{"id":85,"date":"2008-08-25T09:40:00","date_gmt":"2008-08-25T09:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=85"},"modified":"2008-08-25T09:40:00","modified_gmt":"2008-08-25T09:40:00","slug":"somos-fabricados-por-ficcoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=85","title":{"rendered":"Somos fabricados por fic\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Catei essa entrevista ai embaixo do Contardo Calligaris no <a href=\"http:\/\/zerohora.clicrbs.com.br\/zerohora\/jsp\/default2.jsp?uf=1&#038;local=1&#038;source=a2088771.xml&#038;template=3898.dwt&#038;edition=10394&#038;section=1029\">site do Zero Hora<\/a>. Ele esteve em Porto Alegre para um semin\u00e1rio chamado <a href=\"http:\/\/www.fronteirasdopensamento.com.br\/\">FRONTEIRAS DO PENSAMENTO<\/a>. Tamb\u00e9m tem livro novo dele nas livrarias, chama-se O conto do amor e \u00e9 a estr\u00e9ia de Contardo no romance. Ainda n\u00e3o li mas alguns amigos recomendaram bem.<\/p>\n<p><a onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\" href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SLKBmqrN9JI\/AAAAAAAABFw\/KE-XfGNMlMA\/s1600-h\/contardo_calligaris.jpg\"><img style=\"cursor:pointer; cursor:hand;\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SLKBmqrN9JI\/AAAAAAAABFw\/KE-XfGNMlMA\/s400\/contardo_calligaris.jpg\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5238391817875879058\" \/><\/a><\/p>\n<p>02 de agosto de 2008 | Zero Hora<br \/>Somos a hist\u00f3ria que compomos<\/p>\n<p>Cultura &#8211; O senhor poderia antecipar um pouco o tema de sua confer\u00eancia no ciclo Fronteiras do Pensamento?<\/p>\n<p>Contardo Calligaris &#8211; Vou tentar falar sobre o fato de que nossa subjetividade \u00e9 fundamentalmente uma hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria que n\u00f3s contamos a n\u00f3s mesmos, a hist\u00f3ria da nossa vida, digamos assim, e a hist\u00f3ria que contamos aos outros como sendo a nossa, eventualmente a que os outros nos contam como sendo a nossa e que no fundo \u00e9 uma hist\u00f3ria s\u00f3. E uma hist\u00f3ria que \u00e9 constru\u00edda de maneira sempre din\u00e2mica.<\/p>\n<p>Cultura &#8211; Algo que se poderia definir como &#8220;a vida como cria\u00e7\u00e3o de uma narrativa?&#8221;<\/p>\n<p>Calligaris &#8211; Sim, seria a vida como cria\u00e7\u00e3o de uma narrativa e, portanto, regrada muito mais por uma necessidade est\u00e9tica do que \u00e9tica. A id\u00e9ia atual \u00e9 que somos fundamentalmente uma hist\u00f3ria que vamos compondo a partir do que acontece, mas tamb\u00e9m a partir das v\u00e1rias hist\u00f3rias com as quais cruzamos ao longo da nossa vida &#8211; as contadas por outros, as que lemos ou \u00e0s quais assistimos e que constituem um imenso patrim\u00f4nio das hist\u00f3rias poss\u00edveis. Somos essa hist\u00f3ria em progresso, uma maneira de traduzir a express\u00e3o &#8220;in the making&#8221;, algo que vai se fazendo. E isso \u00e9 um tra\u00e7o dito &#8220;espec\u00edfico da modernidade&#8221;, o que \u00e9 verdade apenas para os \u00faltimos 250 anos, e mesmo assim na cultura ocidental. Ent\u00e3o, no fundo, contrariamente ao que pensamos, o que nos dirige na inven\u00e7\u00e3o da nossa vida \u00e9 muito mais um misterioso princ\u00edpio est\u00e9tico do que os princ\u00edpio \u00e9ticos que nos orientam ou que lamentamos que n\u00e3o nos orientam. Porque os princ\u00edpios \u00e9ticos s\u00f3 entram em jogo na constru\u00e7\u00e3o da nossa vida porque colaboram enquanto elemento de uma po\u00e9tica de nossa vida.