{"id":893,"date":"2010-10-28T11:21:00","date_gmt":"2010-10-28T11:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=893"},"modified":"2010-10-28T11:21:00","modified_gmt":"2010-10-28T11:21:00","slug":"nuno-ramos-o-fruto-estranho-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=893","title":{"rendered":"Nuno Ramos &#8211; O fruto estranho do Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"border-bottom-width: 0px; border-color: initial; border-left-width: 0px; border-right-width: 0px; border-style: initial; border-top-width: 0px; color: #444444; font-style: inherit; font-weight: normal; font: normal normal normal 24px\/normal georgia; line-height: 25px; list-style-image: initial; list-style-position: initial; list-style-type: none; margin-bottom: 0.5em; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px; text-decoration: none; vertical-align: baseline;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #333333; line-height: 18px;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: italic;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-family: 'Helvetica Neue', Arial, Helvetica, sans-serif;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: black; font-family: Times;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"line-height: normal;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: small;\">A jornalista Alexandra Lucas Coelho, do P\u00fablico de Lisboa, est\u00e1 passando uma temporada no Brasil e escreveu essa mat\u00e9ria bacana sobre o artista pl\u00e1stico Nuno Ramos que eu peguei&nbsp;<\/span><\/span><\/span><a href=\"http:\/\/jornal.publico.pt\/noticia\/23-10-2010\/nuno-ramos-o-fruto-estranho-do-brasil-20465703.htm\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: small;\">l\u00e1 no site do jornal luso<\/span><\/a><\/span><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-family: 'Helvetica Neue', Arial, Helvetica, sans-serif;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: small;\">.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/h1>\n<div><\/div>\n<p><b><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-family: 'Helvetica Neue', Arial, Helvetica, sans-serif;\"><i>Tr\u00eas urubus deram origem a um tumulto no Brasil. Por causa deles, activistas ambientais chamaram &#8220;s\u00e1dico&#8221; e mesmo &#8220;nazi&#8221; a Nuno Ramos, um dos maiores artistas brasileiros. E conseguiram mudar a Bienal de S\u00e3o Paulo. Mas \u00e9 do estado do Brasil, e de tudo o que h\u00e1 entre n\u00f3s e as palavras, que a obra de Nuno Ramos fala.<\/i><\/span><\/b><\/p>\n<div><\/p>\n<h1 style=\"border-bottom-width: 0px; border-color: initial; border-left-width: 0px; border-right-width: 0px; border-style: initial; border-top-width: 0px; color: #444444; font-family: inherit; font-size: 3em; font-style: inherit; font: normal normal normal 24px\/normal georgia; line-height: 25px; list-style-image: initial; list-style-position: initial; list-style-type: none; margin-bottom: 0.5em; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px; text-decoration: none; vertical-align: baseline;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #333333; font-family: arial, Helvetica, sans-serif; font-size: 16px; line-height: 18px;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: italic;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: normal;\"><i><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: x-small;\"><b>Por Alexandra Lucas Coelho, no Rio de