Arte pirata?
Quinta, 8 de janeiro. São 21h30 e a festa está começando. O endereço é tradicional, o prédio é antigo, o apartamento é amplo e a vista é incrível. O Morro da Urca e o Pão de Açucar (minha pedra predileta) definem um cartão postal real na cara do nariz. As 3 salas e a varanda estão cheias de gente animada. Os donos da festa recebem com desenvoltura e simpatia, é um casal de jovens “colecionadores” que conheci outro dia na inauguração de uma exposição no centro da cidade, ela é estilista e ele publicitário.
Poucos móveis, muitos livros pelas estantes, boa música no ar e uma impressionante coleção de pintura brasileira contemporânea bem organizada nas paredes. Telas grandes e pequenas de Emmanuel Nassar, Luiz Zerbini, Daniel Senise, Antonio Dias, Carlos Vergara, Beatriz Milhazes, José Bechara, Adriana Varejão, Paulo Pasta, Fábio Miguez, Leda Catunda, Rodrigo Andrade, Carlito Carvalhosa, Leonilson e outros mais. A bebida rola solta, a conversa está boa e então me aproximo do anfitrião para comentar a bela coleção.
Ele agradece orgulhoso e atropela sussurando: “Plotei tudo no Studio Alfa, alí na Quinta da Boa Vista, impressão laser colorida sobre lona Sansuy, custa R$ 47,00 o metro quadrado. Digitalizei as imagens em alta resolução a partir dos catálogos e livros e mandei imprimir no tamanho exato de cada original. Adoro arte brasileira, sou um aficionado mas não tenho dinheiro para comprar. Preciso viver ao lado dessas obras, fiz isso apenas para meu uso, não pretendo vende-las, não divulgo isso por aí mas também não escondo de ninguém.”
Fico atordoado com o que ele me diz, pego mais um copo e me aproximo das “obras” para observá-las de perto. A cabeça é invadida por uma série de pensamentos: a indústria fonográfica e como ela foi afetada pelos cds piratas e trocas peer to peer de arquivos mp3; filmes e séries de Tv que as pessoas estão baixando no Torrent; os jogos de futebol que são vendidos em pay-per-view mas que qualquer um pode assistir ao vivo em banda larga no seu próprio computador, Ferreira Gular pintando cópias de Giorgio Morandi e Paul Klee em seu apartamento de Copacabana.
Bechara passa e comenta: “Isso é apenas uma coleção de reproduções em escala real, uma nova versão do poster da lojinha do museu. A pintura real solta matéria, tem cheiro, brilho refletido e brilho interno. Imagens fotográficas e certos tipos de múltiplos serão copiados com muito mais facilidade e intensidade. É hora de artistas, galeristas e instituições começarem a refletir sobre a cultura sample que bate a nossa porta diariamente por dentro e por fora.”
Esclarecimento: Essa festa ainda não aconteceu, essas reproduções ainda não estão penduradas nas paredes, esse casal não existe. Para identificar se uma obra de arte é “boa” deve-se usar o velho truque que Sergio Camargo nos ensinou: Encoste seu ouvido perto do quadro, se você escutar um zumbido baixinho, parecido com o de um motor de geladeira/um marimbondo trabalhando, trata-se de um bom trabalho.
Raul Mourão, janeiro 2009