{"id":887,"date":"2010-10-19T21:07:00","date_gmt":"2010-10-19T21:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=887"},"modified":"2010-10-19T21:07:00","modified_gmt":"2010-10-19T21:07:00","slug":"bandeira-branca-amor-nuno-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=887","title":{"rendered":"Bandeira branca, amor &#8211; NUNO RAMOS"},"content":{"rendered":"<p>\u00f3timo e necess\u00e1rio texto do artista Nuno Ramos que Saiu na Ilustr\u00edssima (FSP) de domingo.<\/p>\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/TL4IJ5n7ucI\/AAAAAAAADjk\/H-n6f5iTlHs\/s1600\/nuno_urubus.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img loading=\"lazy\" border=\"0\" height=\"400\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/TL4IJ5n7ucI\/AAAAAAAADjk\/H-n6f5iTlHs\/s400\/nuno_urubus.jpg\" width=\"299\" \/><\/a><\/div>\n<div>\n<p><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: x-large;\"><b>Bandeira branca, amor<\/b><\/span><br \/><b>Em defesa da soberba e do arb\u00edtrio da arte<\/b><br \/>NUNO RAMOS<\/p>\n<p>resumo<br \/>Alvo de protestos de pichadores, jornalistas e militantes da causa animal, o trabalho &#8220;Bandeira Branca&#8221;, de Nuno Ramos, foi desmontado na 29\u00aa Bienal de S\u00e3o Paulo, por determina\u00e7\u00e3o do Ibama, que o havia autorizado. O artista faz uma defesa da legalidade da obra e reflete sobre consensos e rupturas inerentes \u00e0 atividade art\u00edstica.<\/p>\n<p>PROCUREI INTENCIONALMENTE matar tr\u00eas urubus de fome e de sede no pr\u00e9dio da Bienal de S\u00e3o Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, al\u00e9m de espelhos, para que batessem a cabe\u00e7a durante o voo. Constru\u00ed t\u00faneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para for\u00e7\u00e1-los a voar, costumo lan\u00e7ar roj\u00f5es em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ACUSA\u00c7\u00d5ES Como nos pesadelos ou nos linchamentos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel responder a acusa\u00e7\u00f5es desta ordem, que circularam pela internet e no boca a boca com for\u00e7a insaci\u00e1vel nas \u00faltimas tr\u00eas semanas, criando um caldo de cultura pr\u00f3ximo \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o. Como resultado disso, em plena Bienal, entre faixas pedindo que eu fosse preso, meu trabalho foi atacado por um pichador, que driblou a seguran\u00e7a, rasgou a tela de prote\u00e7\u00e3o aos bichos e danificou uma das esculturas de areia.<br \/>Fomos cercados, eu e minha mulher, por militantes ecologistas, que nos xingavam e gritavam do outro lado do vidro do carro, a boca em c\u00e2mera lenta, &#8220;a-li-men-ta-e-les!&#8221; -o que, claro, j\u00e1 havia sido feito naquele mesmo dia. Barbara Gancia, colunista da Folha, chegou a pedir, utilizando um imagin\u00e1rio de repress\u00e3o militar ou de mil\u00edcia fascista, que eu fosse colocado de cuecas contra um muro e submetido a uma ducha com as mangueiras para inc\u00eandio do corpo de bombeiros.