{"id":99,"date":"2008-09-25T15:35:00","date_gmt":"2008-09-25T15:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=99"},"modified":"2008-09-25T15:35:00","modified_gmt":"2008-09-25T15:35:00","slug":"as-indignacoes-de-philip-roth","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=99","title":{"rendered":"As indigna\u00e7\u00f5es de Philip Roth"},"content":{"rendered":"<p><a onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\" href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SNu18QK8GNI\/AAAAAAAABJo\/bilIF0Yajw4\/s1600-h\/indignation_philip_roth.jpg\"><img style=\"cursor:pointer; cursor:hand;\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SNu18QK8GNI\/AAAAAAAABJo\/bilIF0Yajw4\/s400\/indignation_philip_roth.jpg\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5249989837368072402\" \/><\/a><br \/>Esse texto ai do <a href=\"As indigna\u00e7\u00f5es de Philip Roth \">Jo\u00e3o Pereira Coutinho<\/a> saiu ontem na Ilustrada.<\/p>\n<p>NOVA YORK &#8211; Voc\u00eas querem saber qual a minha id\u00e9ia de inferno? Leiam as &#8220;Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas&#8221;. O inferno \u00e9 uma eternidade de mem\u00f3ria: n\u00f3s, do outro lado da margem, condenados a recordar, e a recordar, e a recordar. Uma sess\u00e3o de psican\u00e1lise sem fim, onde n\u00e3o existe catarse poss\u00edvel. Apenas a obriga\u00e7\u00e3o c\u00ednica de revisitar o que fizemos e fomos.<\/p>\n<p>Eis o tema do \u00faltimo livro de Philip Roth, que acaba de sair por estas bandas e foi lido de um f\u00f4lego s\u00f3.<\/p>\n<p>Philip Roth leu Machado? Mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Mas o seu Marcus Messner, personagem principal de <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Indignation-Philip-Roth\/dp\/054705484X\">&#8220;Indignation&#8221;<\/a> (indigna\u00e7\u00e3o) (Houghton Mifflin, 233 p\u00e1gs.), relembra Br\u00e1s Cubas pelo motivo mais simples: tamb\u00e9m Marcus relata a vida que teve depois de a vida cessar -ou, pelo menos, sob a influ\u00eancia da morfina terminal. E que vida \u00e9 essa?<\/p>\n<p>Marcus \u00e9 um jovem em idade universit\u00e1ria. Vive em Newark, cidade natal de Roth. O pai \u00e9 a\u00e7ougueiro e judeu, e a\u00e7ougueiro judeu no sentido mais ritual da palavra, ou seja, preparando carne kosher para a comunidade. Marcus cresceu com o cheiro de sangue. Mas cresceu tamb\u00e9m com a vontade libertadora de deixar esse cheiro para tr\u00e1s e, pela primeira vez na hist\u00f3ria da fam\u00edlia, conseguir um diploma universit\u00e1rio, evitando assim marchar para a Guerra da Cor\u00e9ia.<\/p>\n<p>Dito e feito: o rapaz come\u00e7a os seus estudos em Newark, em pequena universidade &#8220;liberal&#8221;. Mas o pai, uma esp\u00e9cie de Cassandra judia, come\u00e7a a desenvolver uma particular paran\u00f3ia com a seguran\u00e7a do filho.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 amea\u00e7a. Tudo \u00e9 perigo. Os menores erros podem precipitar conclus\u00f5es fatais, como \u00e9 pr\u00f3prio na l\u00f3gica da trag\u00e9dia. E, nas profecias do pai, o filho pode acabar morto a qualquer momento. Por culpa dele.<\/p>\n<p>Por culpa dos outros. Por culpa de algo. Por culpa de algu\u00e9m.<br \/>Essa vis\u00e3o doentia e pessimista, que come\u00e7a a ganhar contornos persecut\u00f3rios, obrigar\u00e1 Marcus a mudar de escola. Abandonando Newark e rumando para Ohio, Marcus foge da sombra do pai para celebrar a sua independ\u00eancia libertadora.<\/p>\n<p>Mas nunca libert\u00e1ria. Chegado \u00e0 nova universidade, Marcus mant\u00e9m precisamente os mesmos objetivos: estudar arduamente, conseguir o diploma e, pormenor fundamental, evitar a Guerra da Cor\u00e9ia.<\/p>\n<p>Mas a conting\u00eancia, palavra cara a Roth, acaba por se introduzir na vida ordeira e controlada de Marcus. Os colegas de quarto s\u00e3o ma\u00e7adores, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o. Sinais de aviso de que o Diabo n\u00e3o dorme.