{"id":969,"date":"2011-01-24T19:59:00","date_gmt":"2011-01-24T19:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=969"},"modified":"2013-03-21T05:33:13","modified_gmt":"2013-03-21T05:33:13","slug":"fc-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=969","title":{"rendered":"FC\/RIO #2"},"content":{"rendered":"<p><b><span class=\"Apple-style-span\" style=\"border-collapse: collapse; color: #333333; font-family: arial, sans-serif; font-size: 13px; font-weight: normal; line-height: 18px;\">Nosso correspondente local Frederico Coelho foi para Buenos Aires fimdesemana passado e mandou a segunda coluna de l\u00e1. Coluna-cr\u00f4nica colada abaixo com foto de FC mesmo. (Na barra lateral direita do b\u00aeog tem uma apresenta\u00e7\u00e3o do Fred pra quem ainda n\u00e3o conhece a figura)<\/span><\/b><br \/>\n<b><span class=\"Apple-style-span\" style=\"border-collapse: collapse; color: #333333; font-family: arial, sans-serif; font-size: 13px; font-weight: normal; line-height: 18px;\"><br \/>\n<\/span><\/b><\/p>\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\" href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/TT3ZiLf21oI\/AAAAAAAADrY\/eX7uYYgh9So\/s1600\/buenos_aires_foto_fred.jpg\"><img loading=\"lazy\" alt=\"\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/TT3ZiLf21oI\/AAAAAAAADrY\/eX7uYYgh9So\/s400\/buenos_aires_foto_fred.jpg\" width=\"400\" height=\"300\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<p><b>Charles entre Cabrera e Thames, 15:30<\/b><br \/>\n<b>Buenos Aires \u2013 ver\u00e3o de 2011:\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Charles e sua namorada nunca sa\u00edram do Brasil. N\u00e3o usam roupas da moda, n\u00e3o est\u00e3o com ipods, n\u00e3o ostentam nem tatuagens e nem \u00f3culos escuros. Pela primeira vez, conseguem juntar um dinheiro e pagam suas passagens e pacote da excurs\u00e3o em 12 vezes sem juros. Os d\u00e9cimos-terceiros dos dois guardados em um natal magro seguido de um r\u00e9veillon na casa da sogra e, finalmente, a viagem ao exterior. Buenos Aires. A Argentina \u00e9 logo ali, ouvia Charles de seus amigos. Buenos Aires nunca sai de moda, lia a sua namorada na Caras. No ver\u00e3o \u00e9 mais barato, diziam todos aos dois. A cidade do obelisco e do doce de leite \u00e9 a plataforma de in\u00edcio quando n\u00e3o se tem grana para irmos direto para a Disney. Charles queria viajar para outro pa\u00eds e Buenos Aires \u00e9 bonito. Afinal, parece a Europa.<\/p>\n<p>Charles n\u00e3o fala espanhol ou qualquer outra l\u00edngua, apesar de ostentar um nome internacional. Quando ele fala \u201cCharles\u201d, o sotaque de Piracicaba torna-o quase um ingl\u00eas oper\u00e1rio de Manchester. Ele sabe que os \u00faltimos anos na escola t\u00e9cnica valeram \u00e0 pena, que o emprego novo veio junto com a possibilidade de um casamento e de uma casa nova. Sua namorada n\u00e3o vai deix\u00e1-lo escapar, j\u00e1 era. Antes disso tudo, antes de ter que comprar televis\u00e3o de plasma, abrir credi\u00e1rio de m\u00f3veis e fazer um curso de especializa\u00e7\u00e3o em contabilidade, Charles quis viajar para conhecer o mundo. Guaruj\u00e1. Rio de Janeiro. Buenos Aires. Miami, quem sabe. O sonho n\u00e3o tem limite.<\/p>\n<p>Charles tem um computador com internet banda larga, porque gosta muito de navegar e est\u00e1 no facebook ap\u00f3s a crise do orkut. V\u00ea filmes piratas, mas tamb\u00e9m vai ao cinema quando d\u00e1. Ele se informa pela internet sobre a cidade que ele visita, sua primeira vez fora do sudeste. Charles estuda e descobre um site em portugu\u00eas com dicas sobre os bons restaurantes. H\u00e1 um que promete ambiente agrad\u00e1vel e comida farta. Charles descobre pela wikip\u00e9dia que o bairro do restaurante \u00e9 o quente do turismo mundial. O peso argentino est\u00e1 fraco frente ao real. Um breve almo\u00e7o, uma extravaganza, por que n\u00e3o? E Charles vai ao restaurante da moda com sua namorada.