<br \/>Ingrid E. Newkirk, presidente da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Peta [pessoas pelo tratamento \u00e9tico de animais, na sigla em ingl\u00eas], num artigo feroz, publicado na Folha em 8\/10, encontra apenas o que pressup\u00f5e desde o in\u00edcio: que eu quero aparecer (ela, n\u00e3o? algu\u00e9m duvida que um dos temas da pol\u00eamica \u00e9 justamente a disputa pelo espa\u00e7o na m\u00eddia?); que sou (os termos s\u00e3o dela) cruel, &#8220;bad boy&#8221;, sem compaix\u00e3o e produtor de arte de m\u00e1 qualidade. Como n\u00e3o h\u00e1 argumentos e o racioc\u00ednio \u00e9 circular, tudo retorna \u00e0 ilibada consci\u00eancia da articulista.<br \/>A not\u00edcia atravessou fronteiras raras para quest\u00f5es envolvendo arte (hor\u00e1rios insuspeitos em todos os canais de TV, cadernos de jornal pouco afeitos \u00e0 cultura e nas mais diversas regi\u00f5es do pa\u00eds), passando a assunto de bar e padaria. Os urubus, definitivamente, haviam conseguido escapar e, para usar os versos de Augusto dos Anjos, pousaram na minha sorte.<\/p>\n<p>TOM Frequento uma \u00e1rea da cultura afastada dessa luz radioativa, e n\u00e3o quero errar o tom. Come\u00e7o este texto, portanto, fazendo a minha li\u00e7\u00e3o de casa: o que quer que tenha acontecido, aconteceu por meio das institui\u00e7\u00f5es. A licen\u00e7a do Ibama de Sergipe, que permitiu o transporte e a exposi\u00e7\u00e3o dos animais, era leg\u00edtima e dentro de par\u00e2metros absolutamente legais, bem como sua cassa\u00e7\u00e3o pelo Ibama de Bras\u00edlia.<br \/>Tentamos, eu e a Funda\u00e7\u00e3o Bienal, que me apoiou de todos os modos poss\u00edveis em defesa do meu trabalho, uma liminar na Justi\u00e7a e perdemos. Acatamos e tiramos, no mesmo dia em que a decis\u00e3o liminar saiu, as tr\u00eas aves. Sinto-me coibido, injusti\u00e7ado e chocado com tudo isso, mas n\u00e3o posso dizer que fui censurado. E por entender que a forma que destruiu meu trabalho ao tirar as tr\u00eas aves \u00e9 leg\u00edtima, quero divergir completamente dela.<br \/>Como quase nenhuma informa\u00e7\u00e3o sensata circulou, tenho primeiro que dizer o \u00f3bvio:<br \/>1) As aves que utilizei em meu trabalho s\u00e3o aves nascidas em cativeiro, e n\u00e3o sequestradas ao habitat natural; \u00e9 para este cativeiro que voltaram (e onde est\u00e3o neste momento), quando foram &#8220;soltas&#8221; do meu trabalho;<br \/>2) Pertencem ao Parque dos Falc\u00f5es (criadouro conservacionista que funciona com autoriza\u00e7\u00e3o do Ibama, realizando atividades educacionais e pedag\u00f3gicas, pelo Brasil inteiro, com aves de rapina), que as mant\u00eam em exposi\u00e7\u00e3o para o p\u00fablico, como num zool\u00f3gico;<br \/>3) Estas mesmas tr\u00eas aves participaram em 2008 de uma vers\u00e3o bastante similar deste trabalho, no Centro Cultural Banco do Brasil de Bras\u00edlia, durante dois meses, adaptando-se perfeitamente ao espa\u00e7o e sem nada sofrer, com plano de manejo aprovado pelo mesmo Ibama;<br \/>4) As aves foram adaptadas ao espa\u00e7o da Bienal antes do in\u00edcio da mostra, com a presen\u00e7a do veterin\u00e1rio respons\u00e1vel por elas e de um tratador;<br \/>5) Esse tratador, o mesmo que cuida delas em Sergipe, ficou permanentemente com elas durante todo o tempo de exibi\u00e7\u00e3o das aves ao p\u00fablico, literalmente abrindo e fechando a mostra:<br \/>6) Eram alimentadas por ele todas as manh\u00e3s, em quantidade e frequ\u00eancia estipuladas pelo plano de manejo;<br \/>7) O volume das caixas de som foi