FC/RIO #4 – Um labirinto em cada pé

Nosso correspondente local Frederico Coelho está revoltado porque perdeu o show da Sharon Jones na última terça e também porque não consegue publicar coisa nenhuma no seu velho blogspot. Daí que o homem resolveu mandar esse texto sobre o disco novo do Rômulo aqui pro nosso b®og. (Na barra lateral direita do b®og tem uma apresentação do Fred pra quem ainda não conhece a figura)



Folha de São Paulo: Caminhando para o fim da primeira década do século 21, já é possível identificar um traço comum entre os artistas surgidos na música brasileira a partir dos anos 2000?

Romulo Froes: É uma geração de artistas-operários, surgida em plena derrocada das grandes gravadoras e que, alijada da indústria, se viu obrigada a dar conta de todo o processo de construção de uma obra musical. Esse abandono, aliado ao avanço e ao acesso facilitado à tecnologia, constituiu uma geração especialmente ligada ao processo de gravação. O “som” produzido por ela, talvez até mais que suas canções, é o que a destaca em relação às demais. E, uma década mais tarde, milhares de discos produzidos depois, não é difícil imaginar o grau de excelência técnica a que se chegou. Pois agora, de posse de sua obra e de sua carreira, é chegada a hora dessa geração conquistar uma voz mais forte, que diga a que veio e que rompa a barreira do anonimato imposta à ela.
Em sua recente e excelente entrevista para a Folha de São Paulo, Romulo Fróes expôs alguns dos argumentos mais contundentes sobre a música brasileira contemporânea. Instado pelo jornalista a dar conta de uma grande narrativa crítica sobre sua geração de músicos (a minha geração, a geração dos nascidos entre 1968 e 1980), Romulo não foge da raia, responde perguntas capciosas, enfrenta a necessidade frenética de recorte, de marca coletiva, de sentido em comum dentre as dezenas de bandas, vozes e músicas que surgiram nos útlimos dez anos.
Romulo, porém, em um momento chave da entrevista, reivindica ao jornalista algo inusitado para os dias de hoje. Algo que se não fosse dito por ele, passaria em brancas nuvens na conversa e em todas as outras conversas. Algo que passa ao largo até mesmo dos textos acadêmicos recentes, das brilhantes reflexões em blogs ou matérias de revistas de cultura. Algo que, cada vez mais, fica em segundo plano quando discutimos música ou cultura em geral no Brasil. Romulo pede que os que escrevem sobre a “nova música brasileira”, ouçam e falem SOBRE A MÚSICA.
Qual é o maior equívoco que a imprensa em geral comete em relação aos artistas pós-queda da indústria?

O principal equívoco é não falar de música. Entendo que o jornalismo esteja passando por uma crise muito semelhante à nossa, com o iminente fim de formatos estabelecidos e com as novas formas de apreensão ao nosso trabalho. Mas penso que seria muito mais rico, para todo mundo, se tentássemos entender este momento em que vivemos, através da produção autoral. Minha geração foi afastada do conceito de autoria. É entendida como um todo, sem se singularizar –e este é um erro não só do jornalismo, mas do ouvinte em geral. Não somos parecidos, somos muito diversos. Mas insistem em nos ligar e isso se dá menos por um pensamento crítico, mas muito mais por uma análise, quase sociológica. Eu, por exemplo, sou muito mais reconhecido pelo que penso, pelo que falo em entrevistas, que por meus discos. Não que não me interesse pela discussão –muito pelo contrário. Mas ficaria muito mais satisfeito se ela surgisse estimulada por minhas canções e não por minha fala. Acredite: tudo o que digo está incorporado à minha canção e construído ao longo dos meus quatro discos. Mas, nesse tempo de agora, parece não mais haver espaço para a fruição estética.
Romulo aqui vai direto ao ponto: nossa geração foi engolida pela rasura do papel do autor. Pela pressão em não sermos mais autores capazes, autores que atingem níveis de qualidade dos autores de outrora. Por isso não somos individualidades criativas, mas somos impelidos ao afã modernista de formarmos de alguma forma “um movimento”, uma “tendência”. E nesse esforço de unir as pontas soltas, criam-se perspectivas artificiais de convergências. O fato de Curumim participar de um disco de Romulo ou do Arnaldo Antunes não quer dizer que eles fazem parte de um movimento, mas, como diria Rogério Duarte, eles são parte de um momento. Um momento que, como mostra Romulo em suas palavras e seu som, está inserido em um movimento amplo da cultura brasileira, que incorpora a precariedade profissional do mercado fonográfico com a expansão acelerada dos recursos de registro, produção e distribuição da mercadoria música. Romulo está na rede, liberou seu disco para Download e venderá o disco físico também. Veicula informações para uma ampla comunidade de consumidores/parceiros de seu trabalho.
A geração não carece de potencial mercadológico? Não estamos criando um pensamento de “como eu não preciso de dinheiro de gravadora pra fazer disco, posso fazer o que eu quiser; se posso fazer o que eu quiser, não preciso agradar a ninguém”?

