Velha (e nova) entrevista com Maurício Valladares
Ontem na madrugada MauVal me mandou email com o link da entrevista abaixo q ele acabara de receber de um integrante da tucida RoncaRonca de Curitiba. O subject do email era Lembra?, a resposta foi Sim, claro. Como é q vc achou isso? Trata-se de um pedaço do Cariocnarede, site da Revista Ocarioca, q editei com Chacal, Waly Salomão Bernardo Vilhena, Marcos Chaves, Sonia Barreto e Marcelo Pereira na década de 90 do século passado. O site não está mais no ar mas alguns nacos sobraram no arquivo internético WaybackMachine.
A entrevista aconteceu na Praia do Flamengo numa tarde distante pra Meireles e eu estava lá com Marcos Chaves e Luis Marcelo. As fotos abaixo são todas de autoria do MV e ilustravam a entrevista.
Maurício Valladares – Maracanã, 1980
Maurício Valladares, 45, é para a geração entre 25 e 35 anos, algo como o Carlos Zéfiro da música. Seus programas de rádio, desde o Rockalive da extinta Fluminense até o atual Ronca Ronca da Rádio Imprensa, 102.1MHz, todas as quartas-feiras, das dez à meia-noite, serviram e servem como um verdadeiro catecismo sonoro. Cumprindo a função de DJ evangelista das boas novas, posto meio semdono desde a morte de Big Boy, Mau Val apresentou ao longo dos anos um permanente Radiocurso 2º Grau, que foi de U2 a Sugar Minott e continua hoje, misturando Ataulfo Alves (imortal criador do hit “E o Duque não morreu”) com Goldie.
Mas esse negócio de ser um John Peel vascaíno é apenas uma faceta. Maurício Valladares é, essencialmente, um puta fotógrafo. Ele assinou as fotos de algumas das melhores capas de discos do Brasil. O primeiro da Legião? Dele. Paralamas, inclusive a sensacional capa dos Grãos? Dele. Ed Motta, Picassos Falsos? E por aí vai.
Uma patota d’Ocariocanarede (Marcos Chaves, Raul Mourão e Luis Marcelo Mendes) foi bater um longo papo com Maurício sobre fotografia, burrices radiofônicas e ainda aproveitou para pegar uma seleção de fotos inéditas, com outros personagens e outras paisagens distantes do meio musical.
Maurício Valladares – Ondino Vieira, Montevidéu, 1986
O Carioca: Você se formou em publicidade. Mas chegou a trabalhar em alguma agência, fez estágio, essas coisas?
Valladares: Quando entrei na faculdade eu estava entre jornalismo e publicidade. Na época eu já fotografava e tinha a intenção de fazer alguma coisa relacionada a fotografia mesmo. Hoje eu até me arrependo um pouco, acho que se tivesse feito jornalismo poderia ser melhor para mim. Não sei em quê também. Nunca peguei meu diploma. Tá lá até hoje. Só fui na festa de formatura porque falaram que era obrigado, senão nem ia.
O Carioca: A decisão de fazer publicidade ou jornalismo foi motivada pela fotografia?
Valladares: Não só fotografia, mas pelo lance da comunicação, de se expressar. Eu comecei a fotografar de curtição, era algo ligado à musica, fotografia de show. 99% das minhas fotos são voltadas a pessoas. Eu nunca soube fotografar um vaso, por exemplo.
O Carioca: E que bandas você fotografava na época?
Valladares: De Gilberto Gil a…sei lá. Módulo 1000, Mutantes, fotografava as coisas que rolavam no início dos anos 70.
O Carioca: E fazia na cara de pau mesmo?
Valladares: Era uma coisa que tinha muito antigamente. Hoje é difícil você ir num show e ver um cara fotografando da platéia. Eu olhava aquele monte de gente fotografando e falava: “Caralho, para onde essas fotografias vão”? Tinha os caras dos jornais e tal, mas também um monte de outros caras fotografando, com máquinas legais. Não era fãzinha com máquina Xereta. Vários fotógrafos como Flávio Colker e Milton Montenegro faziam isso.
O Carioca: Essa é a sua formação ou você fez curso?
Valladares: Não, sou autodidata total.
O Carioca: A maioria do material era P&B?
Valladares: Era. E eu mesmo revelava. Sempre tive laboratório em casa.
O Carioca: Hoje em dia as pessoas não fotografam mais por causa do vídeo. O acesso aos caras era através de fotografia. Hoje eles passam direto na TV. O videoclipe meio que matou esse desejo, não é?
Valladares: Eu acho que a ausência de gente registrando show é como a ausência de gente registrando qualquer outra coisa. Antigamente você sempre via gente fotografando na rua.
O Carioca: E em que momento você começou a publicar essas fotos?
Valladares: Em 73 eu fui para Londres. E daí várias fotos minhas sairam em vários lugares, Jornal de Música, aquela revista da Abril, a Som Três…
O Carioca: E quais os shows da safra 73 que você pegou em Londres?
Valladares: Vi Genesis, The Who, porrada de bandas…
O Carioca: O que você curtia mais na época?