controlado, sendo mantido numa altura bastante inferior ao do murm\u00fario do p\u00fablico, para evitar estresse aos bichos;<br \/>8) O plano de manejo das aves, aceito pelo Ibama de Sergipe, foi revogado, j\u00e1 no meio da pol\u00eamica, pelo Ibama de S\u00e3o Paulo -mas sem recomenda\u00e7\u00e3o de cassa\u00e7\u00e3o. O que o laudo t\u00e9cnico, s\u00e9rio e sisudo do Ibama de S\u00e3o Paulo solicitava eram ajustes -basicamente, que deslig\u00e1ssemos uma das caixas de som e que institu\u00edssemos banhos de luz ultravioleta todas as manh\u00e3s, para suprir a falta de luz solar direta sobre os bichos (embora a luz do dia banhasse o espa\u00e7o). Oferecia, ainda, uma licen\u00e7a de 15 dias, a ser prorrogada de acordo com a avalia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica sobre o bem-estar dos animais. O Ibama de Bras\u00edlia, que, sob press\u00e3o pol\u00edtica e midi\u00e1tica, determinou arbitrariamente a sa\u00edda das aves, em desacordo com o laudo do Ibama de S\u00e3o Paulo, travou o que parecia ser um processo rico de colabora\u00e7\u00e3o entre t\u00e9cnicos s\u00e9rios, com conhecimento sobre os animais, e um trabalho de arte;<br \/>9) Obtivemos laudo favor\u00e1vel do Departamento de Parques e \u00c1reas Verdes da Prefeitura de S\u00e3o Paulo;<br \/>10) T\u00e9cnicos do setor de aves do Zool\u00f3gico de S\u00e3o Paulo, em vistoria ao trabalho, n\u00e3o manifestaram qualquer cr\u00edtica espec\u00edfica ao manejo das aves -fiquei sabendo nesta visita, inclusive, que a jaula dos urubus era bem maior que qualquer jaula do zool\u00f3gico, inclusive a do condor.<\/p>\n<p>EXPIA\u00c7\u00c3O Por que, ent\u00e3o, tanta confus\u00e3o? Que \u00e9 que est\u00e1 sendo expiado aqui?<br \/>Para come\u00e7o de conversa, e como aproxima\u00e7\u00e3o ao problema, quero lembrar que &#8220;Bandeira Branca&#8221; n\u00e3o \u00e9 um trabalho de ecologia, nem eu sou especialista em aves de rapina, assim como &#8220;Guernica&#8221; de Picasso n\u00e3o \u00e9 apenas um trabalho sobre a Guerra Civil Espanhola, nem Picasso um historiador. Por isso utilizei os servi\u00e7os de uma entidade ecol\u00f3gica, o Parque dos Falc\u00f5es, e obtive, tanto na montagem em Bras\u00edlia, em 2008, quanto em S\u00e3o Paulo, autoriza\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o legal em meu pa\u00eds para esses assuntos.<br \/>Ou a lei n\u00e3o vale para todos? Tratar meu trabalho como crime e a mim como criminoso \u00e9 fazer o que fazia a direita franquista, ao chamar &#8220;Guernica&#8221; de quadro comunista, ou a aristocracia francesa da segunda metade do s\u00e9culo 19, quando amea\u00e7ava retalhar a &#8220;Olympia&#8221;, de Manet, em nome dos bons costumes.<br \/>O que me foi negado com a criminaliza\u00e7\u00e3o do meu trabalho foi a possibilidade de um sentido -o sequestro, digamos, de qualquer sentido que ele pudesse propor. E \u00e9 contra isso, mais do que contra a boataria e a cal\u00fania, que escrevo hoje.<\/p>\n<p>VALORES Arte n\u00e3o cabe nos bons nem nos maus valores, por mais confian\u00e7a que se tenha neles. Dela emana um signo aberto, para isso foi inventada, para que fanatismos como os que ouvi nessas \u00faltimas semanas n\u00e3o circunscrevam completamente o poss\u00edvel da vida. Claro que ningu\u00e9m est\u00e1 acima da lei, e, repito, cumprimos, artista e institui\u00e7\u00e3o, rigorosamente a legisla\u00e7\u00e3o ambiental brasileira -mas \u00e9 a possibilidade de pensar diferente que est\u00e1 sendo criminalizada aqui.