Janeiro<\/b><\/span><\/i><\/span><\/span><\/span><\/h1>\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/TMlbKXLCVPI\/AAAAAAAADko\/RMeOHBS1RSQ\/s1600\/o_publico_nuno_ramos.png\" imageanchor=\"1\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img loading=\"lazy\" border=\"0\" height=\"250\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/TMlbKXLCVPI\/AAAAAAAADko\/RMeOHBS1RSQ\/s400\/o_publico_nuno_ramos.png\" width=\"400\" \/><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<p>1. Tumulto na bienal<\/p>\n<p>Gritos, bra\u00e7os no ar com telem\u00f3veis e c\u00e2maras. Uma rapariga atira-se para a frente, \u00e9 agarrada, berra. A multid\u00e3o avan\u00e7a entre postes, at\u00e9 ao que parece o centro do tumulto. Um homem contorce-se, cai, e caem seguran\u00e7as por cima. \u00c0 volta, safan\u00f5es, trope\u00e7\u00f5es: &#8220;Solta ele! Solta o cara! Palha\u00e7os! Vagabundos! Filhos da puta!&#8221;<\/p>\n<p>Isto \u00e9 a inaugura\u00e7\u00e3o da Bienal de S\u00e3o Paulo, a 25 de Setembro de 2010, em v\u00eddeos que podem ser vistos no YouTube.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que acaba de acontecer?<\/p>\n<p>Cortando a rede de protec\u00e7\u00e3o, um pichador invadiu a obra que ocupa todo o v\u00e3o central e escreveu nela, em letras brancas gigantes: &#8220;Liberte os urubu.&#8221; Talvez n\u00e3o tenha tido tempo para o &#8220;s&#8221; da concord\u00e2ncia. Foi apanhado pelos seguran\u00e7as, enquanto outros pichadores e activistas ambientais tentavam por sua vez agarrar os seguran\u00e7as, insultando-os.<\/p>\n<p>A origem do tumulto \u00e9 a presen\u00e7a de tr\u00eas urubus vivos dentro da obra. O ondulante v\u00e3o central desenhado por Oscar Niemeyer tem tr\u00eas andares de altura. \u00c9 o espa\u00e7o mais ambicioso e ambicionado de toda a bienal, onde j\u00e1 estiveram obras de Joseph Beyus, de Anish Kapoor, ou de Rui Chafes com uma performance de Vera Mantero suspensa na pr\u00f3pria escultura (Comer o Cora\u00e7\u00e3o, 2004).<\/p>\n<p>Nesta 29.\u00aa bienal, o artista convidado a ocupar o v\u00e3o \u00e9 Nuno Ramos, que em Portugal publicou \u00d3, um dos mais desafiantes textos da l\u00edngua portuguesa nos \u00faltimos anos, vencedor do Pr\u00e9mio PT de Literatura. Os seus trabalhos pl\u00e1sticos muitas vezes integram texto e m\u00fasica. Para o v\u00e3o da bienal, ele prop\u00f5e uma obra chamada Bandeira branca, t\u00edtulo de uma das tr\u00eas can\u00e7\u00f5es que se ouvem baixinho no recinto.<\/p>\n<p>S\u00e3o tr\u00eas can\u00e7\u00f5es, tr\u00eas postes feitos de uma massa escura e densa e tr\u00eas urubus vivos que de vez em quando abrem as asas e voam, planando pelo v\u00e3o. A toda a volta h\u00e1 uma rede, que o pichador cortou para entrar.<\/p>\n<p>O tumulto torna-se a not\u00edcia da bienal, apagando as outras poss\u00edveis controv\u00e9rsias.<\/p>\n<p>Reportando o caso dos urubus, uma televis\u00e3o diz que o autor da obra \u00e9 &#8220;um artista identificado como Nuno Ramos&#8221;, revelando assim n\u00e3o fazer ideia de quem \u00e9 Nuno Ramos. Sendo a bienal gratuita, nos dias seguintes continuam a entrar magotes de activistas, com t-shirts pelo vegetarianismo, cartazes e correntes. Dois deles algemam-se ao varandim por cima da obra, chamam a Nuno Ramos &#8220;suposto artista&#8221; e v\u00e3o gritando com pap\u00e9is enrolados a fazerem de megafone que &#8220;os urubus voam a tr\u00eas mil metros de altura e n\u00e3o a tr\u00eas andares de altura&#8221;. No piso inferior, h\u00e1 camaradas com cartazes que depois ser\u00e3o deixados aos p\u00e9s da obra:<\/p>\n<p>&#8220;Urubu n\u00e3o \u00e9 arte, \u00e9 ave e voa. Liberte-os!