As lições da ARCO, nas artes e na política
Luiz Camillo Osorio escreveu no segundo caderno do Globo de quarta (27/3) a matéria abaixo. Texto lúcido, preciso e oportuno.
Pela primeira vez, galerias com menos autonomia de vôo atuaram em uma feira, tendo a oportunidade de criar parcerias e de abrir novos canais de circulação
A cidade de Madri, neste mês de fevereiro, foi invadida pela arte brasileira. Uma invasão planejada a partir do convite feito ao Brasil para ser o país homenageado pela Arco, uma das principais feiras de arte, que acontece anualmente na capital espanhola. O papel destas feiras hoje ultrapassa a dimensão comercial. Há seminários, performances e vários projetos especiais. Cada vez mais elas se parecem com as bienais. A escala é monumental, a diversidade é a regra, e o mercado é uma presença marcante. Ter sido o país convidado garantiu às galerias brasileiras um espaço próprio. Ocupou-se uma área enorme, mas em um setor de pouca visibilidade na feira. A idéia dos curadores escolhidos pelo Ministério da Cultura (MinC) para a seção brasileira, Paulo Sergio Duarte e Moacir dos Anjos, era dar mais destaque aos artistas do que às galerias.
Todavia, o perfil comercial da feira impôs suas regras e limitou a museografia, seccionando o espaço e impedindo um desenho autônomo da exposição. Os artistas foram separados e cada um ficou com seu centímetro de parede. Faltou sinalização e mais integração entre os vários espaços da feira. As galerias que optaram por pagar por um espaço próprio fora do setor brasileiro tiveram um resultado melhor nas vendas. Menos isoladas, recebiam um volume de colecionadores muito maior. Apesar de certa decepção do ponto de vista comercial, não creio que podemos analisar esta empreitada apenas pela ótica imediatista.
Pela primeira vez, galerias com menos autonomia de vôo atuaram em uma feira, tendo a oportunidade de criar parcerias e de abrir novos canais de circulação. Foi um primeiro esforço do poder público para qualificar a internacionalização do mercado de arte brasileiro. A economia da cultura precisa ser redesenhada. Hoje, não se sabe quantificar o que o mercado de arte efetivamente movimenta no Brasil. Sem se ter alguma base de dados e um mínimo de controle sobre o dinheiro que circula não se pode propor políticas culturais inteligentes.
Não cabe ao ministério interferir no mercado, mas é impossível atuar hoje sem uma articulação entre o setor público e o privado. Há que se conciliar um mercado dinâmico com instituições culturais mais bem organizadas e atuando de forma a democratizar o acesso e viabilizar a experimentação. Não adianta ter boas galerias se os museus não funcionam a contento. Para isso, é fundamental que se tenha mais transparência e clareza sobre o papel de cada ator no complexo circuito de arte contemporânea.
O ponto mais positivo dessa presença brasileira em Madri aconteceu do lado de fora da feira e junto às principais instituições culturais da cidade. O resultado aí é incontestável e com desdobramentos de médio e longo prazo. Não é comum termos artistas como José Damasceno e Miguel Rio Branco expondo simultaneamente no Centro de Arte Rainha Sofia e na Casa de América. O primeiro espalhou suas peças pelo principal museu de arte contemporânea de Madri: na biblioteca, no jardim, nos corredores, pelas paredes. Uma ocupação ao mesmo tempo surpreendente e sutil. Já Rio Branco montou uma pequena antologia de sua obra, com destaque para o filme de 1979/81 intitulado “Nada levarei quando morrer / aqueles que ‘mim deve’ cobrarei no inferno”, revelando um Brasil mestiço, miserável e delirantemente trágico.
A exposição de Fernanda Gomes e Carmela Gross no Matadero também merece destaque. Seja pelo uso poético daquele espaço sombrio por Fernanda, seja pela ironia da frase luminosa de Carmela que brilhava no pátio em letras garrafais – SE VENDE. Ainda aconteceu ali dentro um encontro de coletivos de artistas brasileiros e espanhóis. A Casa Encendida, outro centro cultural da maior relevância, foi ocupada por Lucia Koch e Marcelo Cidade. O Panorama da Arte Brasileira, organizado pelo MAMSP, com curadoria de Moacir dos Anjos, foi montado nas salas da Alcalá 31. Além disso, várias galerias importantes e alguns outros espaços institucionais mostravam artistas brasileiros como Ernesto Neto, José Bechara, Regina Silveira, Os Gêmeos, Eder Santos e Marcos Chaves. De fato, juntou-se quantidade e qualidade, levando ao circuito internacional nossa melhor arte contemporânea. Aos poucos, vai-se tentando desenhar uma política pública para as artes brasileiras. Com o aprendizado desta empreitada, esperam-se novas ações com alguma correção de foco e, acima de tudo, continuidade. A intenção do MinC foi a melhor possível e merece todo o apoio do meio de arte.