<br \/>Artistas extraordin\u00e1rios como Joseph Beuys (por sinal, fundador do Partido Verde na Alemanha), Jannis Kounellis, H\u00e9lio Oiticica, Nelson Felix, Tunga, Cildo Meireles, utilizaram animais em suas instala\u00e7\u00f5es. Provavelmente o trabalho de Beuys que inclui um coiote (&#8220;I Love America and America Loves Me&#8221;) seja, sem nenhum favor, uma das mais importantes obras de arte do s\u00e9culo 20.<br \/>&#8220;Tropic\u00e1lia&#8221;, de H\u00e9lio Oiticica, que tem araras vivas em seu interior (curiosamente, exposta h\u00e1 poucos meses, com as aves, no pr\u00e9dio do Ita\u00fa Cultural de S\u00e3o Paulo, na avenida Paulista, sem despertar qualquer pol\u00eamica), \u00e9 um trabalho fundamental para a compreens\u00e3o do que somos e do que queremos ser. Negar o que estes artistas conseguiram com seus trabalhos -uma oxigena\u00e7\u00e3o radical de nosso imagin\u00e1rio- tratando-os como criminosos certamente seria regredir a \u00e9pocas de triste mem\u00f3ria.<br \/>Posso entender quem seja contra bichos em cativeiro. Seria interessante exigir um pouco de coer\u00eancia dessa posi\u00e7\u00e3o -ou seja, vegetarianismo radical, j\u00e1 que a quase totalidade da carne que comemos vem de animais em cativeiro, fechamento de todos os zool\u00f3gicos, j\u00f3queis-clubes, fazendas com animais para monta e, ainda, requalifica\u00e7\u00e3o geral de nossas rela\u00e7\u00f5es com bichos dom\u00e9sticos. Mas, mais do que coerentes, gostaria que fossem suficientemente democratas para aceitar que nem todos pensem como eles, nem todos se deem o lugar de xam\u00e3s, em contato \u00edntimo com os desejos e sensa\u00e7\u00f5es dos animais, e que dentro das regras p\u00fablicas legais de cada pa\u00eds o acesso a esses animais possa se dar sem histeria nem cal\u00fanias.<\/p>\n<p>BANDEIRA BRANCA Como nada ou quase nada se falou sobre o trabalho, pe\u00e7o licen\u00e7a para interpretar o que eu pr\u00f3prio fiz, partindo de uma breve descri\u00e7\u00e3o. &#8220;Bandeira Branca&#8221; (este t\u00edtulo, no meio de um bombardeio desses, \u00e9 dessas coisas que s\u00f3 a arte explica) foi montado pela primeira vez h\u00e1 dois anos, no CCBB de Bras\u00edlia, e agora, ampliado e modificado, recebeu uma segunda vers\u00e3o, especialmente para a 29\u00aa Bienal.<br \/>O trabalho consiste em tr\u00eas enormes esculturas de areia preta pilada, foscas e fr\u00e1geis, a partir de cujo topo, feito de m\u00e1rmore, tr\u00eas caixas de som emitem, em intervalos discrepantes, as can\u00e7\u00f5es &#8220;Bandeira Branca&#8221; (de Max Nunes e La\u00e9rcio Alves, interpretada por Arnaldo Antunes), &#8220;Boi da Cara Preta&#8221; (do folclore, por Dona Inah) e &#8220;Carcar\u00e1&#8221; (de Jo\u00e3o do Vale e Jos\u00e9 Candido, por Mariana Aydar). Tr\u00eas urubus vivem na instala\u00e7\u00e3o durante toda a dura\u00e7\u00e3o do trabalho.