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 isso que vc querem ensinar para seus filhos!!! Crueldade animal!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Boicotem a bienal, os urubus merecem respeito. Uma &#8220;arte&#8221; sem \u00e9tica evoca o nazismo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Bienal: Crueldade dos animais sob o manto da arte.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Boicote o sadista. S\u00e1dico+artista=Nuno Ramos.&#8221;<\/p>\n<p>Os tr\u00eas urubus s\u00e3o animais de cativeiro, vieram de um parque em Itabaiana, estado de Sergipe, nunca viveram na natureza e t\u00eam presen\u00e7a na bienal autorizada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos).<\/p>\n<p>Mas a press\u00e3o multiplica-se em blogues, como o do Centro de M\u00eddia Independente, para citar um exemplo: &#8220;Est\u00e1 na hora do Ibama parar com esse legalismo e se dar conta de que o problema n\u00e3o \u00e9 se o animal nasceu em cativeiro ou n\u00e3o&#8221;, escreve o activista Lobo Pasolini. &#8220;O problema \u00e9 explorar animais, ponto final. Animais n\u00e3o s\u00e3o coisas que podem ser postas a servi\u00e7o da vaidade de uma pessoa, independentemente do suposto &#8220;bem-estar&#8221; pelo qual a organiza\u00e7\u00e3o diz zelar. Como o Ibama pretende acabar com o tr\u00e1fico de animais enquanto apoia a explora\u00e7\u00e3o desses \u00e9 um mist\u00e9rio para mim.&#8221;<\/p>\n<p>Lobo Pasolini informa que os urubus da obra &#8220;convivem permanentemente com o som de m\u00fasicas&#8221; em &#8220;muitos alto-falantes&#8221;, e que &#8220;n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que Nuno Ramos explora animais em benef\u00edcio pr\u00f3prio&#8221;, visto que j\u00e1 em 2006 &#8220;usou burros em uma instala\u00e7\u00e3o onde os animais eram obrigados a portar grandes caixas ac\u00fasticas&#8221;. Trata-se, pois, de mais um &#8220;caso de arrog\u00e2ncia e falta de \u00e9tica&#8221;, escreve o bloguista. &#8220;A quest\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 censura. O artista tem o direito de fazer o que quer, se expressar livremente, mas com certeza ele n\u00e3o tem direito de causar sofrimento e refor\u00e7ar a opress\u00e3o. Imagine-se que para tratar de um tema como o estupro de mulheres, digamos, o artista tenha de reproduzir uma cena real em sua instala\u00e7\u00e3o ou filme?&#8221;<\/p>\n<p>O vereador Roberto Tripoli, do Partido Verde, faz den\u00fancia do caso, exigindo a retirada dos urubus, e anuncia que vai apresentar &#8220;um projeto de lei proibindo a presen\u00e7a de animais em qualquer exposi\u00e7\u00e3o na capital&#8221;. Gl\u00e1ucia Bispo, coordenadora de Fauna do Ibama de Sergipe, vem a p\u00fablico dizer que &#8220;quando o artista e a bienal requisitaram a autoriza\u00e7\u00e3o, apresentaram fotos que n\u00e3o correspondiam ao local onde os urubus est\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>E o Ibama acaba por retroceder, retirando a licen\u00e7a. A bienal recorre em tribunal e fica \u00e0 espera da decis\u00e3o. O recurso \u00e9 recusado. Na noite de 7 de Outubro, depois dos visitantes sa\u00edrem, os tr\u00eas urubus s\u00e3o retirados.<\/p>\n<p>2. A obra ao perto<\/p>\n<p>O P2 viu a obra ainda com os urubus em duas visitas, 4 e 5 de Outubro.