Costa a Costa

Hermano é meu mestre. Junto com ele estão também Mauricio Valladares, Roberto Berliner, Chacal e Vergara. Ele não sabe disso. Eles também não. Sou péssimo aluno. Catei esse texto lá no Overmundo. Vou ouvir agora.

Ceará. O ano é 2007. Agora. O grupo de hip hop Costa a Costa acaba de lançar sua mixtape, disponível em CD. É – não tenho nenhuma dúvida – um dos documentos mais contundentes, impressionantes e acachapantes sobre a realidade brasileira contemporânea (como se ler jornal não fosse suficiente…) É um Sobrevivendo no Inferno traduzido para o Século XXI – e é preciso constatar: o inferno piorou muito. Lá na faixa 21 (são 23 no total), um dos vários interlúdios do disco, o rapper anuncia: “a prefeita diz que eu tô na cidade do sol.” Uma voz totalmente debochada comenta: “quem tem boca diz o que quer…” Volta o rapper: “a PM diz que eu tô na cidade do pó.” O deboche: “fala o que pode…” O rapper novamente: “os gringo diz que eu tô na cidade do sexo”. A resposta é uma gargalhada. “Eu não queria nada disso.” Resposta: “mas é o que é.” “Eu só queria fazer disso aqui a cidade da grana / Seja bem-vindo / Fortaleza, tá ligado? / Isso aqui é dinheiro, sexo, drogas e violência.”

Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência – esse é o título da mixtape. O título é repetido dezenas e dezenas de vezes durante os 79 minutos e 57 segundos do CD. Parece um mantra do mal. Dá um incômodo danado ouvi-lo, o tempo todo, sem que ao mesmo tempo surja a voz da razão para repetir também: não queremos nada disso (ou o que seria melhor: apontando a solução para tudo isso). O início do disco chega a ser ainda mais infernal. Uma voz sintetizada e desacelerada (parece estilo “screwed and chopped” do rap de Houston, Texas) dialoga com um pobre mortal, um guerreiro. A voz: “eles estão caçando você / eles estão fugindo da luta.” Resposta: “vou derrubar esses filha da puta.” A voz: “eles querem que você entre no jogo deles / não entra! / lembra de onde você vem / cê tá na rua / qual a idéia que rola?” Resposta, como não podia deixar de ser: “Dinheiro, sexo, drogas e violência em qualquer lugar.” Voz: “eles estão dizendo que você está errado / fala pra eles o que é o bagulho.” Voz repete, martelando, para ficar bem claro: “Isso aqui é dinheiro, sexo, drogas e violência de Costa a Costa!” Então alguém grita bem alto: mixtape! E começa uma mistura poderosa e violenta de hip hop (estilo bounce de Nova Orleans, ou crunk de Atlanta/Memphis) com brega (Sidney Magal!), salsa, Perez Prado, carimbó e reggaeton, quase tudo muito dançante mas sem perder o ar soturno jamais.

A produção – acho que assinada pelo grupo todo (não consegui ter acesso à ficha técnica – mas sei que as músicas, com as interferências de barulho bom da mixtape, ficaram bem mais interessantes que quando sairam nos outros CDs) – é uma das mais criativas da atual safra musical brasileira, em qualquer estilo. E é também uma injeção de energia/ousadia na sonoridade do hip hop nacional. A mixtape não segue nenhuma regra, não copia Dr. Dre ou Timbaland, não tenta soar como um CD qualquer da família Wu-Tang. Fazia falta ouvir algo assim – tão surpreendente – por aqui. Não somente aqui: lá também. Sempre achei que as experiências sonoras do rap eram tão radicais politicamente como o seu discurso poético. Mas lá no início dos anos 90 perdi um pouco o interesse nos novos lançamentos, pois tudo me parecia seguir uma fórmula já testada inúmeras vezes, sem risco nenhum a não ser o de virar o primeiro lugar nas paradas americanas.