<br \/>O resultado \u00e9 uma cena solene, entre a litania e a can\u00e7\u00e3o de ninar, que me parece ter cavado, em sua montagem em S\u00e3o Paulo, uma esp\u00e9cie de buraco negro no pr\u00e9dio da Bienal. Acho que o v\u00e3o do pr\u00e9dio, uma das obras mais felizes de Niemeyer, com sua velocidade e otimismo, ganhou com meu trabalho um contraponto ambivalente, noturno e encantado, triste mas tamb\u00e9m pr\u00f3ximo do mundo dos contos de fada.<br \/>H\u00e1 uma esp\u00e9cie de espiral ascendente no trabalho, que se desmaterializa conforme o espectador sobe a rampa do pr\u00e9dio e as pesadas colunas de areia se transformam na geometria de quem v\u00ea as esculturas de cima. Feito primeiro de areia, depois de m\u00e1rmore, depois de vidro, depois de som, depois de voo, o trabalho faz em seu percurso o mesmo que as aves, num ciclo que a chuva de fezes brancas, caindo sobre as pe\u00e7as e sobre o ch\u00e3o, inicia novamente.<\/p>\n<p>ANTIPENETR\u00c1VEL Mas o ponto crucial, acho eu, \u00e9 que, apesar da monumentalidade do trabalho e da textura inacabada da areia, que solicitam o corpo do espectador, o p\u00fablico \u00e9 mantido fora da obra, numa esp\u00e9cie de antipenetr\u00e1vel. A obra de certa forma j\u00e1 foi ocupada, j\u00e1 tem dono e por isso n\u00e3o podemos nos aproximar. A noite, as can\u00e7\u00f5es e os urubus s\u00e3o seus donos, e ao p\u00fablico resta assistir de fora a alguma coisa viva, que n\u00e3o precisa dele.<br \/>As can\u00e7\u00f5es e os bichos, for\u00e7as ascensionais contra a in\u00e9rcia e o peso das esculturas, j\u00e1 tomaram conta da obra e a tela de prote\u00e7\u00e3o, que materializa o desenho do v\u00e3o do pr\u00e9dio, marca essa passagem entre um exterior institucional e um interior ativo, fechado em si, mistura de cultura (can\u00e7\u00f5es), natureza (os urubus) e arquitetura.<br \/>As aves e as can\u00e7\u00f5es d\u00e3o ao trabalho o seu agora, uma dura\u00e7\u00e3o voltada para algo indiferente ao mundo l\u00e1 fora. Da\u00ed que muita gente tenha me dito que se sentia observado pelas aves e n\u00e3o observador, dentro da grade e n\u00e3o fora dela. E que no meio de tanto tumulto, com certeza as tr\u00eas aves pareciam as \u00fanicas tranquilas.<br \/>Esta atividade interna autossuficiente est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o deste trabalho e me acompanhou ao longo da balb\u00fardia destes dias dif\u00edceis. Fico feliz de perceber que de certa forma o trabalho j\u00e1 pressupunha isso, falava disso e defendia-se exatamente disso -queria estar consigo e n\u00e3o conosco, longe da barulheira que no entanto causava.<\/p>\n<p>AUTOSSUFICI\u00caNCIA Em vez da atividade do espectador, pr\u00f3pria de tantas das melhores obras modernas, e que encontrou entre n\u00f3s uma formula\u00e7\u00e3o extrema na ideia dos &#8220;Penetr\u00e1veis&#8221; de H\u00e9lio Oiticica, a arte contempor\u00e2nea parece estar se voltando para dentro, numa autossufici\u00eancia renitente.<br \/>N\u00e3o \u00e9 o lugar para desenvolver isto, mas, para dar dois exemplos memor\u00e1veis, acho que as &#8220;Elipses&#8221;, de Richard Serra, apoiadas em si mesmas e n\u00e3o mais nas paredes das institui\u00e7\u00f5es, ou &#8220;O Ciclo Creamaster&#8221;, de Matthew Barney, com suas infinitas dobras e rela\u00e7\u00f5es internas, partilham esta caracter\u00edstica. Meu trabalho acompanha de certa forma essa dire\u00e7\u00e3o.