<\/p>\n<p>Para quem nunca esteve na Bienal de S\u00e3o Paulo, o primeiro impacto \u00e9 o tamanho do v\u00e3o central, um espa\u00e7o enorme, em torno do qual tudo se organiza. A obra que est\u00e1 no meio acaba assim por se estender a todas as outras. Est\u00e1 quase sempre nas nossas costas, ou \u00e0 nossa frente, ou por baixo, ou por cima. No caso de Nuno Ramos, como h\u00e1 uma rede delimitando literalmente um dentro e um fora, isso \u00e9 particularmente vis\u00edvel: &#8220;aquilo&#8221; est\u00e1 sempre ali, entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>E o que \u00e9 aquilo?<\/p>\n<p>Quando entramos, e no piso t\u00e9rreo olhamos para cima, para a imensid\u00e3o daquelas tr\u00eas massas densamente inumanas, escuras, arredondadas, com um declive abrupto, \u00e9 como se uma imagem vinda de um livro de Kafka, talvez O Castelo, se materializasse. Uma forma para um medo a que nunca demos forma.<\/p>\n<p>C\u00e1 em baixo, h\u00e1 uma porta na rede, uma pequena porta fechada, \u00fanica possibilidade de entrar, mas vedada a todos menos ao tratador. Os urubus est\u00e3o l\u00e1 em cima, pousados, e deste piso t\u00e9rreo n\u00e3o se v\u00eaem bem.<\/p>\n<p>N\u00e3o restam quaisquer vest\u00edgios de protesto. A picha\u00e7\u00e3o foi apagada logo a seguir e hoje n\u00e3o h\u00e1 activistas na bienal, aparentemente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, os visitantes sobem pela passadeira em caracol, branca, leve, a\u00e9rea, que depois se ramifica como as art\u00e9rias de um cora\u00e7\u00e3o, puro Niemeyer. E nos pisos seguintes \u00e9 poss\u00edvel observar mais de perto os tr\u00eas animais negros, com a sua cabe\u00e7a em gancho, im\u00f3veis como quem espera. Dois num poste, um noutro.<\/p>\n<p>Cada poste corresponde a uma can\u00e7\u00e3o dentro de uma caixa de som, e portanto, dependendo do piso e do ponto onde est\u00e1, o visitante poder\u00e1 ouvir Bandeira brancacantada por Arnaldo Antunes, Carcar\u00e1, cantada por Mariana Aydar, e Boi da cara preta, cantada por Dona Inah. Mas o som dos tr\u00eas altifalantes est\u00e1 t\u00e3o baixo que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil seguir a letra de cada uma. O som ambiente da bienal \u00e9 mais alto.<\/p>\n<p>De repente um urubu abre as asas e vem directo a n\u00f3s em linha recta, como se n\u00e3o houvesse rede. Mas antes de tocar na rede muda de direc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O humano est\u00e1 dentro ou fora? \u00c9 antes ou depois de n\u00f3s? Antes ou depois da morte?<\/p>\n<p>Se agora olharmos do alto deste \u00faltimo piso, podemos ver l\u00e1 em baixo a capa do livroBiblioteca, de Gon\u00e7alo M. Tavares, a fazer de porta de uma casa. Porque aos p\u00e9s da obra de Nuno Ramos, como uma sua ant\u00edtese, confiante, reconfortante, est\u00e1 a casa-labirinto de Maril\u00e1 Dardot e F\u00e1bio Morais, em que portas, paredes e ch\u00e3o s\u00e3o livros (Cort\u00e1zar, e.e. cummings, Sophie Calle, Lewis Carroll, Hilda Hilst, Kafka, Perec, Mallarm\u00e9, Haroldo de Campos, Calvino, Borges&#8230;). A Biblioteca abre-se para dentro ou para fora, entram e saem pessoas. Tudo o que na obra de Nuno Ramos n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo \u00e9 uma cidade com dez milh\u00f5es, e mais dez na zona metropolitana. No meio desta paisagem vertical, irregular, densa, h\u00e1 uma respira\u00e7\u00e3o verde, com \u00e1gua, jacarand\u00e1s e a flutuante arquitectura