GP/NY #2
Gustavo Prado começou a colaborar com o b®og quando eu estava fazendo a mudança do Blogspot para WordPress. A mudança demorou 6 meses e o b®og ficou fora de ação. Nesse periodo ele me mandou um monte de posts que não foram ao ar. Agora resolvi subir tudo ao mesmo tempo apesar das exposições comentadas não estarem mais em cartaz. Uma pena termos perdido o calor da hora mas espero que vocês apreciem os textos do nosso correspondente no Brooklyn. Segue o texto sobre a exposição de Cindy Sherman no MoMA. Já já coloco mais e mais. Para ver todas as colunas do Gustavo basta clicar GP/NY na aba das categorias aí ao lado.
A retrospectiva de Cindy Sherman no MoMA
Poucos são os artistas de quem podemos dizer que transformaram ou influenciaram de forma tão decisiva o debate sobre arte contemporânea quanto Cindy Sherman. Ela é ao mesmo tempo causa e efeito da preponderância de Nova York sobre o mundo da arte. Se a relação entre Eduard Manet e Paris constitui uma das principais razões para o nascimento da modernidade, talvez um dia também seja possível compreender como a pós-modernidade tem tanto Nova York quanto Cindy Sherman como grandes simbolos. Seu trabalho é herdeiro direto de alguns dos temas que foram formulados nos anos setenta, mas que devem sua internacionalização e predominância à geração de Sherman. São alguns dos mais notáveis: a apropriação, utilizada em seu trabalho como uma lente de aumento capaz de observar nossa Cultura e os papéis que nela foram “deixados” para as mulheres; o uso do corpo como importante suporte para arte no questionamento de estereótipos e fronteiras entre diferentes meios; o privilégio do conteúdo sobre o meio; o engrandecimento do papel do artista, que se torna tanto sujeito quanto objeto, num esforço muito mais complexo que o mero autorretrato; a exploração e teste da ideia de uma identidade unívoca e coerente, o interesse pela fotografia, a submissão de sua linguagem ao uso como ferramenta e registro de uma performance; e a história da arte como um campo a ser continuamente reinterpretado e re-significado por obras que fazem menção ao cânone. Com tantos temas decisivos relacionados à sua obra, ela é parte de uma grande virada histórica. Enquanto na década de oitenta o neo-expressionismo tornava homens-pintores famosos e ricos, trabalhos muito mais significativos criaram o que foi provavelmente um dos mais importantes momentos para mulheres na história da arte: quando artistas como Diane Arbus, Adrian Piper e Hanna Wilke passaram o bastão para Sherman e suas contemporâneas como Sherrie Levine, Barbara Kruger, Nan Goldin, Jenny Holzer, Kiki Smith, entre outras, que ao extrapolar a então chamada “arte feminista,” colocaram a nova geração de mulheres artistas na posição de grandes protagonistas da produção contemporânea.
Untitled Film Still #27. 1979
Mas, mais do que celebrar a importância de Cindy Sherman, e especialmente a de sua obra, já laureada com textos de alguns dos mais importantes críticos, como Arthur Danto e Rosalind Krauss, devemos assumir o desafio de acrescentar ainda mais. Pois nunca há uma interpretação definitiva, sobretudo para trabalhos apontados como capazes de se tornar clássicos definidores de uma época, como sua emblemática série “Untitled Films Stills”. A própria definição de clássico pressupõe uma contínua atualização e revisão da atualidade e permanência da relevância de uma obra, e não é sem ironia que logo uma era que se diz pós-histórica produza seus clássicos, logo uma época que tem no elogio ao efêmero um de seus traços mais significativos. Porém, o mais estranho, é que a interpretação que tivemos ao nos defrontarmos com o conjunto de trabalhos dispostos em formatos cada vez maiores, até que no final se tornem murais, é de que o conjunto dessa retrospectiva montada no MoMA é como uma peça. Ou seja, que é possível traçar uma analogia entre o percurso do espectador pelas salas da exposição com o que vive a plateia de um teatro, mais precisamente, uma analogia entre o que a tragédia quer ser para seu público. Pois, mais do que mera comparação entre a performance da artista diante da câmera fotográfica e o trabalho do ator, nos cabe buscar ir mais longe e sugerir que o papel ocupado por Cindy Sherman em grande parte de suas personagens é o do herói trágico. E, ao apontar para esse traço fundamental de sua obra, não podemos evitar o uso dos termos e ideias de Aristóteles descritos em sua Poética, um livro crucial para o nascimento do pensamento crítico sobre arte. Mesmo que isso soe um tanto estranho e anacrônico, a referência a um texto tão associado a antigos academicismos e dogmas artísticos nos deve ser permitido. Pois, numa era pós-histórica, na qual artistas como Sherman conquistam a liberdade de acessar o passado e recorrer a obras e ideias tão antigas para, transformando-as, também alterar os arcaísmos que cercam os papéis femininos, por que a Poética não poderia vir ao nosso auxílio e lançar luz sobre obras contemporâneas? Por que nos abster de ampliar a compreensão de ambos, obras e texto, nesta confluência ou colisão?
