FC/RIO #5 – Barnbilônia ou HO em NY – Primeiras Anotações
Enviei email ontem aos correspondentes aqui do b®og (FC RIO + JC/LA/CA + MC LDN) solicitando novos textos e uma participação mais frequente. Frederico Coelho prontamente atendeu o chamado e nos enviou suas anotações sobre H.O. (Na barra lateral direita do b®og tem uma apresentação do Fred pra quem ainda não conhece a figura)
Barnbilônia ou HO em NY – Primeiras Anotações
A relação de Oiticica com Nova Iorque começa em uma breve visita durante o ano de 1969, quando ele e Lygia Clark voltavam de um seminário sobre BodyArt em Los Angeles. Hélio visita alguns amigos que já moravam na cidade, como Rubens Gerchman. Na sua visita ao loft em que o pintor carioca morava, conhece os críticos Roberto Schwarz e Silviano Santiago, de quem se tornaria grande amigo nos anos seguintes.
Em 1970, Oiticica participa ao lado de Cildo Meireles e Guilherme Vaz da famosa coletiva internacional Information, realizada no MoMA. Envia seus Ninhos, trabalhos fundamentais para sua trajetória e que estavam presentes na sua primeira e única grande individual na Whitechapel Gallery.
No mesmo ano, recebe uma bolsa da Fundação Guggenheim para morar em NY e executar trabalhos durante dois anos. Fica sete, ou seja, cinco anos sem visto permanente e, de certa forma, ilegal. Faz milhares de projetos, maquetes, proposições, textos, filmes, mas não apresenta nenhuma obra para a Fundação.
Em Janeiro de 1971 já se encontra habitando o seu primeiro apartamento na cidade, o Loft 4 da Second Avenue com 8th Street. Anos depois, por volta de 1974, ele sofre um assalto e se muda para outro apartamento, na Christopher Street, coração do Greenwich Village. Nos sete anos que mora na cidade, Oiticica não foi a nenhum outro país ou até mesmo a outro estado norte-americano. Também não voltou um dia sequer ao Brasil. Apenas em janeiro de 1978 ele volta ao Rio para morar no Leblon, primeiro na Carlos Góis e depois na Ataulfo de Paiva, endereço em que falece em 1980, vítima de derrame.
A vida profissional de Oiticica em Nova York tem como epicentro uma massa gigantesca de escritos e documentos deixados por ele em seu arquivo. Entre 1971 e 1978, ele escreveu incessantemente em cadernos, fichas, folhas avulsas, tirou fotos, gravou sons, filmou ruas e ideias, bolou livros, filmes, obras e trabalhos grandiosos. Qualquer pesquisa sobre sua obra será sempre baseada nessa documentação que Oiticica nos legou. Documentos que apontam para a presença das ruas e vidas que circulavam por Manhattan (ao menos pela Manhattan de Oiticica). Neles, podemos ler a sua permanente reflexão sobre o Espaço como um dos conceitos definidores de sua obra.
Oiticica traçou alguns eixos de circulação por Manhattan. Tinha em suas andanças seu próprio território. Não que deixasse de andar por toda a Ilha, mas ele teve relações mais orgânicas com certos espaços. Um deles, seguindo a tradição marginal de sua biografia, eram os mergulhos nos bairros do Harlem e do Bronx. Lembremos que a Manhattan de Oiticica não é a cidade mundial perfeita, segura, plena de serviços, arte, mercado e entretenimento na medida certa para tudo e todos. Em 1971/1977 Manhattan era uma ilha inóspita, falida, segregada e plena de barris de pólvora, grupos de estrangeiros guetificados, gangues, tráfico de drogas e perda de relevância política dentro do país.
Circular pelo Harlem e pelo Bronx no período de Oiticica, portanto, era como circular no eixo-Favela da Mangueira-Morro dos Macacos durante os anos 1960 no Rio de Janeiro. Foi lá nessas regiões da ilha que ele tirou fotos famosas, promovendo experimentos com seus Parangolés. Lá também viu o nascimento do grafite e da arte urbana, conheceu os grupos de poetas negros como Last Poets ou o grupo de porto-riquenhos chamados Young Lords.
Oiticica, por uma questão também ligada ao seu universo sexual, conhecia jovens que viviam o submundo da cidade. Seu envolvimento com o tráfico de drogas local devido ao uso pessoal constante de cocaína durante alguns anos potencializava essas circulações outsiders pelos lados não-brancos da cidade. No final das contas, ele também era um estrangeiro, um latino, um imigrante ilegal como todos os outros.
A Outra Manhattan de Oiticica também transitava por uma cidade fronteiriça, a parte gay e, chamemos assim, alternativa do Downtown. Era por esse espaço da cidade, entre o SoHo e a 14th Street, que pessoas tão variadas e brilhantes como Andy Warhol, Lou Reed, o cineasta Jackie Smith, Philip Glass, Candy Darling, Patti Smith, Robert Mapplethorpe, Mario Montez, Keith Harring, Chuck Close, Arto Lindsay, os atores do Living Theater ou bandas como New York Dolls, Television e Ramones trabalhavam, almoçavam, bebiam e criavam. Era o local de bares famosos como o Max Kansas City, das novas galerias, dos imensos Lofts doados de graça pela Prefeitura de Nova York para a ocupação de artistas como Richard Serra e Gordon Matta-Clark.
Oiticica viveu com intensidade essa vida da rua na chamada Downtown Art Scene de Manhattan. Entre 1965 e 1975 esse espaço no sul da Ilha que hoje é o milionário e gentrificado SoHo (com suas subdivisões), concentrava a transgressão e a criação de uma era. No caso de Hélio, apesar de não ter se tornado um “Nome” dessa cena, era provavelmente excitante circular entre e conhecer algumas dessas pessoas. Há várias de suas história privadas de encontros que vão de noitadas com Jackie Smith a porres com Alice Cooper.
Além disso, a música ocupa um grande espaço de interesse em sua vida e ele morava literalmente colado a um dos grandes palcos da cena nova-iorquina da época que era o Fillmore East. Oiticica vai três dias seguidos nos famosos shows que os Stones deram no Madison Square Garden em 1972. Na porta de sua casa na Christopher Street tinha um pôster de Jimi Hendrix que era a senha para o caráter das pessoas: quem soubesse o personagem da imagem, tinha livre entrada em sua casa. Quem não soubesse, nem passava da porta.
Outro espaço urbano de Nova York que Oiticica se espraiou com gosto foi a região de Wall Street. Por diferentes motivos, filmou e escreveu sobre o pedaço mais ao sul de Manhattan. Em seu filme incompleto Agripina é Roma Manhattan, ele planeja um roteiro que criasse o diálogo entre a Wall Street do seu tempo e a mesma região citada pelo poeta maranhense Sousândrade em seu famoso poema épico O Guesa e especialmente no canto “O Inferno de Wall Street”. O título do filme, aliás, é uma frase do poema de Sousândrade. Hélio não só filmou a região como criou obras e diálogos textuais com cemitérios e Igrejas do bairro, além de fotografar alguns de seus parangolés nova-iorquinos ao pés das, na época, imponentes e recém-inauguradas torres do World Trade Center.