branca de Niemeyer: o Parque Ibirapuera. Aqui est\u00e1 o Museu de Arte Moderna, e o seu prolongamento ramificante, a Marquise, uma pala que vai percorrendo espa\u00e7os do parque, e debaixo da qual a toda a hora h\u00e1skaters e patinadores. Aqui est\u00e1 a Oca, um pal\u00e1cio de exposi\u00e7\u00f5es que parece uma nave afundada na relva. Ou o mais recente Audit\u00f3rio, com uma l\u00edngua vermelha levantada para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Tudo isto \u00e9 Niemeyer, entre plantas, lagos e gente, e pode avistar-se dos grandes janel\u00f5es de ferro que ele imaginou para o edif\u00edcio da bienal, no centro do parque.<\/p>\n<p>Podemos ent\u00e3o ver a obra dos urubus tamb\u00e9m como o buraco negro deste esplendor. O seu avesso, ou o seu simult\u00e2neo.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 o urubu&#8221;, gritam alegremente as crian\u00e7as de uma escola, no segundo dia em que o P2 l\u00e1 foi. &#8220;Muito louco, legal!&#8221;, comenta um dos rapazinhos, fotografando um voo. Mais adiante, a TV Cultura grava um depoimento com um artista encostado ao varandim, Paulo Pasta, sobre a pol\u00e9mica dos urubus. &#8220;Empobreceu o debate&#8221;, diz ele. &#8220;O Nuno vem trabalhando uma veia aleg\u00f3rica, de falar do pa\u00eds. Esse trabalho \u00e9 grandioso l\u00e1 em baixo, e c\u00e1 em cima tem as asas de um bicho de carnificina. Talvez nos leve a pensar na situa\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds. O que \u00e9 que tem no gueto? Tem maravilha mas ao mesmo tempo uma trag\u00e9dia. Esse trabalho aflora tudo isso.&#8221;<\/p>\n<p>3. Ao telefone de Istambul<\/p>\n<p>Ainda antes de a bienal abrir, o P2 trocara emails com Nuno Ramos para combinar uma conversa durante a campanha eleitoral. Entretanto a pol\u00e9mica dos urubus rebenta e dias depois o artista vai para Istambul, onde tem compromissos. Temos uma primeira conversa ao telefone no momento em que o recurso est\u00e1 em tribunal. Que far\u00e1 caso a decis\u00e3o seja retirar os urubus? A obra n\u00e3o perder\u00e1 sentido? &#8220;Grande parte, sim, deixa de existir&#8221;, diz Nuno Ramos. &#8220;A ideia de um interior que n\u00e3o pode ser violado deixa de fazer sentido. At\u00e9 talvez eu desfa\u00e7a a obra toda. Mas os urubus est\u00e3o sendo bem cuidados, est\u00e3o bem de sa\u00fade, acho tudo isso um absurdo.&#8221;<\/p>\n<p>Dividindo por partes: &#8220;Por um lado, a reac\u00e7\u00e3o caluniosa, com boatos absurdos, a dizer que deixei bichos morrer, que os ia deixar afogados em latas de tinta. Me confundiram com aquele artista mexicano que deixou morrer um c\u00e3o. Disseram que eu soltava fogo-de-artif\u00edcio para fazer os bichos voarem. Parece-me uma coisa fascista e voc\u00ea n\u00e3o tem como se defender.&#8221;<\/p>\n<p>Depois h\u00e1 a quest\u00e3o ambiental: &#8220;As pessoas t\u00eam o direito de serem contra aves em cativeiro, desde que entendam que eu n\u00e3o estou maltratando os urubus. H\u00e1 limites em arte: voc\u00ea n\u00e3o pode matar uma pessoa. Mas dentro do limite legal a arte pode tudo. Eu n\u00e3o sou ecologista, fiz uma obra com v\u00e1rios sentidos. E essa pol\u00e9mica parece-me mais uma forma de controle do imagin\u00e1rio, de onde a arte sai muito diminu\u00edda.