Vejamos. Para Aristóteles, a sorte do herói trágico deve mudar da alegria à miséria, e a razão da queda do herói não vem apenas do destino, mas parte dela deve ser culpa sua, fruto de sua liberdade de escolha, consequência de um erro de julgamento ou falha de caráter. Tudo deve resultar de sua imperfeição, traço muito importante, pois é justamente o que permite que nos identifiquemos com o herói. Se ele fosse perfeito e todo-poderoso, não nos veríamos sujeitos aos mesmos erros e acontecimentos que recaem sobre ele, sua jornada seria distante demais e a identificação muito mais difícil. E sem identificação não haveria catarse. Sua queda deve servir para tornar a nós todos, o público, mais conscientes e atentos às escolhas que temos sempre pela frente. O alerta só se torna memorável, e, a experiência, catártica, se a tragédia imitar ações que despertem medo e piedade, para que por fim possamos nos purificar de tais emoções. Mas de que nos serve, hoje, essa purificação? E como uma obra de arte contemporânea poderia operá-la? Cindy Sherman, desde o início, se refere aos seus personagens como has-beens, mulheres decaídas, no desespero do momento em que tomam consciência do seu desfortúnio. Uma de suas primeiras personagens da “United Series” tem uma mala aberta sobre a cama, que parou de preencher com roupas amassadas para chorar compulsivamente. Outra foto mostra uma moça de pé na estrada vazia a noite, à espera de uma carona. Em mais uma, outra mulher olha fixamente para o telefone, numa imagem de um imenso arcaísmo – mais uma espera, num rosto que é misto de vazio, dor e ansiedade. Elas todas parecem tão sozinhas e sofrendo tanto, que não podemos evitar a pergunta sobre quais escolhas ou circunstâncias as levaram a esse estado. E mesmo que não a julguemos, é difícil não sentir ao mesmo tempo pena e empatia, ou medo de que sua miséria algum dia possa ser a nossa.
Untitled #90. 1981
Em outra série, “Sex Pictures” – agora dos anos 90 –, a aparência é tão artificialmente encenada, com o uso de prostéticos e bonecas médicas, que a nudez, ao invés de excitar, causa repugnância. Como se nosso próprio impulso de projetar luxúria e desejo se voltasse contra nós. Como se a substituição de corpos de verdade por objetos tão esquemáticos nos mostrasse nosso desprezo pela mulher real, que precisa ser esquecida para ser utilizada como mero canal e suporte para uma experência erótica. Mais do que o canônico embate entre o nu e a nudez, a imagem da artista precisa, nesses trabalhos, desaparecer, num esforço para colocar o nosso olhar e o papel de uma audiência ávida por imagens femininas no centro do palco. O grotesco dos órgãos sexuais, e dos olhos ora reais, oras falsos, que de dentro das máscaras nos veem, nos lembram que nós também podemos nos tornar objetificados. Eles também parecem desinteressados da nossa humanidade, e nos percorrem em busca de órgãos e membros tanto quanto os nossos olhos há pouco faziam.
Na sala seguinte, um alivio momentâneo, pois em “Fashion Series”, ou “Society Portraits,” a objetificação do corpo é algo a ser medido, refinado, pelas próprias personagens, mulheres que, na busca pela beleza e atenção dela proveniente, parecem explorar os limites da vulgaridade e flertar com o risco de exagerar seus esforços na construção de suas imagens. Sherman não esconde suas cirurgias, sua maquiagem pesada. As próteses utilizadas na caracterização apenas reforçam o exagero que é parte de suas próprias personalidades e esforços de projetar imagens mais poderosas, desejáveis, felizes e jovens. É um jogo trágico, pois, quanto mais alta a escalada na busca por padrões tão artificiais, maior a queda e mais escancarados os “defeitos” que buscam mascarar. Sua vaidade serve como medida de sua vulnerabilidade. E claro que sentimos piedade por elas, mas quão fácil não seria desviar esses olhares afiados sobre nossos próprios esforços por mascarar e esconder nossas falhas? E, mesmo como público, tememos esses mesmos olhos escrutinadores que não conseguimos evitar usar. A identificação é tão veloz que também despencamos de cima do deboche para o fundo do desconforto.
Untitled #467. 2008
A escolha por retratar uma mulher em quase todas as obras se coloca como mais do que um desafio a estigmas e estereótipos. É um esforço por tornar as imitações verdadeiras, mas não no sentido de tornar sua representação realística e precisa, já que muitos dos subterfúgios do que está sendo encenado podem ser vistos tão claramente. São imitações verdadeiras na medida em que nos permitem ver a cada retrato não como caricatura, mas como a uma pessoa, e, mesmo que ainda conscientes da imitação, nos assombramos com sua familiaridade. É isso que torna possível a identificação, e essa proximidade nos aterroriza a cada sala, até o momento de deixarmos a exposição. Saímos dela purificados de nossa piedade e nosso medo, mais leves com o sentimento de que nossas misérias e nosso destino não serão tão expostos, de que não precisaremos nos colocar diante de tão inquisidores olhos, nosso defeitos não são tão óbvios, nossas dores não são tão profundas, nossa auto-enganação não é tão pública. Nos sentimos aliviados pela sensação de que estamos salvos uns dos outros, não estamos? E, mesmo dentro da conformidade e proteção de nossas rotinas, sabemos que, enquanto houver arte e heróis trágicos, não podemos evitar a consciência de nossa fragilidade, não podemos dizer que não fomos avisados. Não podemos nos esquecer de aproveitar melhor as horas. Das paredes, as mulheres decaídas de Sherman observam.
Untitled #461. 2007-08