cartaz na galeria Mary Boone (10/9 a 22/10 de 2011…). Para ver todas as colunas do Gustavo basta clicar GP/NY na aba das categorias aí ao lado.

Nick Cave na Mary Boone Gallery

Seres repletos

A entrada da galeria Mary Boone no Chelsea é bastante discreta, não há nenhum logo extravagante na fachada, apenas uma porta misteriosa que dá para uma pequena recepção, no fundo da qual, como sempre, uma bela moça, sentada de trás de uma grande mesa com cabelo bem cortado, sorri e espia. No canto mais distante da entrada há uma passagem. Olhando por sua abertura, para a luz que por ela escapa, não há nada que possa te preparar para o que está adiante.

Do outro lado, seres coloridos aguardam, estacionados no centro de uma grande sala. Sua presença e o choque causado pelos objetos e materiais que forjam sua forma e sua pele deixam uma forte impressão, mesmo naqueles já acostumados a todo tipo de estátuas, roupas, corpos, e estranhos tipos de ornamentos que uma cidade tão diversa e pluralista quanto Nova York pode apresentar.

Olhando para sua superfície, pode-se notar que estes corpos são construídos com o acúmulo de estranhos objets trouvé, como pássaros entalhados, corujas de porcelana, bichos de pelúcia, palhaços de brinquedo – com suas cambalhotas mecânicas, bonecas vodoo, globos escolares, peões de corda, tapeçarias mexicanas, tapetes de banheiros com super-heróis e personagens de desenho animado estampados, cata-ventos, cornetas e pirulitos, bandeirolas, sombreiros, macacos de plástico, bules e xícaras, rodas de carroça e lantejoulas, botões, purpurina, flores artificiais etc. E uma explosão de detalhes e cores que formam uma estranha procissão, um desfile fantasmagórico e fantástico paralisado à espera dos nossos olhos; uma junção obsessiva do infantil com o ritualístico, capaz de causar vertigem e assombro.

Sua identidade parece ser dada pelo sentido ou memória do uso passado de todos esses objetos e pelas milhares de associações disparadas com a sua justaposição. Para além de uma apreciação do seu valor escultórico intrínseco, fica a impressão de que eles transmitem uma crítica subliminar. Afinal, quem mais gostaria de ser definido pelos aparelhos e roupas que carrega? Seu exagero parece criar uma caricatura, como uma carapuça que serve.

Outro aspecto desses trabalhos pode ser mais facilmente notado ao tomarmos conhecimento das relações do artista com a dança, ou se tivermos a sorte de testemunhar um dos momentos em que passam de esculturas a figurinos, para tomar parte numa de suas performances. Cave escreveu coreografias específicas para explorar como alguns deles, cobertos com pelos coloridos, criam efeitos impressionantes ao moverem-se, ou para que produzam sons com seu chacoalhar. Eis a razão para que os trajes/esculturas recebam o nome de “Soundsuit”.

Algumas das figuras mais interessantes desta exposição são feitas de centenas de peças de madeira, reunidas para criar uma topografia rústica e orgânica, como uma armadura natural. Elas têm, no lugar de seus rostos, grandes cestos, criando aberturas que parecem reforçar a impressão de que se tratam de criaturas sem alma. Elas trazem a estranha sensação de que o mundo e nós, quando dela nos aproximamos, podemos ser tragados e despencar para dentro do seu vazio. Elas nos lembram também o exército chinês de terracota, como se estivessem à espera de alguma coisa que fosse reanimá-los e trazê-los de volta à vida.

Ao sairmos da exposição, ganhamos a rua com a sensação de que vimos contradita uma das ideias mais antigas da metafísica, ideia essa desenvolvida por Aristóteles, que anuncia que todo ser tem uma essência responsável por realizar o que fundamentalmente é, e que deve retê-la por necessidade, pois, sem ela, perderia sua identidade. A essa essência ele opõe a noção de acidente, ou as propriedades contingentes de um dado objeto sem as quais ele ainda poderia manter sua identidade. A natureza ambígua das esculturas/trajes, seres/personagens que deixamos pra trás na galeria não parece respeitar essa distinção, pois sua identidade é determinada pelos acidentes que sobre ela se acumulam para constituí-la. Elas se apresentam, enfim, como a intrincada narrativa da sua formação.

Aristóteles que nos perdoe, mas com Cave ficamos muito mais próximos das ideias do poeta francês Paul Valéry, que nos disse para não buscarmos muito além, pois o que há de mais profundo é a pele. É dela que extraímos aqui a experiência destas obras, que refletem muito bem a nós mesmos e a nossa época com a riqueza e a complexidade de sua superficialidade.

aqui o site da galeria com o press release da exposição: http://maryboonegallery.com/exhibitions/2011-2012/Nick-Cave/index.html

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