<\/p>\n<p>Cultura &#8211; Por esse vi\u00e9s, seria essa uma das explica\u00e7\u00f5es para a atual cultura ser pautada pela apar\u00eancia, pela superf\u00edcie, mesmo pela onipresen\u00e7a do entretenimento como valor na cultura?<\/p>\n<p>Calligaris &#8211; Sim. Na medida em que essa narrativa \u00e9 equivalente \u00e0s narrativas em gerais, sejam verbais, sejam visuais, sejam uma mistura de ambas, o que \u00e9 mais freq\u00fcente. Ela faz parte consistente do que a gente chama de entretenimento. Seria muito interessante se fosse verdade plenamente e que n\u00f3s consegu\u00edssemos nos construir em uma atividade que de alguma forma faz parte do jogo, e portanto do entretenimento. Nesse sentido, a gente pode pensar que uma boa po\u00e9tica da vida \u00e9 tamb\u00e9m uma boa arte de viver.<\/p>\n<p>ZH &#8211; Um intelectual norte-americano chamado Neal Gabler escreveu um livro chamado Vida: o Filme, em que prop\u00f5e algo semelhante: que o cinema e a TV forjam na vida contempor\u00e2nea essa necessidade de pensar uma biografia em termos narrativos. O senhor partilha desse ponto de vista?<\/p>\n<p>Calligaris &#8211; Conhe\u00e7o o livro, mas tenho algumas reservas. Concordo plenamente que o cinema transformou nossa po\u00e9tica da vida. Para come\u00e7ar, transformou completamente nossa rela\u00e7\u00e3o com a leitura. N\u00e3o somos hoje os mesmos leitores que poder\u00edamos ter sido h\u00e1 cem anos. Porque o audiovisual mudou nossas escolhas de leitura e mudou tamb\u00e9m a maneira de contar hist\u00f3rias. Mas minha obje\u00e7\u00e3o ao livro \u00e9 que, quando se diz que a nossa tend\u00eancia a pensar a vida como narrativa come\u00e7a no cinema, a gente esquece da imensa popularidade das narrativas liter\u00e1rias no s\u00e9culo 19 e no come\u00e7o do s\u00e9culo 20. Esquece a import\u00e2ncia do folhetim di\u00e1rio no s\u00e9culo 19, quantos romances foram escritos em folhetim de jornal, hoje isso sumiu, mas era freq\u00fcente. Esquece a popularidade do que nos Estados Unidos se chamavam &#8220;romances de 10 centavos&#8221;, uma narrativa de cordel em prosa que se vendia nas esquinas dos mercados. A gente esquece que o western, hist\u00f3rias de bangue-bangue, como se chamavam aqui, muito antes de ser um g\u00eanero cinematogr\u00e1fico, foi um g\u00eanero popular de romances baratos, que se vendia a n\u00fameros absolutamente extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Cultura &#8211; O cinema mudou nossa rela\u00e7\u00e3o com a leitura e a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. Os livros s\u00e3o mais curtos e diretos, na m\u00e9dia. H\u00e1 pouco tempo hoje para leitura?<\/p>\n<p>Calligaris &#8211; Al\u00e9m disso, que tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o, acho que o cinema tamb\u00e9m nos acostumou a percorrer uma narrativa de forma completa em um intervalo de tempo muito limitado, em uma hora e meia, duas horas, e isso mudou nossa capacidade de ler. Como posso dizer? Para a maioria dos leitores contempor\u00e2neos, a primeira parte de Os Sert\u00f5es, A Terra, \u00e9 ileg\u00edvel. Mas \u00e9 ileg\u00edvel porque um travelling de dois minutos em cima da caatinga nos diz de alguma forma as mesmas coisas. Ent\u00e3o, quando a gente come\u00e7a a ler, j\u00e1 est\u00e1 vendo aquilo na cabe\u00e7a e est\u00e1 ansioso para passar ao pr\u00f3ximo cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>Cultura &#8211; O cinema, a publicidade, a televis\u00e3o criaram um banco de imagens ic\u00f4nicas universais que todos mais ou menos compartilham. Isso n\u00e3o acabou tamb\u00e9m por criar uma press\u00e3o por ir direto ao ponto, um conformismo com o estere\u00f3tipo?