Valladares: Essas coisas de rock and roll tipo Humble Pie, meio blue, nunca gostei de rock progresivo. Em 74 eu viajei de novo pra Londres e começei a fotografar e escrever direto pro Jornal de Música. Eu escrevia muito. Todas aquelas biografias Jeff Beck, Traffic, Edgard Winter. A partir dái eu começei a fotografar direto, pra tudo que é jornal, revista…
O Carioca: Grande imprensa também?
Valladares: Também , mas sempre como free-lancer. E aí, em 83 eu fiz a primeira capa para os Paralamas (Cinema Mudo) e começei a fotografar várias capas de discos. Mas continuava fazendo trabalhos para a imprensa. Trabalhei na Revista de Domingo no primeiro ano da sua existência…e por aí vai.
O Carioca: Você já mostrou esses trabalhos numa exposição?
Valladares: Nunca quis fazer exposição. Eu já tive uma exposição fechada no MIS (1978, sob direção de Ana Maria Bahiana) e faltando duas semanas pra inaugurar, o catálogo dançou. Eu não vejo sentido uma exposição de fotografia com gente bebendo, falando e que não tenha aquilo no papel.
O Carioca: E não ser que você queira vender.
Valladares: É, mas eu nunca quis vender minhas fotos. Sou super ciumento.
O Carioca: E fazer um livro?
Valladares: Livro é uma coisa que eu quero fazer. Eu já tive com um livro dos Paralamas pronto para ser impresso e acabou dando para trás.
O Carioca: Aquele negócio que tá no Pólvora é um ensaio de um livro.
Valladares: É quase um livro. Eu sempre tive vontade de fazer um livro. Mas nunca corri atrás. Eu acho que a fotografia tem sentido em livro, impressa.
O Carioca: Desde essa época você fotografa com a mesma câmera, você tem alguma máquina com valor sentimental?
Valladares: Eu nunca fui ligado nessa coisa de máquina. Sempre tive a mesma máquina Pentax. O desenvolvimento tecnológico, correr atrás de modelos novos, isso não me interessa.
O Carioca: Mas é a mesma máquina desde os anos 70?
Valladares: Eu tenho essa que é a minha primeira máquina, que eu uso até hoje. E tenho uma Pentax MX que tinha um motorzinho que eu usei um mês e nunca mais.
Maurício Valladares – Rio de Janeiro, 1976
RADIO DAYS
O Carioca: Como foi a passagem da fotografia para o rádio. Você teve alguma experiência radiofônica antes da Fluminense?
Valladares: Eu sempre curti rádio, mas unca tinha pensado em fazer alguma coisa até a Fluminense, em 82. Lá não tinha ninguém com experiência de rádio além do Luiz Antônio Melo. A equipe eram alguns amigos dele que gostavam de música.
O Carioca: E era tudo na brodagem?
Valladares: Eu nunca ganhei dinheiro. Ganhava a grana da gasolina até Niterói.
O Carioca: A Fluminense foi uma referência essencial pra gente durante muito tempo. Em que momento a coisa começou a ir pro vinagre?
Valladares: Em 85. Enquanto eu, a Liliane Yusim e o Sérgio Vasconcellos, batalhávamos para tocar Plebe Rude, Obina Shock, U2 e Gregory Issacs, o outro lado queria tocar Supertramp, Água Brava, Deep Purple e James Taylor.
O Carioca: Mas no início era assim?
Valladares: Sempre teve. Até que em 85, todas as coisas que a gente ralava pra se tornar populares, já começavam a tocar em outras rádios. O exemplo disso doi o U2. O André Midani foi pra Nova York em 85 e trouxe um disco do U2 ou vídeo, sei lá. E quem fez a promoção foi a Cidade e não a Fluminense. Aí eu falei: “Vem cá gente boa, o que a gente tá fazendo, as outras também estão. A gente precisa fazer uma coisa que as outras venham a fazer daqui a dois anos. Tem que armar um outro caminho”.
O Carioca: A Fluminense era um óasis. As rádios eram muito chatas. E o legal que já tinham uma série de bandas legais rolando lá fora. A foi ela que tocou tudo, Thompson Twins…
Valladares: Isso é uma coisa engraçada. Hoje se você pegar qualquer pessoa no Rio e perguntar: “O que foi a Fluminense?” Ela vai dizer: “Fluminense foi uma rádio do caralho, lançou Paralamas, tocava Gregory Issacs, Lee Perry…Mas não era isso. A Fluminense tocava Supertramp, James Taylor. A excessão se tornou, na história, a imagem da rádio. A Fluminense nunca tocou, por ela, Thompson Twins. Isso era uma briga minha, da Liliane, do Serginho. Outro dia eu ouvi o Barone dizer na MTV: “A Flu era a rádio que tocava Specials”. Tocava entre 500 outras merdas. Aí, em 85, eu disse que a gente precisava de um projeto diferente. E a gente pensou em fazer uma rádio de black music. O caminho era da música negra.