&#8221;<\/p>\n<p>Os urubus na obra s\u00e3o &#8220;o bicho nocturno, a natureza invadindo aquele edif\u00edcio, algo que vem das penas pretas que migrou para aquelas esculturas de areia queimada que aparecem modernas, mas tamb\u00e9m observat\u00f3rios maias, como se algo estivesse sendo observado do ponto de vista astrol\u00f3gico&#8221;. Esse \u00e9 o universo da cria\u00e7\u00e3o, &#8220;um mundo do sonho&#8221;, e Nuno Ramos teme que ele esteja &#8220;sendo cada vez mais colonizado&#8221; por um discurso exterior. &#8220;O discurso ecol\u00f3gico parece que sequestrou o olhar.&#8221; Mas &#8220;a arte \u00e9 uma sa\u00edda, n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o resolve nada, s\u00f3 abre&#8221;.<\/p>\n<p>Numa vers\u00e3o experimental, com outras formas, esta obra j\u00e1 tinha estado exposta em Bras\u00edlia. Nuno Ramos reformulou-a para a bienal, pensando-a sempre no momento presente do Brasil. &#8220;O v\u00e3o \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio, onde o p\u00fablico circula. Ent\u00e3o, tem esse cora\u00e7\u00e3o veloz, expansivo, dos anos 50, e a obra \u00e9 o contr\u00e1rio: preto, volume, peso, para dentro. \u00c9 uma desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a esse optimismo que o Brasil est\u00e1 vivendo. O interessante \u00e9 voc\u00ea n\u00e3o poder entrar. N\u00e3o teria a mesma for\u00e7a se pudesse.&#8221;<\/p>\n<p>4. Depois da retirada<\/p>\n<p>Os urubus s\u00e3o retirados na noite de 7 para 8 de Outubro. Nuno Ramos j\u00e1 est\u00e1 de volta a S\u00e3o Paulo, mas como o P2 agora est\u00e1 no Rio voltamos a falar por telefone. Que vai fazer? &#8220;Vou manter a obra. Acho que seria muito injusto com a bienal, n\u00e3o seria pratic\u00e1vel. Eu estava achando que a gente ia ganhar, mas a\u00ed o juiz indeferiu e o cara que trata deles retirou. Agora est\u00e3o de volta no cativeiro original que \u00e9 1\/16 mais pequeno, no Parque dos Falc\u00f5es, em Sergipe. Nunca sa\u00edram do cativeiro, s\u00f3 em exposi\u00e7\u00f5es minhas.&#8221;<\/p>\n<p>E como \u00e9 que Nuno encara a retirada? &#8220;Acho que n\u00e3o foi por motivos t\u00e9cnicos. N\u00e3o me sinto censurado como na ditadura militar. Foi leg\u00edtimo, os caras entraram na justi\u00e7a e ganharam. Mas sinto-me injusti\u00e7ado. Os urubus foram retirados por press\u00e3o pol\u00edtica, de incapacidade de ouvir a arte, de dialogar com ela. O que foi suprimido foi a estranheza do que fiz e n\u00e3o o mau-trato. Ningu\u00e9m falou em mau-trato. A coisa veio muito das ONG, do deputado do PV, a coisa pegou na Internet.&#8221;<\/p>\n<p>Pelo meio chegou a haver di\u00e1logo com o Ibama de S\u00e3o Paulo. &#8220;Parecia que haveria uma colabora\u00e7\u00e3o. Eles queriam que eu usasse luz ultravioleta tr\u00eas vezes por dia, o que seria tranquilo de fazer. Propuseram que a licen\u00e7a fosse revog\u00e1vel a cada 15 dias e eu gostei dessa ideia. Pus a hip\u00f3tese de diminuir o som.&#8221; Mas depois, cr\u00ea, ter\u00e1 havido &#8220;press\u00e3o pol\u00edtica organizada&#8221; em Bras\u00edlia. &#8220;Acho dif\u00edcil que eles tivessem ganho se n\u00e3o houvesse elei\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Questionado pelo P2, o Ibama\/Bras\u00edlia remeteu para o Ibama\/S\u00e3o Paulo, que enviou a seguinte nota atrav\u00e9s da sua assessora de imprensa: &#8220;A licen\u00e7a de transporte e exposi\u00e7\u00e3o dos Urubus que faziam parte da obra do artista Nuno Ramos na 29.\u00aa Bienal em S\u00e3o Paulo foi revogada, considerando Parecer T\u00e9cnico dos analistas ambientais recomendando que as instala\u00e7\u00f5es estavam inadequadas para a manuten\u00e7\u00e3o dos animais. Em notifica\u00e7\u00e3o o Ibama solicitou a retirada das aves e seu retorno ao local de origem, o Parque dos Falc\u00f5es em Itabaiana\/SE.