Tá Jetsons? Fica Flinstones.

Sexta, 29 de agosto. A casa noturna está entupida de gente, a luz se apaga e a voz que sai das caixas de som anuncia o início do show em 5 minutos. Imediatamente milhares de celulares se erguem para fotografar e gravar a entrada da banda. Os pontos luminosos na escuridão da platéia são pequenas telas ávidas por registrar os próximos instantes.

A cena me faz lembrar um texto antigo do cineasta alemão Win Wenders onde ele comentava a avalanche de fotos que assombra o planeta e a conseqüente banalização das imagens na sociedade contemporânea. O texto passava pelos pintores e seus retratos da nobreza e (depois) paisagem, a invenção da fotografia, os pioneiros e habilidosos fotógrafos que se destacavam em poucas cidades da Europa, a invencão do filme 35mm e o boom das fotos de viagem, os equipamentos de revelação 1 hora e as câmeras descartáveis. É um artigo de uns 10 anos atrás quando a revolução das máquinas digitais e celulares que fazem imagens eletrônicas (fotografias?) ainda estava engatinhando.

O show ainda não começou. “Hoje, se considerarmos câmeras de vigilância, webcams e os aparelhos celulares, existem mais máquinas que produzem imagens do que habitantes na Inglaterra.” me diz o videomaker moçambicano-carioca Victor Lopes. A banda entra e o som entope as orelhas. Cutuco Victor lembrando que existem mais televisores do que geladeiras no Brasil. A conversa segue e argumento também sobre as ferramentas de armazenamento “virtual” de imagens (Flickr, Picasa etc), os blogs pessoais e o YouTube com seus milhares de vídeos. Fim da primeira música, a platéia está ensandecida.

Imagens nos cercam por todos os lados o tempo todo. Vivemos o começo de um novo tempo onde a internet 2.0 já é uma realidade transformadora e a TV digital uma promessa confusa e instigante. Nessse cenário eletrizante vejo artistas tomarem posições antagônicas. Enquanto alguns se entusiasmam com as novas possibilidades outros se fecham no ateliê. Não concordo nem acredito nessa polarização.

O show acabou. Luciana Padilha, do coletivo Pernambucano Branco do Olho, fala do projeto de levar oficinas de fotografias aos munícipios do interior do estado. “Todo mundo vai ter um telefone que faz foto e precisamos aproveitar isso como uma ferramenta de formação do olhar. Se ensinarmos noções básicas de fotografia podemos atacar o sensível de forma inusitada. A popularização dos celulares gera uma oportunidade de trabalharmos educação artística em larga escala para todas as idades e perfis. Vamos colocar fotógrafos e artistas rodando as cidades pequenas e médias com um curso de 1 semana. Numa segunda etapa vamos criar centros de fotografia com exposições de artistas consagrados, jovens talentos e fotógrafos amadores. Além de ensinar as pessoas a olharem o mundo de forma nova é uma oportunidade de aproximá-las do computador e da Internet. Inclusão digital através da foto.” O show ainda ocupa minha cabeça e fico pensando numa escola de música com computadores em todas as salas de aula, estúdios de gravação e laboratórios. Oficinas de Pro Tools, iTunes, mp3, samplers, DJs. Cursos permentes de engenharia de audio, guitarra, discotecagem, baixo, bateria e percussão. Inclusão digital através da música.

A conversa segue animada no Bar e Restaurante Cervantes na Rua Prado Junior em Copacabana. É madrugada e o local está cheio. O artista Sheik fotografa sem parar com seu celular Nokia 6265 com resolução de 2.0 megapixels enquanto a menina eufórica da mesa ao lado incomodada questiona para que tantas imagens. O poeta Fausto Fawcett responde perguntando com a sabedoria de sempre: “Tá Jetsons? Fica Flinstones.” 


Raul Mourão
Setembro de 2008

Texto publicado na revista dasArtes editada por Adolfo Montejo e lançada na última terça no Museu de Arte Moderna – Rio. No próximo número sai mais um texto.

1 comment
  1. romulo de almeida said: