Cabelo + Mc Fininho n’A Gentil Carioca
Conheci Cabelo nas oficinas de desenho da Escola de Artes Visuais do Parque Lage em 1988 e ele já tinha naquela ocasião uma atuação múltipla, participando de saraus de poesia, ensaios de bandas de rock e outras experimentações. De lá pra cá participamos de exposições coletivas no Paço Imperial (Novos Noventa em 1994 e Os 90 em 1999), na Mostra Paralela 2010: A Contemplação do Mundo – Liceu de Artes e Ofícios, São Paulo entre outras. A exposição Cabelo apresenta Mc Fininho e Dj Barbante no Baile Funk (Gentil) Carioca que assino a curadoria é nossa primeira parceria pra valer. Mc Fininho é um personagem fictício para dar voz a persona musical de Cabelo que está muito presente na vida cotidiana dele e que é desconhecida do público que acompanha apenas sua produção visual. O texto abaixo estará no catálogo da exposição junto com outros de Frederico Coelho, Felipe Scovino e Silvio Essinger. A exposição inaugura no próximo sábado com um baile-show celebrando o Funk Carioca, a programação é a seguinte:
17h Dj Artur Miró
17h Dj Artur Miró
18h Dj Saens Peña
19h Show com Mc Fininho e convidados
20h Dj Alex MPC
21h Dj Nado Leal
É tudo mentira – Raul Mourão, maio de 2011
É tudo invenção da cabeça de Cabelo. Mc Fininho não existe na vida real, é um personagem fictício, funkeiro ancestral, animador de bailes, pesquisador musical, antropólogo das biroscas, repórter das vielas e florestas e compositor de funks. DJ Barbante, seu parceiro, assistente e responsável pelas bases musicais, não existe também. É um personagem coringa que esconde os inúmeros parceiros. É tudo ficção. Cabelo saiu de sua cabeça e deixou entrar Fininho, que depois tomou conta de seu corpo também. Pessoas diferentes habitando a mesma mente. Troca de personalidades, caboclos, entidades, espíritos do além, forças do bem.
Na verdade a ideia da exposição funk-carioca de Mc Fininho e DJ Barbante n’A Gentil começou no Cabidinho, bar 24hs que não fecha não na esquina da Mena com a Paulo Barreto. Era um grupo grande e animado ocupando algumas mesas depois da exposição do Afonso Tostes na Lurixs, Cabelo me contou que tinha uma data marcada na Gentil e que queria injetar música na exposição. Partimos para a Lapa com Dado Amaral no carro para uma apresentação-relâmpago do saudoso grupo Boato. No bar Arco Íris Cabelo retomou a conversa sobre a exposição na Gentil e sugeri que ele incorporasse Mc Fininho ao repertório. Cabelo respondeu enfático: “Vamô fazê” _ e no dia seguinte esquecemos do assunto. 2 dias depois a ideia da exposição de Mc Fininho e DJ Barbante me voltou com força, liguei e convoquei Cabelo para debatermos o assunto. Nos encontramos no ateliê dele na Souza Lima na segunda dia 2 de maio e também na terça.
Matutamos e matutamos e ficou decidido que Frederico Coelho escreveria a biografia não autorizada, Felipe Scovino um texto crítico e Silvio Essinger faria uma palestra com trilha sonora sobre a breve história do funk carioca e nos deixaria também um texto. 11 parceiros seriam convocados a compor funks a partir de letras do Mc Fininho. Uma exposição com as coisas, sons e pensamentos de Fininho ocuparia a Gentil dividindo o espaço em 2 ambientes: a Caxanga de Fininho (lar/morada/dormitório/sala de estar) e o Estúdio Área de Lazer (onde o Mc grava suas músicas, recebe amigos e organiza pequenas festas). Na inauguração da exposição um grande baile/show em homenagem ao funk carioca na rua em frente à Gentil. Farra e festa. E provocação e nonsense. No final da terça, 3 de maio, começou um jogo novo e aberto, com poucas regras e muito improviso.
Os dias se passaram com o relógio em contagem regressiva atazanando nossa rotina. Um pavio curto e aceso com uma bomba no final. 11 funks produzidos em 1 semana no estúdio Jaula do Vampiro, do Rafael Rocha, no Monouaural, do Kassin e do Berna, e no computador de cada parceiro. As músicas chegaram por email. Versões, letras, correções. Imagens, vozes, Aninha Tsunami, compassos e descompassos, BPMs por telefone, arquivos wav, microfones, reverbs, dubs e cachaça. O funk ganhou vida e forma. Virou real num território de fantasia pura. Depois chegou a hora das pinturas, desenhos, objetos e fotografias. Mete tudo na kombi e parte pra Gentil. Uma parede vermelha e outra preta, um desenho luminoso aparece na última hora, uma televisão toca funk (Telefunk-en?), máquina de fumaça, cartaz lambe-lambe, fotografias da Dani Dacorso, o vídeo documentário “Favela on Blast”, do Leandro HBL, e o “Cante um funk para um filme”, do Emílio Domingos e Marcus Faustini.
Sempre enxerguei fúria, raiva e violência na obra do Cabelo. Agora vejo também graça, humor, festa e farra, e também raiva e fúria como sempre. Divirtam-se com a exposição de Cabelo/Fininho. Celebração da vida, do afeto pelos amigos, da alegria e contra a arte pobre, chata e medíocre que assola e emburrece nosso tempo.
PS: Fininho manda avisar que o bagulho está só começando. Ano que vem vai rolar o primeiro Festival Fininho de Funk Carioca, a TV Fininho transmitindo 24hs de funk, disco na praça, músicas no rádio, shows pela cidade e os produtos de cama, mesa e banho…