Coincidência: a mixtape do Costa a Costa bateu no meu CD-player no mesmo momento em que estou lendo um livro sensacional, obrigatório para quem se interessa por hip hop (tomara que algum dia ganhe uma tradução brasileira). Chama-se Third Coast – Outkast, Timbaland & How Hip-Hop Became A Southern Thing, e foi escrito por Roni Sarig. Comprei de olho num capítulo sobre o Miami Bass, pois há pouquíssima coisa séria escrita sobre essa música que é a mãe do funk carioca. Aprendi muito lendo a história de como o subgrave conquistou a Flórida. Não percebia direito como, nos anos 80, os bailes do Rio eram totalmente atualizados com as novidades de Miami: o disco saía lá e já era sucesso aqui. Mesmo o Two Live Crew (que no Rio deu até na Melô da Mulher Feia) ficou famoso aqui antes de ser popular por lá.

Gostei tanto do estilo desse capítulo que passei a ler os outros, que mostram como o hip hop atual está dominado por cidades do sul dos Estados Unidos e não por Nova York ou Los Angeles. Os números são avassaladores: em 2006, entre um terço e metade de todas as canções que entraram para a parada Hot 100 da revista Billboard (a parada mais importante dos EUA) é de bandas do hip hop sulista. Não sabia nada disso. Não conhecia também a história do rap de Atlanta, Memphis, Nova Orleans e Houston, as principais cidades produtoras dos novos gêneros pós-gangsta. Fui escutar/ver tudo (ainda bem que existe o YouTube) e me arrependi do tempo que perdi achando que nada de interessante estava acontecendo naquele mundo.

Mas fiquei mais surpreso de ver outra triste história se repetindo em todas as cidades. Grande parte dos mais criativos músicos dos vários lugares, alguns muito famosos e milionários, morreu de forma violenta, geralmente vítima de tiros. Realmente é dinheiro, sexo, drogas e violência em todos os guetos. A crônica cruel de uma juventude que teve vários de seus ídolos exterminados por uma guerra urbana/social absolutamente sanguinária. Parece o Uivo, do Allen Ginsberg, só que encenado por quem estava “do outro lado”. Alguém se lembra como o poema começa? “Vi os expoentes da minha geração da minha geração destruídos pela loucura”. Mas logo no segundo verso aparecem “as ruas do bairro negro” onde esses expoentes iam buscar a “dose violenta”. Agora a destruição acontece “nas ruas dos bairro negro”, entre os expoentes negros, e “ninguém” ouve falar de suas mortes… Apesar dos milhares de uivos, altíssimos, em todos os raps…

Mas estou me perdendo na geografia? Parece que estou muito longe de Fortaleza… Na verdade tudo é tão perto… Fortaleza é a Houston brasileira, misturada com a latinidade de Miami/Nova Orleans? Para o Costa a Costa, o Nordeste é “o gueto do gueto”. O discurso moldado nas periferias paulistanas (mesmo todas as gírias, as centenas de “tá ligado” ou o firmão etc. etc.) chega por lá e passa a ter um outro sotaque, ganhando um outro sentido, onde a luta contra a miséria é muito mais barra pesada. Qual o sentido do 100% negro em Fortaleza? É possível falar de um 100% nordestino? Em cotas para os nordestinos? E os nordestinos ricos, o que fazer com eles, entram para as cotas também?… Tudo se complica: há a tentativa de transplantar para o Ceará a visão do mundo criada no Capão Redondo, mas problemas vão escapando por todos os lados, e novas possibilidades aparecem: “Ninguém lembrou do Nordeste na fita, e eu tô aqui” (versos de No Melhor Lugar). “Você vem do Nordeste? / Você tem a força que eles nunca vão ter / não espera por ninguém / quem é pra tá aqui, já tá” (Interlúdio Do Gueto Pro Gueto). Tô aqui para dizer o quê? Força pra quê? Apenas para constatar o fim de tudo?