<\/p>\n<p>Depois, a paix\u00e3o chega, mas chega personificada na pessoa errada: uma colega problem\u00e1tica, emocionalmente inst\u00e1vel, sexualmente carn\u00edvora. A receita para o desastre.<br \/>E, no topo do bolo, o diretor da universidade que n\u00e3o compreende o individualismo militante e ateu do jovem Marcus. Aos olhos do diretor, Marcus surge como criatura anti-social e potencialmente destrutiva.<\/p>\n<p>Em rigor, o comportamento ordeiro de Marcus n\u00e3o transporta qualquer erro ou v\u00edcio; \u00e9 apenas a prud\u00eancia pr\u00f3pria do judeu prolet\u00e1rio e desenraizado que procura subir a corda sem cometer erros que precipitem a queda.<\/p>\n<p>Mas as nossas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o bastam para definir a nossa conduta; o julgamento e a a\u00e7\u00e3o dos outros s\u00e3o igualmente decisivos para determinar o nosso destino.<\/p>\n<p>E o destino de Marcus ser\u00e1 funesto: depois de um pequeno erro, as conseq\u00fc\u00eancias ser\u00e3o tr\u00e1gicas. Exatamente como a Cassandra paterna profetizara. Marcus, expulso da universidade, acabar\u00e1 os dias na Guerra da Cor\u00e9ia. Acabar\u00e1 os dias trespassado pelas baionetas dos inimigos, como se fosse um animal de a\u00e7ougue. Retalhado. Ensopado em sangue. O sangue de que ele procurara fugir em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de &#8220;Fantasma Sai de Cena&#8221;, um romance entediante e falhado que encerra a saga Zuckerman, Roth regressa \u00e0 tona e confirma o que j\u00e1 escrevi nesta Folha (a respeito de &#8220;Homem Comum&#8221;): as menores obras de Roth s\u00e3o o melhor de Roth na fase final da sua carreira.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o exerc\u00edcios preparat\u00f3rios ou pausas recreativas, como se l\u00ea na cr\u00edtica apedeuta; s\u00e3o obras maiores, e maiores pela concis\u00e3o narrativa e puls\u00e3o tr\u00e1gica que as habita. E s\u00e3o tamb\u00e9m capazes de aprofundar a preocupa\u00e7\u00e3o central da sua fic\u00e7\u00e3o: como conciliar a nossa conduta, a nossa liberdade, a nossa autonomia com as solicita\u00e7\u00f5es do mundo e dos outros, que continuamente nos seduzem e tentam?<br \/>A resposta de Roth adquire, em &#8220;Indignation&#8221;, um sentido tr\u00e1gico impr\u00f3prio para otimistas ou sentimentais: a concilia\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel ou improv\u00e1vel quando o mundo conspira para nos destruir.<\/p>\n<p>Sobre o Autor<br \/>Jo\u00e3o Pereira Coutinho: Jo\u00e3o Pereira Coutinho, 32, \u00e9 colunista da Folha, nasceu em 1976 na cidade do Porto (Portugal). Formado em Hist\u00f3ria, na variante de Hist\u00f3ria da Arte, \u00e9 p\u00f3s-graduado em Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, em Lisboa, onde tamb\u00e9m ensina como professor convidado. Entre 1998 e 2003, foi colunista do jornal \u201cO Independente\u201d. As colunas desse per\u00edodo foram reunidas no livro \u201cVida Independente: 1998-2003\u201d, editadas em Portugal em 2004. \u00c9 colunista do jornal portugu\u00eas \u201cExpresso\u201d e da Folha Online, entre outros. Na Folha, assina coluna na Ilustrada \u00e0s quartas-feiras. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro &#8220;Avenida Paulista&#8221; (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, \u00e0s segundas-feiras, para a Folha Online.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=99\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse texto ai do Jo\u00e3o Pereira Coutinho saiu ontem na Ilustrada. NOVA YORK &#8211; Voc\u00eas querem saber qual a minha id\u00e9ia de inferno? Leiam as &#8220;Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas&#8221;. O inferno \u00e9 uma eternidade de mem\u00f3ria: n\u00f3s, do outro lado da margem, condenados a recordar, e a recordar, e a recordar. 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