&#8221;<\/p>\n<p>Agora, &#8220;h\u00e1 que defender de volta a autonomia da arte&#8221;, remata Nuno Ramos. &#8220;N\u00e3o vou fazer-me de v\u00edtima. Essas pessoas [os activistas que o acusaram de explorar os urubus] imp\u00f5em uma simplifica\u00e7\u00e3o radical a tudo, precisam desse inimigo simpl\u00f3rio para continuarem a repetir as mesmas coisas.&#8221;<\/p>\n<p>E sugere a quem viu a obra da bienal que veja a sua obra-irm\u00e3. Est\u00e1 neste momento em exposi\u00e7\u00e3o no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Nuno Ramos acha que tecnicamente \u00e9 a mais dif\u00edcil que j\u00e1 fez.<\/p>\n<p>5. O fruto no Rio<\/p>\n<p>Os trabalhos de Nuno Ramos t\u00eam &#8220;uma dimens\u00e3o material intensa em que nada \u00e9 confort\u00e1vel&#8221;, escreve a curadora da exposi\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, Vanda Klabin. &#8220;Abrem-se a experi\u00eancias inquietas, desordenadas, interrogativas, nas quais uma busca po\u00e9tica e existencial faz-se sempre presente.&#8221; Estar perante uma obra deste artista &#8220;inclassific\u00e1vel&#8221;, &#8220;um dos mais vers\u00e1teis&#8221; do Brasil, \u00e9 &#8220;ter a possibilidade de acessar mundos remotos, guardados na mem\u00f3ria de cada um de n\u00f3s, e tamb\u00e9m no repert\u00f3rio comum a todos os brasileiros que cresceram ouvindo o samba de Nelson Cavaquinho ou conheceram a literatura atrav\u00e9s dos poemas de Carlos Drummond de Andrade&#8221;.<\/p>\n<p>O texto pode ler-se no primeiro andar do museu, um espa\u00e7o luminoso, totalmente dominado pela obra Fruto Estranho. \u00c9 um trabalho monumental. Duas \u00e1rvores verdadeiras com dois avi\u00f5es verdadeiros encastrados nas copas. \u00c9 como se os avi\u00f5es se tivessem despenhado ali h\u00e1 s\u00e9culos, e agora o metal e a madeira formassem uma mat\u00e9ria s\u00f3, os troncos a trespassarem as asas, e tudo coberto de uma seiva branca. A \u00e1rvore passou a ter asas e o avi\u00e3o passou a ter ra\u00edzes. Mas eternamente presos um ao outro, est\u00e3o como as figuras de Pompeia, im\u00f3veis, cobertas de lava.<\/p>\n<p>Neste caso, o que parece seiva \u00e9 na verdade sab\u00e3o, cobrindo os avi\u00f5es at\u00e9 eles parecerem uns bichos cegos, sem olhos, sem janelas. Quatro toneladas de sab\u00e3o para dez toneladas de obra, no total.<\/p>\n<p>Cada avi\u00e3o tem uma asa de onde pende um tubo cheio de l\u00edquido, como numa transfus\u00e3o. E cada asa tem a seus p\u00e9s um contrabaixo de onde foi retirada uma parte da madeira para alojar um recipiente com l\u00edquido. A ideia \u00e9 que o tubo que vem da asa est\u00e1 a deixar cair o seu l\u00edquido no violoncelo.<\/p>\n<p>Se avi\u00e3o e \u00e1rvore est\u00e3o petrificados, o l\u00edquido estar\u00e1 em movimento. Nuno Ramos pensou-o como sendo soda c\u00e1ustica, mas o museu contraprop\u00f4s \u00e1gua, por raz\u00f5es de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>E num pequeno ecr\u00e3 entre os dois avi\u00f5es passa continuamente um fragmento de A Fonte da Virgem, de Ingmar Bergman: um homem chega ao cimo de uma montanha onde h\u00e1 uma jovem \u00e1rvore solit\u00e1ria e agarra-se a ela com toda a for\u00e7a do seu corpo, tentando derrub\u00e1-la. Por cima, Nuno Ramos p\u00f5e Billie Holiday a cantar Strange Fruit. Quando ela acaba de cantar, a \u00e1rvore caiu, com o homem abra\u00e7ado. O conjunto \u00e9 de uma beleza arrepiante.