<\/p>\n<p>Calligaris &#8211; Em geral o que aconteceu, sem d\u00favida, foi que o leitor m\u00e9dio de hoje, com algumas exce\u00e7\u00f5es, gosta de uma narrativa mais r\u00e1pida, inclusive em termos cinematogr\u00e1ficos. Come\u00e7a a ver um filme iraniano ou franc\u00eas e fica pensando: &#8220;Vamos l\u00e1, o que vai acontecer? Por que tanto sil\u00eancio?&#8221;. E o leitor ainda mais. \u00c9 especialmente intolerante a longas descri\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas. Mas eu n\u00e3o acho que isso seja um problema, que a gente tenha de olhar para isso com uma esp\u00e9cie de nostalgia, como se estiv\u00e9ssemos perdendo alguma coisa.<\/p>\n<p>Cultura &#8211; H\u00e1 um entendimento generalizado de que o ser humano hoje sente mais agudamente a solid\u00e3o de seus tempos. Isso tamb\u00e9m se deve \u00e0 dissocia\u00e7\u00e3o entre a narrativa de cada um e a narrativa alheia? Ou a narrativa que algu\u00e9m apresenta de si e a que os outros l\u00eaem dele?<\/p>\n<p>Calligaris &#8211; Isso \u00e9 verdade, mas \u00e9 verdade tamb\u00e9m que existem conex\u00f5es, claro, muito menos do que quando a gente se queixa da falta de grandes ideais coletivos. No fundo, traduzido nos termos do que estou tentando dizer, existem cada vez menos, aparentemente, grandes narrativas coletivas das quais a nossa faria parte. A narrativa do progressivo triunfo do proletariado n\u00e3o tem mais valor como narrativa coletiva. \u00c9 uma outra maneira de dizer que os grandes ideais do s\u00e9culo 20 est\u00e3o no m\u00ednimo sonolentos, se n\u00e3o feridos, sen\u00e3o ainda mortos. Mas acho que a gente n\u00e3o p\u00e1ra de inventar, apesar de tudo, narrativas coletivas. Talvez elas n\u00e3o tenham o mesmo car\u00e1ter universal, aquele sentido de que a narrativa de cada um poderia encontrar seu lugar em uma esp\u00e9cie de Hist\u00f3ria do Mundo, o que \u00e9 um sonho do fim do s\u00e9culo 18 que prossegue pelo s\u00e9culo 19 inteiro e um bom peda\u00e7o do 20. Isso provavelmente acabou. Mas eu n\u00e3o seria t\u00e3o pessimista. Me parece que as narrativas coletivas se fazem e se desfazem talvez com a mesma leveza com a qual podemos ser capazes de fazer e desfazer a pr\u00f3pria narrativa de nossa vida. Porque o interessante em uma narrativa, sobretudo do ponto de vista de algu\u00e9m como eu, que sou psicoterapeuta, \u00e9 que, de alguma forma, ela pode ser desfeita e refeita. \u00c9 um dos grandes caminhos da mudan\u00e7a subjetiva.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=85\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catei essa entrevista ai embaixo do Contardo Calligaris no site do Zero Hora. Ele esteve em Porto Alegre para um semin\u00e1rio chamado FRONTEIRAS DO PENSAMENTO. Tamb\u00e9m tem livro novo dele nas livrarias, chama-se O conto do amor e \u00e9 a estr\u00e9ia de Contardo no romance. 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