A capa da mixtape explica: “faixas extraídas da vida real dunego de 11/2006 a 04/2007”. Realmente: tudo é reportagem da vida cotidiana de quem foi criado no gueto do gueto, e tem que dar um jeito, qualquer jeito, para sobreviver a cada dia. O personagem principal da maioria das letras é o “caçador de grana rápida”, desesperado atrás de onças (notas de 50 reais), o bandido armado, o jovem cheio de energia que sonha em ter imediatamente, nem que seja por um tempo brevíssimo, o que lhe é vendido como o bom da vida. Quase todas as letras são escritas do ponto de vista desse personagem, retrato/relato do pensamento confuso (como não seria?) desse personagem. É “stream of consciousness” de quem não teve escola boa e vive em favela de nova grande cidade nordestina, em época da tal metástase: “eu também sonho com a Revolução / mas hoje eu tenho a cobrança, meu irmão” (Não é Fácil). Ou: “às vezes eu penso em parar com esse bagulho / às vezes eu penso em virar o Escobar desse bagulho” (Não é Fácil). Ou: “eu não quero cozinhar crack, primo / mas eu quero andar de Nike, no style / mas eu quero as gata / eu quero as nêga com várias das de dez / quem não quer?” (Necessário)

O que resta é fatalidade, mas fatalidade descontrolada (se isso é possível…) Tá tudo dominado, tudo interligado, e todo mundo é culpado; ninguém escapa. O panorama desenhado pelo conjunto das letras é sufocante, dá vontade de sair correndo, mas correr para onde? “Isso não tem a ver com o que você ama / tem a ver com o que não se tem quando não se tem grana” (Necessário). Mas se você não tem grana, alguém tem: “qualquer lugar tem lugares pior / no melhor lugar, só vai ter lugar pro melhor” (No Melhor Lugar). E é óbvio: o melhor só existe porque também existe o pior e vice-versa. O rap de Necessário fala do traficante de armas, que vende as armas para quem depois vai matar seus parentes. O negócio é todo “efeito dominó”, uma cadeia de problemas: “a solução do seu problema vira um problema para alguém e assim vai” ou “todo dia tem alguém arrumando um problema que vai virar um problema para mim” (O Mundo é Nosso).

O ouvinte pode pensar: “não quero escutar isso, isso é apenas a glorificação da falta de possibilidade de transformação: acaba na justificação complacente da bandidagem.” A intenção do Costa a Costa parece ser fazer denúncia: esfregar na cara de todo mundo: olha a que ponto chegamos. O rap quer repetir o tempo todo: para mudar é preciso levar tudo isso em consideração, é preciso encarar de frente o emaranhado de problemas brutais, sem ilusões, sem dourar nenhuma pílula. Essa estratégia é eficiente? Pode mudar alguma coisa? Ou apenas sucumbe na indignação pela indignação? As letras são contraditórias com relação a essa e muitas outras questões (uma hora diz “não entre no jogo deles!” para no verso seguinte constatar que não há outro jogo…) Segundo o personagem que fala na maioria das letras, não dá para julgar ninguém. Ele nunca ouviu falar em ética, nunca sentiu o cheiro de atitude ética.

A maneira como percebe a realidade é através do pior, do muito pior: todos contra todos, no estilo pesadelo de Thomas Hobbes: “o que fazer, quando seu irmão quer fuder você / quando o mundão quer fuder você / quando ninguém acredita mais em ninguém” (Justificativa). Boa Noite Cinderela é a narrativa da estratégia de uma prostituta cearense para roubar um gringo: “ela é do gueto, mas mexe bem / o que tem de errado? / ela usa o que tem / ela gosta quando rola os dólar / ela gosta de coisa boa”. Aqui tudo fica ainda mais explícito, didático: “a gente não é só crime e futebol / a gente quer as jóia e o brilho do sol / eu não tô falando nada complexo / eu sou jovem e quero grana e sexo / eu tô errado, nêga? / eu sou sincero, nêga / eu sei a regra do jogo / não sou otário, nêga / no meio da guerra, o nêgo tira uma onda / é selva, mas tudo pelas onça / mesmo lutando e com o mundo inteiro contra / a gente vai pegando uma grana / eu ainda não tenho o carro da propaganda / mas eu saio com a gata da escola de samba” (Ela Mexe). E quem, no meio de tanto escândalo e corrupção, vai dizer que a regra do jogo da maioria não é essa mesmo? Se colocado contra a parede, o rap teria a resposta pronta: “os filha da puta quer julgar você toda hora / eles dizem que não tem justificativa / mas eles têm justificativa pros crimes dele, né?” E acrescenta, filosófico, irônico, deixando o interlocutor com cara de tacho: “eu não tô dizendo que tá certo ou tá errado / quem sou eu? / eu tenho mais perguntas que respostas ” (Justificativa)

