El privilegio de morir

Peguei la do Conector do Gustavo Mini.

É um problema quando eu vou a um espetáculo de dança e quero escrever sobre ele aqui: eu simplesmente não sei o que dizer. É diferente de comentar filmes, livros ou discos. Eu já ouvi, assisti, li bilhões desses. Mas dança… ontem foi meu terceiro ou quarto espetáculo de dança na vida. Não entendo nada. E não que seja um problema pra sentar lá e assistir, mas é um problema pra tentar passar adiante a experiência.

Enfim.

Eu fui parar no Theatro São Pedro ontem à noite por uma série de pequenos eventos em sequência. Vi um cartaz que me chamou a atenção e ficou um resquício dele na minha cabeça. Depois, dois dias antes do espetáculo, um amigo me ligou convidado para um evento/bate papo com o diretor, que não pude ir. Nesse telefonema foi que fiquei sabendo da inspiração do Edward Hopper, pintor que adoro. Depois, vi no jornal que o ingresso de platéia custava míseros 30 reais, quando a maior parte dos shows na cidade gira em torno de 100 reais pra ver cada coisinha… cartaz + telefonema de amigo + ingresso barato…

Então me sentei lá, eu e minha gastrite, pra assistir ao trabalho da companhia Provizional Danza de Madrid. Sem saber o que pensar ou que sentir. Depois de tanto tempo, eu sei bem o que pensar e o que sentir em grande parte dos filmes, livros e discos (e também não me olhe assim, eu sei não é autoajudamente correto dizer isso, que vc deve “não saber” as coisas). Na falta de meus conceitos usuais, então, me segurei no Edward Hopper. Não é difícil achar nas cenas a luz e a solidão dos quadros do americano. A foto que abre o post dá bem idéia de como foi, muito embora no São Pedro não tivesse aquela dramática parede detonada.

Meu conceito-hopper-cinto-de-segurança não durou muito tempo. Logo me perdi na históra e não sabia muito bem o que estava acontecendo. Sei que a trilha pulava do Frank Sinatra pra um techno minimal, bem como a coreografia fluía de movimentos espasmódicos, pra uma dança meio anos 50 (é o melhor que consigo pra descrever…) e dali pra… breakdance. Minha descrição deve dar idéia do maior clichê dos clichês de dança moderna, mas não dê bola. São as minhas limitações.

Resumo da história: entrei no universo proposto, mas não sei qual é ele até agora. Isso também não fez falta, honestamente. Os movimentos dos dançarinos/bailarinos/atores ficaram registrados na minha mente. Bem como o climão. E havia um climão. Meio tenso, meio solto. Gente dançando com vigor ou se escabelando pelado. Fica um climão né?

Um dia, quem sabe, eu consigo explicar. Ou não. Muito provavelmente não. Não prometo nada.

Uma pista. O texto da diretora da companhia, Carmen Werner. Deixo em espanhol porque acho bonito. Caso queira, traduza no Google.

“Hablemos de la no violencia, de empezar de espaldas a la vida y de poder escoger el destino libremente. No voy a contar mentiras, pero en el infierno puede aparecer un ángel.

Hablemos de la toma de decisiones, de la capacidad de modificar el destino, de la libertad que todo el mundo piensa que posee.

Esta pieza esta inspirada en los cuadros de Edward Hopper, en la paz de sus
personajes, de su mirada, los colores, la luz.

Pareciera que están esperando algo o a alguien, no están atormentados, puede que esperen el privilegio de morir.”

Não acho que morrer seja exatamente um privilégio (não vamos todos?), mas talvez o ponto não seja mesmo a morte como a chegada da paz (quem disse que é?). Talvez o privilégio de morrer seja o privilégio das coisas que não ficam estanques e onde as coisas não ficam estanques há liberdade. Talvez o privilégio de morrer seja o privilégio de ter vivido.

Desculpe soar “comercial de final de ano com texto de auto ajuda”, mas acho que é por aí a coisa mesmo.

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