<\/p>\n<p>E quando voltamos a andar entre os avi\u00f5es, a voz de Billie Holiday segue-nos como um eco, uma mem\u00f3ria, algo que esteve vivo ali e j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p>6. A grande arte<\/p>\n<p>&#8220;Nuno Ramos \u00e9 um dos artistas mais importantes do mundo na gera\u00e7\u00e3o aparecida nos anos 80&#8221;, diz ao P2 o cr\u00edtico e professor Paulo S\u00e9rgio Duarte. &#8220;Existe uma crueza no olhar dele, um brutalismo, uma intensidade dif\u00edcil de encontrar. \u00c9 uma obra contundente, com uma for\u00e7a pl\u00e1stica formid\u00e1vel e uma intelig\u00eancia muito rara. Acho que ele ainda n\u00e3o tem a resposta internacional \u00e0 altura mas acabar\u00e1 por ser reconhecido.&#8221;<\/p>\n<p>Paulo S\u00e9rgio, um dos mais influentes cr\u00edticos no Brasil, desvaloriza a pol\u00e9mica dos urubus. &#8220;J\u00e1 assisti a manifesta\u00e7\u00e3o contra a morte de moscas, literalmente. Isso aconteceu em Houston, na abertura de um trabalho de Tunga [artista basileiro]. Os urubus estavam licenciados, e eram criados em cativeiro, mas se h\u00e1 quem proteste por moscas&#8230; Isso \u00e9 tanto mais desproporcionado quando pensamos nos problemas do pa\u00eds. N\u00e3o estou de acordo com essa press\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>O m\u00fasico e ensa\u00edsta Jos\u00e9 Miguel Wisnik disse, na sua coluna do Globo: &#8220;As reac\u00e7\u00f5es que ele despertou parecem ser uma projec\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica e obtusa, desvairadamente literal, daquilo que atravessa sua obra como uma sondagem &#8211; \u00fanica &#8211; de dimens\u00e3o brutalmente f\u00edsica e impalp\u00e1vel que persiste entre as palavras e as coisas.&#8221;<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o, n\u00e3o apenas entre as palavras e as coisas, mas entre n\u00f3s e as palavras, como no poema de Cesariny, ser\u00e1 talvez o mais perturbante na obra de Nuno Ramos.<\/p>\n<p>Wisnik remata assim o seu texto: &#8220;Sim, Nuno Ramos \u00e9 cruel. Isto \u00e9, um dos nossos maiores artistas vivos.&#8221;<\/p>\n<p>Nascido em 1960, a trabalhar como artista pl\u00e1stico desde os anos 80, autor de v\u00e1rios livros de contos e ensaios, al\u00e9m de can\u00e7\u00f5es, Nuno Ramos vive em S\u00e3o Paulo. O seu \u00faltimo livro, acabado de publicar no Brasil, chama-se O Mau Vidraceiro, e tem um vest\u00edgio de ave na capa. Na badana, Gon\u00e7alo M. Tavares escreve: &#8220;De resto, os urubus no ombro de Nuno Ramos sabem que tudo &#8220;termina sempre aqui&#8221;, nas suas pan\u00e7as. Mas n\u00f3s &#8211; que conseguimos ser t\u00e3o exactos na nossa covardia &#8211; j\u00e1 ali estamos, na sombra do segundo urubu (o que vai devorar o primeiro), encolhidos e encolhidos, como predadores. Mas julgando preparar a nossa pan\u00e7a, j\u00e1 estamos, afinal, a falhar a nossa fuga.&#8221;<\/p><\/div>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=893\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A jornalista Alexandra Lucas Coelho, do P\u00fablico de Lisboa, est\u00e1 passando uma temporada no Brasil e escreveu essa mat\u00e9ria bacana sobre o artista pl\u00e1stico Nuno Ramos que eu peguei&nbsp;l\u00e1 no site do jornal luso. Tr\u00eas urubus deram origem a um tumulto no Brasil. 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