Não é verdade. Essa geração, como qualquer outra, tem artistas que fazem canções pop, mais intelectuais, mais experimentais, populares, cafonas, ingênuas, desencanadas, engajadas: tudo igual a qualquer época. O perverso é que estejam todos no mesmo patamar, sem que se distinga os graus de popularidade através de sua própria música. Estamos todos no mesmo barco, atravessando os mesmos mares revoltos.
O fato de estarmos todos no mesmo barco, de muitos músicos no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte, em Cuiabá, Em Porto Alegre, em Belém do Pará estarem trabalhando de forma colaborativa não quer dizer que sejam coletivos ou pessoas esteticamente vinculadas umas as outras. Não se configura aqui necessariamente um compromisso estético coletivo como foi o Cinema Novo ou o Neoconcreto. São amigos, músicos que se conhecem a partir dos seus trabalhos, festivais, shows, espaços em comum de atuação (Como o Studio SP ou o circuito de SESCs em São Paulo ou o que o Solar de Botafogo começou a fazer recentemente no Rio de Janeiro). Há uma necessidade, e eis a importância do alerta de Romulo, em se falar mais dessa suposta convergência geracional do que da capacidade criativa dos músicos e compositores. Não se discute os discos do ponto de vista musical. A discussão principal é sempre guiada pelo ponto de vista “social” ou sociológico, como preferir.
Sua geração tem medo do sucesso, é isso? Ela precisa se “desproteger”?

A questão não é ter medo do sucesso, a questão é não querer demais o sucesso. Porque o sucesso como o conhecemos –da mitificação, do artista que entende e traduz uma nação– talvez não se realize mais. O nó dessa geração é que ela não precisa dialogar com o sucesso para produzir sua obra, talvez por isso mesmo nunca o alcance.
E o disco de Romulo? Um Labirinto em cada pé é um disco fundamental. Para entender o que Romulo diz, devemos ouvir sua música. É aí que reside sua grande reivindicação. Romulo, através das letras de Nuno Ramos e Clima, através do som de sua banda, incorporando o cavaco de Rodrigo Campos, transformando suas músicas em um equilíbrio das duas frentes exploradas no disco anterior, No chão, sem chão, de 2009. O samba impera não como espaço de reverência, mas como trampolim para vôos amplos sobre a base clássica de percussão e cavaco, como na redonda “Rap em latim”, cantada por um malemolente Arnaldo Antunes e seu final elegante. A bateria também cumpre seu papel de trio de bossa jazz enquanto guitarras cruzam os céus dos espaços sonoros de cada arranjo. Há canções secas, sem refrão, há canções que abrem e brilham quando crescem em seus refrões, sentimos um eco de afrobeats, um certo ar da cozinha dos Hermanos (a bateria de Barba, principalmente, que é marcante na música pop brasileira da última década ao lado de bateria de Pupilo e Domenico) em “Boneco de Piche”,  música que casa com “Jardineira”, outra que aponta para a aposta em uma filosofia sombria e, paradoxalmente, solar do samba.
As letras de Nuno Ramos e Clima são cravadas de Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho e Campos de Carvalho, de absurdos que são enunciados na mosca por Francisco Bosco em seu texto de apresentação do disco no blog de lançamento. Letras que não falam com ninguém, que narram personagens impessoais, errantes entre objetos e sensações, cristos redivivos, entre marchas carnavalescas que falam de morte, de fumaça, de pedra e sol, de cus de urubus, de sexos confusos, fomes, caminhadas, de muros, de mares, de madrugadas, silêncios, cassinos da Urca e arcos da lapa. Quem leu os livros de Nuno Ramos sente-se confortável (se é que podemos usar essa palavra neste caso) com a opacidade e a ausência de referências explícitas ou histórias definidas nas letras do disco. Um mundo caótico, gorduroso e assim mesmo, leve, cômico, que sabe rir de sua própria tragédia.
Romulo faz rock em 2011, no Brasil. Ponto. Seu rock está defendido em sua guitarra e no seu baixo, em sua bateria e na sua voz. Mas tudo isso é profundamente mergulhado na sua ideia de cultura brasileira, na sua percepção de que o samba não é um gênero ou um arquivo, mas sim um espaço criativo que todos nós podemos entrar e reorganizar no âmbito da música pop. O samba que foi feito pelos Mutantes, por Sérgio Sampaio, pelos Novos Baianos, por Jards Macalé, Itamar Assumpção, Luiz Melodia, Pelo + 2, por Caetano Veloso nos seus dois últimos discos, o samba de Jorge Ben em “As rosas eram todas amarelas”e “Charles Jr.”, o samba transtornado de Curumim, da Nação Zumbi, de Ronei Jorge, de Lucas Santanna, o samba que atravessa todo compositor brasileiro que se interessa pela informação e a história da música brasileira.
A música que pode definir isso é “Cilada”, uma espécie de maracatu, com sua bateria solta e sua marcação marcial, seu violão de cantador e sua guitarra climática, desenhando distorções. Eis que quando nos encontramos tranqüilos, indo em um belo e longo passeio nostálgico do cassino da Urca ao Cacique de Ramos, uma mulher surge, lambe a voz que canta,ela  lembra, ela diz ah sei lá, e aos poucos leva o ritmo da música em uma espiral crescente de distorção/tensão, somada a uma voz feminina que não alivia, mas sim precipita o fim fantasmagórico da canção que inicia singela e termina sinistra.
Um labirinto em cada pé é um disco que apresenta sem firulas o que o seu autor nos diz na entrevista: é preciso ouvir a música que está sendo feita hoje, sem filtros geracionais, sem buscas de consensos ou ligações com as modas. Romulo Fróes é um dos principais músicos brasileiros de hoje e um dos seus principais pensadores. Para além de cenas. Para além de matérias que precisem de pautas. Um músico que se impõe cada vez mais pelos seus discos e pela sua capacidade de traduzir em sua sonoridade os nossos tempos luminosos e trágicos.
O que é preciso para que essa sensação de “fase de transição” termine? Que a indústria, o que quer que ela venha a ser, encontre seu caminho? Ou é uma questão existencial dos artistas?

Tempo, é preciso tempo, mas parece que não o teremos mais.
Frederico Coelho, junho 2011

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