<br \/>A institucionaliza\u00e7\u00e3o crescente da arte trouxe para junto dela uma pletora de discursos institucionais, todos perfeitamente centrados, seguros de si e disputando espa\u00e7o na m\u00eddia e nas oportunidades or\u00e7ament\u00e1rias. Isso vem, talvez, do estilha\u00e7amento das grandes no\u00e7\u00f5es universais que acompanharam a forma\u00e7\u00e3o do mundo moderno: pol\u00edtica, religi\u00e3o, burguesia, proletariado, luta de classes, direita, esquerda etc.<br \/>Com a quebra dessas no\u00e7\u00f5es universais, os particulares (ecologia, minorias \u00e9tnicas, minorias sexuais etc.) firmaram-se, cheios de si, pontudos, zelosos de suas verdades. A arte talvez seja a \u00faltima experi\u00eancia universalizante, ou ao menos n\u00e3o sim\u00e9trica \u00e0 discursividade do mundo, e acho que tende a ser cada vez mais atacada, toda vez que discrepar, como soberba e como arb\u00edtrio. Mas penso que \u00e9 isso mesmo que ela deve manter: sua soberba e seu arb\u00edtrio, para que possa continuar criando.<\/p>\n<p>DESFA\u00c7ATEZ Pois isso para mim foi o mais impressionante de tudo: a absoluta incapacidade, digamos, interpretativa de quem me atacou, a recusa de ver outra coisa, de relacionar o sentimento de ades\u00e3o ou de repulsa que meu trabalho tenha causado com qualquer coisa proposta por ele, em suma, a desfa\u00e7atez com que foi usado como trampolim para um discurso j\u00e1 pronto, anterior a ele, que via nele apenas uma possibilidade de irradia\u00e7\u00e3o.<br \/>Para isso, \u00e9 claro, o principal ingrediente \u00e9 que fosse tomado de modo absolutamente opaco e literal, esp\u00e9cie de cad\u00e1ver sem significa\u00e7\u00e3o. Para que possa ser ve\u00edculo estrito de discursos e de grupos, sem que utilize seus recursos, digamos, naturais (sedu\u00e7\u00e3o, desejo, ambival\u00eancia), o trabalho de arte tem de estar, de fato, desde o in\u00edcio definitivamente morto. Da\u00ed, creio, a ferocidade com que fui atacado -uma esp\u00e9cie de opera\u00e7\u00e3o higi\u00eanica preventiva, para impedir que qualquer germe de espanto, ambiguidade, beleza, estupor, pudesse aparecer, desqualificando o desejado consenso.<br \/>No fundo, acho que a frase famosa de Frank Stella, que jogou uma p\u00e1 de cal nas ilus\u00f5es subjetivas de come\u00e7os dos anos 60 e inaugurou as po\u00e9ticas minimalistas que duram at\u00e9 hoje, &#8220;What you see is what you see&#8221; (&#8220;O que voc\u00ea est\u00e1 vendo \u00e9 o que voc\u00ea est\u00e1 vendo&#8221;), parece ter migrado da arte para o mundo. A literalidade das obras de um Carl Andre ou de um Donald Judd transferiu-se inteira para as institui\u00e7\u00f5es e para o p\u00fablico.<br \/>Por isso talvez caiba hoje \u00e0 arte a tarefa bastante simples, mas t\u00e3o dif\u00edcil, de dizer exatamente o contr\u00e1rio: &#8220;O que voc\u00ea est\u00e1 vendo N\u00c3O \u00e9 o que voc\u00ea est\u00e1 vendo&#8221;. Ou seja, sonhar. Ou, como diz a letra da can\u00e7\u00e3o, &#8220;Bandeira branca, amor&#8221;.<\/div>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=887\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00f3timo e necess\u00e1rio texto do artista Nuno Ramos que Saiu na Ilustr\u00edssima (FSP) de domingo. 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