<\/p>\n<p>O restaurante est\u00e1 cheio, h\u00e1 uma quase aglomera\u00e7\u00e3o na porta. Calor. Todos falam alto. Noventa por cento dos que esperam s\u00e3o brasileiros (no fundo, todos tamb\u00e9m s\u00e3o Charles). Ele resolve falar, mas recua quando a atendente Julieta lhe diz que a mesa pode demorar quarenta minutos. Charles se abate. Viera de longe, confiara na internet. Ele vacila. Sua namorada insiste em comer ali. Ele decide aguardar. Charles espera, um pouco constrangido dentre seus compatriotas de todas as idades e classes. Como Charles, todos ali querem o mesmo, independente de classe ou regi\u00e3o do Brasil. Quem n\u00e3o quer se sentir exclusivo, feliz e bem servido na viagem at\u00e9 a cidade bonita, barata, educada, espalhada e perto de casa, a camarada BAS? Mas Charles, ironicamente, ver\u00e1 pouco da cidade. Seu percurso de excurs\u00e3o s\u00f3 permite uma tarde livre dele com a namorada. E ele escolhe justamente o restaurante da moda. Mesmo que a carne seja muito crua para eles e as por\u00e7\u00f5es pequenas, mesmo que eles n\u00e3o bebam vinho, mas sim refrigerante, ele estava l\u00e1. Nos outros dias, Charles ficar\u00e1 como gado andando pela Florida, vendo a Plaza de Mayo e rodando as ruas e a pracinha de San Telmo. Mas nesse dia, ele estava fazendo a viagem DELE. Charles gostaria de ir al\u00e9m?<\/p>\n<p>Em Buenos Aires, neste ver\u00e3o, a profecia de Elio Petri se confirma e a classe oper\u00e1ria vai ao para\u00edso. Entendemos de forma real a experi\u00eancia de uma popula\u00e7\u00e3o que ascendeu economicamente, que enriqueceu e criou novas fronteiras de lazer no seu cotidiano. Entendemos, em suma, uma das faces dos \u00faltimos anos de pleno emprego e de credi\u00e1rio farto, da explos\u00e3o da tecnologia popular gerando em telas digitais o ecletismo est\u00e9tico, a educa\u00e7\u00e3o truncada e os gostos conservadores das novas classes m\u00e9dias e altas do Brasil. A cidade fala portugu\u00eas em todos os ambientes, de todas as formas. Quanto mais ricos, mais alto falam, mais espa\u00e7osos s\u00e3o (nos museus). Quanto mais pobres, mais alto falam, mais espa\u00e7oso s\u00e3o (no cal\u00e7ad\u00e3o tur\u00edstico do centro). Somos espa\u00e7osos. E falamos alto. \u00c9 o ver\u00e3o da Classe A, B, C, D, com seu d\u00f3lar fraco e seu real forte, com os pacot\u00f5es de ag\u00eancia de viagem e os b\u00f4nus de empresas no fim de ano, com os feriados longos e as liquida\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O brasileiro, em sua ampla maioria, \u00e9 provinciano. Ele precisa se sentir em casa em qualquer lugar. A saudade do feij\u00e3o da mam\u00e3e que traz de volta o jogador de futebol, a ansiedade frente \u00e0 fila do aeroporto como se estivesse no bar da sua esquina, a coletiviza\u00e7\u00e3o da excita\u00e7\u00e3o em blocos de senhoras e rapazes invadindo lojas e parques, a transforma\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea de qualquer lugar em carnaval ou micareta, a prepot\u00eancia financeira, a falta de cerim\u00f4nia com os h\u00e1bitos e a cultura alheia. E isso n\u00e3o \u00e9 uma via de m\u00e3o \u00fanica. Somos instados e nos sentir \u201cbem\u201d nos estabelecimentos da cidade. Em qualquer loja que voc\u00ea entre, toca m\u00fasica brasileira. Sofisticada e popular\u00edssima. O T\u00e1xi toca o novo cl\u00e1ssico sertanejo. O bar cool toca o disco Casa de Samba (e uma brasileira canta junto e alto em sua mesa). A loja de departamento toca funk. Os jornais noticiam os gols de Neymar. Livros de Clarice Lispector dominam mesas de lan\u00e7amento nas melhores livrarias. O Brasil ocupa um vasto espa\u00e7o no ver\u00e3o portenho. Buenos Aires tornou-se perto demais. E Charles tamb\u00e9m est\u00e1 l\u00e1. Pronto para se expandir a partir da expans\u00e3o do nosso pa\u00eds. Charles \u00e9 uma cr\u00f4nica do Brasil de hoje: sempre para cima, mesmo que para qualquer lugar, mesmo que sem jeito ou trajeto definido. Uma popula\u00e7\u00e3o que aprende a voar se jogando no abismo. Voa Charles, voa.<\/p>\n<div><\/div>\n<div><i><b>Frederico Coelho, janeiro 2011<\/b><\/i><\/div>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=969\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nosso correspondente local Frederico Coelho foi para Buenos Aires fimdesemana passado e mandou a segunda coluna de l\u00e1. Coluna-cr\u00f4nica colada abaixo com foto de FC mesmo. 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