O Carioca: Eu me lembro dessa discussão de que o futuro era negro. O Hermano Vianna levantou essa bola naquele espaço estrelado que rolava no Caderno B de sexta-feira.
Valladares: Então a gente pensou em mudar a programação em 70%. De Aretha Franklin a Fela Kuti e música brasileira. Aí um dia eu vejo o Alex Mariano fazendo o que seria a nova programação: Genesis pra lá, James Taylor pra cá, um Issac Hayes no meio, Água Brava, Sangue da Cidade. Eu disse: “Alex, não estou entendendo. Isso não leva a lugar nenhum”. Ele disse que a programação ia ser aquela, rolou uma pancadaria violenta. Depois, quando eu cheguei pra fazer o meu programa ele disse: “Não vai ter programa não”. Então foda-se. Fui embora. Outras pessoas tentaram fazer algumas coisas legais. Mas a rádio entrou naquele espírito de emburecimento das pessoas…ROCK AND ROLLLLLL…que não leva a lugar nenhum.
O Carioca: Você também conseguiu influenciar as programações das rádios Panorama e Globo durante um certo tempo. Até que ponto a mesmice das rádios é ignorância dos pessoas ou o que rola é grana, máfia?
Valladares: É ignorância mesmo. O rádio carioca está na mão de pessoas, na maioria dos casos, como o futebol. O sonho do Caixa D’Água é fazer uma final de camponato carioca, Flamengo X Vasco, em Volta Redonda às 23 horas de um domingo. Sem ninguém. Essas pessoas que dominam as rádios não ouvem rádio. Como a maioria absoluta das pessoas que trabalham com discos não compra discos. Se juntar 30 executivos do mercado fonográfico e dizer: “Quem entrou numa loja pra comprar um disco nos últimos três meses levanta a mão”, vai ficar todo mundo de mão abaixada. Assim como o CaixaD’água faz um campeonato que não vai ninguém, essa rapaziada faz rádios que ninguém ouve. Digo, uma rádio de informação, não uma prestadora de serviço como as AMs, que são do caralho. O cara que acabou com a Globo FM disse pra mim: “Pô Maurício, você mistura muitas coisas. Toca Nelson Golçalves depois toca uma banda punk da Finlândia, não sei o quê. Quando você toca uma coisa velha, deveria tocar Cris Montez”. Falei, tô fora. Não fode. Um cara desse tá preocupado com a 98 FM e não em fazer uma rádio que a gente quer ouvir.
O Carioca: E a Globo continua em último lugar de audência. Se o cara tá em último e não tem nada a perder, porque não bota logo pra fuder?
Valladares: Porque não sabe botar pra fuder. Ninguém tá preocupado em fazer uma coisa nova.
O Carioca: Mas não faz porque não tem público ou não tem público porque ninguém faz?
Valladares: As pessoas se acomodaram. Muita gente nem sabe se tem rádio em casa. Olha o som e não sabe como ligar a FM. O rádio virou um ser em extinção. Você ouve no carro. E com fita e CD, tão ouvindo cada vez menos. Porque não tem o que ouvir. É tudo uma questão cultural. Eu tava lendo um encarte do disco do Jimi Hendix de gravações da BBC, que conta toda a história dessas gravações históricas, de Beatles a Pink Floyd. A maioria dos artistas quando gravaram na rádio, não tinham disco. Era preocupação da rádio de mostrar uma coisa nova.
Maurício Valladares – Roma, 1981
VOLTANDO A FOTOGRAFIA
O Carioca: Qual o fotógrafo que você pode dizer que te inspira?
Valladares: Quando eu comecei a publicar as pessoas diziam que eu tinha um estilo parecido com dos fotógrafos no New Musical Express. Mas elas não sabiam que eles e eu, somos influenciados por outras pessoas como Eugene Smith. Ele era um cara da revista Life, que fazia aqueles ensaios fotográficos dos anos 40, 50. Ele é o minha maior influência.
O Carioca: E você acompanha a produção de fotografia hoje, você compra livros?
Valladares: De vez em quando. Na época quando a fotografia era a coisa mais importante que eu tinha, eu comprei todos os livros que queria comprar. Durante muitos anos isso foi uma obsessão. Uma vez eu fui na seção de fotografia do Museu Victoria Albert, onde eles tem originais de vários fotógrafos. Aí você marca hora, bota uma luva…e eu quase gozei quando peguei numa foto do Paul Strand na minha frente. A maior emoção que eu já tive.
O Carioca: Você disse “quando a fotografia era a coisa mais importante”. Não é mais desde quando?
Valladares: Não, ela é muito importante. Mas é aquele negócio. Eu comi, comi, comi e estou satisfeito.
O Carioca: Mas você parou de fotografar?
Valladares: Não, até que eu tenho fotografado bastante. Eu comprei uma maquininha pequena que me satisfaz. Eu não aguento mais carregar máquina, andar com aquele trambolho na mão.
O Carioca: Você é capaz de parar de fotografar ou você sente necessidade?
Valladares: Eu sinto necessidade. Eu sempre estou olhando as coisas com olhar de fotografia.
Maurício Valladares – Ipanema, 1982