São tantos trechos de letras para comentar, que fico submerso aqui nas minhas anotações. Como já disse: sobre cada tema, há muitos exemplos, vários contraditórios entre si. O início de Ela Mexe também precisa ser citado: “enchendo de dióxido, de veneno / é o novo milênio / aproveita o fim do oxigênio / tá pra acabar essa porra / mas até acabar, quero tá vivendo legal”. É assim mesmo: “a vida é puta, mas hoje tá bom / só quero paz e uma grana no banco”. Porque, o tempo todo, tudo pode ficar pior: “talvez eu esteja na cela amanhã” (Não é Fácil).

O que mais chama a atenção na seqüência das músicas é a briga entre o niilismo dominante das letras e a festa sonora do acompanhamento. Ela Mexe, por exemplo, é uma inebriante fusão de carimbó com reggaeton. Mesmo com timbres sinistros, é fácil dançar. E não é só um clima de baile na Ilha Fiscal. Há uma opção afirmativa na programação rítmica. Há também, por parte da banda, a convicção de que o hip hop – mantendo a sua integridade – tem que se tornar uma indústria musical tão poderosa quanto o novo forró (Regina Casé aparece na mixtape em trecho sampleado da entrevista com o Costa a Costa no Central da Periferia que fala justamente isso). E além disso, há aquela espantosa alegria de estar vivo, que pode ser encontrada em todos os guetos, nas situações mais miseráveis. Então no meio de tudo, aparece uma letra como Vive Agora… É um manual de auto-ajuda do gueto, uma mistura dos conselhos mais disparatados (o “bem” lado a lado com o “mal”), de maneira febril e frenética. Alguns trechos, selecionados ao acaso (pois a letra é quilométrica):

tá na merda, luta
tem um pivete, ama
tem champanhe, beba
tá no jogo, joga
quer ser alguém, estuda
tá sem nenhum, rouba
tá com a bola, chuta
ela é gostosa, chupa
o som é bom, aumenta
quer saber qual é, se envolve
tem problema, resolve
se tem um amor, assume
se decepcionou, dispensa
cê quer um amor, procura
cê tem um valor, lembra
te deixou, esquece
se Deus levou, benze
se o coração não parou, então bola pra frente
cê tá perdendo, vira
cê ainda acredita, insista
cê tá crescendo, brilha
cê curte a vida, vive
cê tá atrasado, corra
tá tudo errado, mova-se
cê foi sincero mas não te levaram a sério, foda-se

Julgar? Há coisas ditas neste disco que vão no caminho totalmente oposto daquilo que acredito e valorizo. Mas reconheço o desespero (mesmo com o estilo foda-se) e o desamparo (junto àquilo que movimentos sociais globalizados chamam de empowerment…) com os quais são ditas. Entendo também que não representam a visão de mundo do compositor: são descrições daquilo que ele vê o tempo todo, no seu dia a dia, daquilo que ele ouve muita gente falar. E mesmo assim: as músicas nem foram feitas para mim, que sou de fora: “eu faço a rima que o gueto precisa ouvir” (No Melhor Lugar). Eu não estou no gueto. (Essa é uma outra novidade na música popular brasileira: agora há uma música que, intencionalmente, não é feita para toda a “nação”…) Mas não posso deixar de perceber que neste disco (nunca houve disco assim… até bem pouco tempo, a regra do jogo dizia que pessoas como as que formam o Costa a Costa não tinham direito de falar nada, quanto mais lançar um disco… como diz o rap de Mel e Dendê Remix: “uns nasce pra fazer regra / e nós nasce pra quebrar”) está a mais cruel descrição de nosso impasse coletivo atual, meio tudo o que a gente não queria que fosse, mas tem que reconhecer que é, e que só com uma luta enorme vai mudar (eu não perco meu otimismo – e para saber o que me deixa otimista, basta ler muitos de meus outros textos aqui no Overmundo). Indignado com esse mundo, eu? Claro. Mas sou também como rapper do Costa a Costa neste verso: “tenho mais perguntas que respostas”. Depois desta mixtape, minhas perguntas ficaram bem mais longe das respostas. Sou só perplexidade.

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1 comment
  1. Luis said: