{"id":775,"date":"2010-07-06T21:56:00","date_gmt":"2010-07-06T21:56:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=775"},"modified":"2010-07-06T21:56:00","modified_gmt":"2010-07-06T21:56:00","slug":"ana-luiza-nobre-e-guilherme-wisnik","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=775","title":{"rendered":"ANA LUIZA NOBRE E GUILHERME WISNIK"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-family: 'Lucida Grande'; font-size: small;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: 11px;\">Peguei l\u00e1 no <a href=\"http:\/\/www.entre.arq.br\/\">site [ENTRE]<\/a>.<\/span><\/span><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-family: Arial; font-size: 12px;\"><\/span><\/p>\n<div align=\"center\" class=\"entrywhole\">\n<div align=\"left\" class=\"entry\" style=\"padding-bottom: 10px;\">\n<div style=\"text-align: justify;\"><em><img loading=\"lazy\" alt=\"winaln3\" class=\"alignleft\" height=\"105\" src=\"http:\/\/www.entre.arq.br\/tmp2\/img\/winaln3.jpg\" style=\"border-bottom-width: 0px; border-color: initial; border-left-width: 0px; border-right-width: 0px; border-style: initial; border-top-width: 0px; clear: both; float: left; margin-bottom: 4px; margin-left: 4px; margin-right: 4px; margin-top: 4px;\" title=\"winaln3\" width=\"105\" \/><\/em><em>Entre a Bela Cintra, a certa dist\u00e2ncia da Paulista, e um Del\u00edrio Tropical em plena G\u00e1vea, debatemos arquitetura e cidade com arquitetos que n\u00e3o s\u00e3o projetistas. Os editores do site [ENTRE] se dividiram para fazer esta entrevista conjunta com Ana Luiza Nobre, no Rio de Janeiro, e Guilherme Wisnik, em S\u00e3o Paulo. Pelo Skype, a conversa com dois cr\u00edticos e te\u00f3ricos de arquitetura do pa\u00eds abordou temas como o ensino de arquitetura, a cr\u00edtica e seus espa\u00e7os, os m\u00e9todos que utilizam ao produzir textos, e as cidades, em especial o Rio de Janeiro com suas perspectivas futuras. \u00c9 uma entrevista que deixa claro que tamb\u00e9m produz-se&nbsp;arquitetura&nbsp;fora da prancheta.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #652d90;\"><b><br \/><\/b><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #652d90;\"><span style=\"color: red;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\"><\/span><\/strong><\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 O que \u00e9 cr\u00edtica?<\/span><\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA LUIZA NOBRE &#8211;<\/strong>&nbsp;Pergunta dif\u00edcil. Basicamente, cr\u00edtica \u00e9 problema. \u00c9 uma atividade que envolve ju\u00edzo, mas n\u00e3o se confunde com julgamento. Por isso o cr\u00edtico \u00e9, por princ\u00edpio, uma pessoa inc\u00f4moda, na medida em que problematiza e interroga algo existente.<br \/><strong>GUILHERME WISNIK &#8211;<\/strong>&nbsp;Concordo com o que a Ana falou na medida em que a cr\u00edtica envolve um inc\u00f4modo por implicar, primeiramente, num distanciamento \u2013 instaurando um estranhamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra e ao autor da obra \u2013 e, ao mesmo tempo, uma ades\u00e3o, porque a cr\u00edtica tem, como uma das fun\u00e7\u00f5es, impulsionar o trabalho, lev\u00e1-lo para frente, sem interromper, estancar ou bloquear. Assim, esse distanciamento e esse estranhamento existem porque uma ades\u00e3o pura e simples gera uma repeti\u00e7\u00e3o da fala de quem fez, n\u00e3o favorecendo um racioc\u00ednio mais estranho.<br \/>Quando chegamos num lugar, n\u00f3s, como cr\u00edticos, nem sempre somos bem vistos ou, pelo menos, pensamos assim. Mas \u00e9 bom que seja assim, pois se pactuarmos com tudo o que j\u00e1 \u00e9, com as pessoas e com os meios que a\u00ed est\u00e3o, n\u00e3o conseguimos fundar esse lugar da diferen\u00e7a que \u00e9 necess\u00e1rio para poder refletir.<br \/>O t\u00edtulo do meu livro Estado Cr\u00edtico sugere v\u00e1rios significados, tanto em \u201cestado\u201d quanto em \u201ccr\u00edtico\u201d. O \u201cestado\u201d pode ser compreendido tanto como Estado empreendedor, o governo, quanto como uma condi\u00e7\u00e3o de ser. E o \u201ccr\u00edtico\u201d tanto como algu\u00e9m que exerce uma fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica quanto um estado de crise. A jun\u00e7\u00e3o de tudo isso \u00e9 que forma os sentidos que est\u00e3o ali e que tentei dar no t\u00edtulo do livro. Esse estado de crise \u00e9 fundamental para que cr\u00edtica exista.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 Ana, voc\u00ea concorda com esta liga\u00e7\u00e3o entre cr\u00edtica e crise?<\/span><br \/>ANA LUIZA NOBRE &#8211;<\/strong>&nbsp;Concordo: cr\u00edtica e crise s\u00e3o uma \u00fanica coisa. N\u00e3o existe cr\u00edtica sem crise. E, tamb\u00e9m \u00e9 da crise que prov\u00e9m boa parte da dificuldade da atividade cr\u00edtica.<br \/>A cr\u00edtica \u00e9 uma atividade intelectual, de cria\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o, que sempre se d\u00e1 a partir de algo existente. Nesse sentido, pode-se dizer que \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o intelectual de segunda ordem, pois se produz em cima de outro trabalho ou a partir de um di\u00e1logo com outro trabalho.<br \/>O exerc\u00edcio da cr\u00edtica exige tamb\u00e9m uma boa bagagem hist\u00f3rica, porque criticar \u00e9 estabelecer rela\u00e7\u00f5es, tornando vis\u00edveis coisas que est\u00e3o invis\u00edveis. Ent\u00e3o, ao mesmo tempo em que se presume do cr\u00edtico uma certa ades\u00e3o, como diz o Guilherme, tamb\u00e9m espera-se dele uma leitura que tem a ver com aquilo que ele enxerga na obra, enquadrando-a no contexto hist\u00f3rico e cultural em que foi produzida. A cr\u00edtica busca estabelecer essas rela\u00e7\u00f5es sincr\u00f4nicas e diacr\u00f4nicas. \u00c9 muito importante determinar as rela\u00e7\u00f5es entre a obra daquele artista ou arquiteto, em particular, com a hist\u00f3ria da arte ou a hist\u00f3ria da arquitetura.<br \/>A cr\u00edtica n\u00e3o deve ser confundida com opini\u00e3o. Digo isto porque estou entre alunos e o primeiro passo para mim, como professora, \u00e9 fazer os alunos falarem. O segundo passo \u00e9 faz\u00ea-los entender que n\u00e3o basta falar qualquer coisa. A cr\u00edtica n\u00e3o deve ser confundida com a opini\u00e3o que se exerce despreocupadamente, sobretudo no Rio de Janeiro, em ambientes como as mesas de bares e botequins. Acho muito importante demarcar essa posi\u00e7\u00e3o e chegar ao entendimento dessa atividade como uma atividade eminentemente intelectual, que se distingue, por princ\u00edpio, do senso comum. A cr\u00edtica exige bagagem, conhecimento e disponibilidade. E pressup\u00f5e um posicionamento que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel na esfera p\u00fablica.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 Qual \u00e9 a import\u00e2ncia do cr\u00edtico no ensino de arquitetura e na forma\u00e7\u00e3o de um arquiteto?<\/span><br \/>GUILHERME WISNIK &#8211;<\/strong>&nbsp;\u00c9 uma quest\u00e3o complexa. Inicialmente, em minhas aulas na Escola da Cidade, tive um prazer meio s\u00e1dico ao tentar combater os c\u00e2nones modernistas que s\u00e3o os pilares daquela escola. O grupo do qual fa\u00e7o parte, que formou a Escola da Cidade, a criou com uma ideologia extremamente modernista e um tanto dogm\u00e1tica. Logo, os alunos s\u00e3o formados nessa tradi\u00e7\u00e3o. Quando passei a dar aulas de Hist\u00f3ria da Arquitetura Contempor\u00e2nea, que compreende todo per\u00edodo a partir do p\u00f3s-guerra, decidi abrir um caminho de rasgado elogio ao p\u00f3s-moderno. De certa forma, despertou uma possibilidade para os alunos serem cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia da pr\u00f3pria escola, o que considero fundamental. Muitos estudantes tinham vis\u00f5es assim, mas n\u00e3o tinham associado a uma possibilidade discursiva maior. Com isso, noto a abertura de um espa\u00e7o de reflex\u00e3o e de questionamento das pr\u00f3prias bases do que foi ensinado, o que \u00e9 muito importante no momento de pensar arquitetura contempor\u00e2nea, arte e tudo o que se faz hoje; ou seja, ao refletir e projetar o agora. Atrav\u00e9s do estudo de hist\u00f3ria, busco instaurar um estado de crise e reflex\u00e3o com um distanciamento que visa a forma\u00e7\u00e3o de um olhar mais atento sobre hoje.<br \/><strong>ANA LUIZA NOBRE &#8211;<\/strong>&nbsp;Antes de tudo, devo ressaltar que na \u00e9poca em que me formei (final dos anos 80), n\u00e3o existia aula de teoria de arquitetura e muito menos de cr\u00edtica na faculdade. Havia aula de historia, e s\u00f3. Houve uma grande evolu\u00e7\u00e3o nesse sentido. Mas existem grandes diferen\u00e7as entre o curso de arquitetura da PUC-Rio, onde leciono, e a Escola da Cidade. A primeira \u00e9 que a Escola da Cidade \u00e9 um edif\u00edcio. O espa\u00e7o da escola \u00e9 um espa\u00e7o extraordin\u00e1rio em que os alunos podem permanecer o dia inteiro. Na PUC, \u00e9 poss\u00edvel ficar na sala de aula durante as tr\u00eas horas de aula, e quando termina este per\u00edodo, j\u00e1 existem cem alunos de outra disciplina na porta, querendo entrar. N\u00e3o temos nem mais dez minutos para ficar na sala de aula. Nem um ateli\u00ea onde possamos nos encontrar. Isso dificulta muito rela\u00e7\u00f5es que s\u00e3o vitais para um curso de arquitetura. Rela\u00e7\u00f5es que, na Escola da Cidade, podem se dar no sagu\u00e3o da escola, no p\u00e1tio atr\u00e1s do edif\u00edcio ou nas escadas. Existem espa\u00e7os que propiciam encontros fora de sala de aula e s\u00e3o uma extens\u00e3o do aprendizado dentro de sala. No caso da PUC, estamos muito limitados \u00e0 sala e ao hor\u00e1rio da aula.<br \/>Por outro lado, a PUC tem algo muito positivo, mas que \u00e9, ao mesmo tempo, nosso calcanhar de Aquiles: a possibilidade de exercer a cr\u00edtica dentro do ateli\u00ea. E isso porque os professores de Teoria e Hist\u00f3ria se articulam com os professores de Projeto para fazer inser\u00e7\u00f5es no ateli\u00ea. Eu, por exemplo, fa\u00e7o inser\u00e7\u00f5es em ateli\u00eas, para acompanhamento de projetos, que totalizam 45 horas por semestre. Isso quer dizer que sento ao lado dos alunos, converso sobre projeto e ajudo-os a pensar e escrever sobre o que est\u00e3o fazendo. Meu papel ali \u00e9, num certo sentido, ajudar os alunos a encontrar as palavras que os permitam elaborar conceitualmente suas ideias. Isso come\u00e7a no segundo per\u00edodo, h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o no terceiro e depois, alguma continuidade. E d\u00e1 a possibilidade aos professores da \u00e1rea de Teoria e Hist\u00f3ria de cruzar com os alunos na prancheta, fazendo-os compreender que a atividade cr\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 isolada do projeto. Hoje, \u00e9 imposs\u00edvel a divis\u00e3o \u201cvoc\u00ea faz o projeto e eu fa\u00e7o a cr\u00edtica\u201d. Quem projeta est\u00e1 fazendo cr\u00edtica e n\u00e3o pode abrir m\u00e3o disso.<br \/>Neste momento, por exemplo, h\u00e1 um debate em curso no Rio sobre as propostas para a \u00e1rea portu\u00e1ria e as Olimp\u00edadas, que foi muito fomentado pelo Curso de Arquitetura da PUC. A primeira discuss\u00e3o p\u00fablica sobre o projeto do Porto Maravilha, no ambiente da arquitetura, ocorreu dentro da PUC, por iniciativa dos professores do terceiro e quarto per\u00edodos. Alunos e professores quiseram falar; todos tinham algo a dizer, uma quest\u00e3o a colocar. Logo depois fizemos, com os Departamentos de Sociologia e Servi\u00e7o Social, um segundo debate, que reuniu um n\u00famero ainda maior de pessoas e lotou o maior audit\u00f3rio da PUC. Isso demonstra a exist\u00eancia de uma certa massa cr\u00edtica dentro do nosso Curso. \u00c9 importante entender que a cr\u00edtica n\u00e3o se encerra no texto; ela tamb\u00e9m faz parte da atividade projetual e \u00e9 inerente ao viver na cidade. A pr\u00f3pria consci\u00eancia urbana da qual sentimos tanta falta deve ser compreendida como um exerc\u00edcio cr\u00edtico.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 Voc\u00eas poderiam fazer uma compara\u00e7\u00e3o entre o m\u00e9todo de concep\u00e7\u00e3o de um projeto e o m\u00e9todo de concep\u00e7\u00e3o de um texto?<\/span><br \/>GUILHERME WISNIK &#8211;<\/strong>&nbsp;N\u00e3o sei se tenho uma an\u00e1lise formada sobre m\u00e9todo, mas \u00e9 um assunto sobre o qual penso sempre. N\u00e3o somente sobre a compara\u00e7\u00e3o entre texto e projeto de arquitetura, mas tamb\u00e9m entre outras cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas como, por exemplo, composi\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es. No fundo, considero tudo muito parecido. Acho que cada pessoa deve ter um jeito pessoal de abordar essas diversas atividades, e esse jeito deve ser similar para cada uma delas.<br \/>Pessoalmente, apesar de ser um virginiano com mania de organiza\u00e7\u00e3o, quando tenho que fazer alguma coisa criativa, sinto necessidade de tentar apagar as refer\u00eancias e dar uma esp\u00e9cie de mergulho no escuro, n\u00e3o sabendo bem para onde se est\u00e1 indo. Quando compus can\u00e7\u00f5es, fiquei rondando um assunto sem pensar muito bem qual seria o tema sobre o qual ia falar, mas atrav\u00e9s de alguma palavra ou sonoridade descobre-se um caminho enviesado. Ao projetar, voc\u00ea tem um programa, uma \u00e1rea, uma s\u00e9rie de fatores; mas caso voc\u00ea tente resolver diretamente no papel, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9, provavelmente, burocr\u00e1tica. Ent\u00e3o, \u00e0s vezes, tem que ficar rondando com aquilo na cabe\u00e7a para achar um caminho que n\u00e3o \u00e9 o \u00f3bvio. Os textos escritos por mim que mais gosto surgiram de forma semelhante, ou seja, quando sentei para escrever sem saber muito bem no que resultaria. O que n\u00e3o \u00e9 o mais comum para mim, pois, geralmente, tento fazer um roteiro sobre o caminho do texto, sobre o onde ele vai chegar. Assim, voc\u00ea j\u00e1 sabe a conclus\u00e3o, no entanto esse texto \u00e9 menos inspirado. Quando resolve-se escrever sobre uma coisa pela qual est\u00e1 se debatendo, utilizando o momento de escrever como uma grande reflex\u00e3o, fazem-se as situa\u00e7\u00f5es em que a verdadeira reflex\u00e3o de um modo criativo acontece. Exige-se todo um est\u00e1gio de prepara\u00e7\u00e3o, quase ritual\u00edstico, para que isso ocorra. \u00c0s vezes, na hora de produzir um texto, passa-se o dia inteiro sem escrever nada, durante isso voc\u00ea l\u00ea algumas coisas, vai na geladeira mil vezes, deita um pouco, sai para dar uma volta no quarteir\u00e3o e, de repente, engata alguma coisa que faz acontecer aquele texto.<br \/>O m\u00e9todo que fa\u00e7o, desde quando comecei a escrever mais seriamente \u2013 ali\u00e1s, ultimamente, n\u00e3o sei por que o abandonei \u2013 e que funciona bem, \u00e9 pegar um papel A0, coloco-o na mesa e vou escrevendo nele fragmentos de leituras importantes, em forma de esquemas e de roteiros. Ent\u00e3o, naquele papel tem uma densidade enorme de coisas escritas relativas \u00e0quilo que vou escrever e coisas que gravitam em volta. Depois que tudo est\u00e1 naquele papel \u00fanico, eu releio e fico tra\u00e7ando flechas de modo a juntar aquele caos, um emaranhado de coisas. Esse grande mapa me ajuda na hora de organizar o mergulho no escuro.<br \/><strong>ANA LUIZA NOBRE &#8211;<\/strong>&nbsp;A primeira coisa a dizer \u00e9 que n\u00e3o gosto de projetar: detesto obra, cheiro de cimento, ambiente de escrit\u00f3rio, etc. Ent\u00e3o s\u00f3 posso falar da minha maneira pessoal de escrever, que tem a ver com a minha forma\u00e7\u00e3o e, mais especificamente, com o longo per\u00edodo em que fui aluna do Departamento de Hist\u00f3ria da PUC. Na verdade, a minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 mais de cr\u00edtica de arte, e nisso o Ronaldo Brito teve especial import\u00e2ncia, tanto como professor quanto como orientador. Para ele, a cr\u00edtica come\u00e7a com a ida \u00e0 obra, o embate com a obra. E de fato, para mim, esse \u00e9 o ponto inicial, anterior a qualquer outra coisa, a qualquer leitura sobre aquilo, a qualquer pensamento a respeito daquilo. Durante essa experi\u00eancia come\u00e7o a tomar notas, que \u00e0s vezes at\u00e9 acabo perdendo, devido \u00e0 minha desorganiza\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 assim que o texto come\u00e7a a tomar forma. Ent\u00e3o vem a escolha do t\u00edtulo, que passa a me guiar e orientar. N\u00e3o consigo escrever antes de ter um t\u00edtulo. Claro que me permito mudan\u00e7as, mas procuro, em uma, duas ou tr\u00eas palavras, definir aquilo que vai me guiar. O t\u00edtulo \u00e9 basicamente o trabalho; o resto \u00e9 consequ\u00eancia. Depois, acho que o texto tem um caminho pr\u00f3prio e passo a persegu\u00ed-lo. Tamb\u00e9m sou muito visceral: saio, volto, deito, tomo banho, at\u00e9 aquilo sair de alguma maneira. E devo dizer que \u00e9 um enorme sofrimento. \u00c9 um trabalho que me consome muito, inclusive fisicamente. O processo de produ\u00e7\u00e3o de um texto \u00e9 bastante angustiante, e sua conclus\u00e3o \u00e9 sempre extenuante. Morro de inveja das pessoas que sentam no computador e escrevem. Infelizmente, n\u00e3o tenho esse poder e tamb\u00e9m n\u00e3o consigo ter um m\u00e9todo que me permita vencer essas dificuldades. No final, tem um momento em que o texto se conclui um pouco misteriosamente, onde aquilo se fecha. Ent\u00e3o o texto est\u00e1 pronto, naquela vers\u00e3o, para ser publicado. O texto termina quando estou t\u00e3o extenuada que n\u00e3o quero mais saber daquilo. Mas eu o reescrevo depois. Tenho v\u00e1rias vers\u00f5es 2.0 e 3.0 de textos que j\u00e1 foram publicados. O processo de reflex\u00e3o n\u00e3o se conclui junto com o texto. Na verdade, o texto tem um processo \u00e0 parte, que num determinado momento se conclui, mas a reflex\u00e3o continua e, por isso, muitas vezes um texto se desdobra em outras coisas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 Ana, voc\u00ea n\u00e3o projeta, mas orienta projetos de arquitetura. Voc\u00ea transmite um pouco de seu m\u00e9todo para seus alunos, como maneira de incentivar ou problematizar o trabalho deles?<\/span><br \/>ANA LUIZA NOBRE \u2013<\/strong>&nbsp;Confesso considerar-me um pouco ca\u00f3tica. Esfor\u00e7o-me para ter um m\u00e9todo e poder transmiti-lo. Afinal, espera-se de um professor que ele possa transmitir isso aos alunos. No entanto, o que fa\u00e7o principalmente \u00e9 convocar meus alunos a se aventurarem em textos, obras, projetos. Acho importante que compreendam que o texto \u00e9, em muitos casos, uma parte do projeto, e como tal tamb\u00e9m envolve escolhas e riscos.<br \/>Em geral, come\u00e7o instigando o aluno a buscar as palavras do projeto. Essa busca ocorre na conversa com&nbsp;o aluno, no embate com o projeto que est\u00e1 ali na nossa frente, e tem o objetivo de ajud\u00e1-lo a elaborar conceitualmente o projeto e esclarecer para si pr\u00f3prio o que ele est\u00e1 fazendo. Isso funciona um pouco como a escolha do t\u00edtulo para o meu texto, ou seja, como aquilo que orienta o percurso do pensamento.<br \/>\u00c9 o m\u00e1ximo que posso fazer, porque n\u00e3o me sinto no direito de exigir do aluno que siga um modus operandi meu, quando eu pr\u00f3pria tenho tantas d\u00favidas. Ent\u00e3o, ajudo-o a entender a necessidade da elabora\u00e7\u00e3o conceitual como parte do projeto. Mas incentivo-o tamb\u00e9m a elaborar o seu pr\u00f3prio m\u00e9todo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 Guilherme, como foi sua forma\u00e7\u00e3o at\u00e9 a decis\u00e3o de que n\u00e3o seria um arquiteto de projeto, mas sim um arquiteto de cr\u00edtica?<\/span><br \/>GUILHERME WISNIK \u2013<\/strong>&nbsp;Quando entrei na FAU-USP, a revista Caramelo, que era feita pelo gr\u00eamio dos alunos e existia h\u00e1 pouco tempo na faculdade, estava abrindo para o envio de artigos de qualquer pessoa, inclusive alunos. O primeiro ano de faculdade n\u00e3o foi f\u00e1cil para mim, porque eu sa\u00ed de uma escola onde era completamente enturmado e entrei na FAU, que \u00e9 um edif\u00edcio maravilhoso mas muito grande, inserido no campus da USP, aquele lugar disperso, sem que encontrasse algu\u00e9m conhecido durante o dia. Diante desse grande vazio, a possibilidade de escrever um texto para uma revista era muito interessante. Eu o escrevi, enviei, foi aceito e publicado na Caramelo 3. O texto tem um tom meio de piada, no qual criticava o ambiente da FAU e, de modo juvenil, fazia v\u00e1rias cita\u00e7\u00f5es de autores fict\u00edcios de nome alem\u00e3o, e tamb\u00e9m inventava livros. Foi o meu primeiro texto publicado.<br \/>No ano seguinte, passei a fazer parte da nova safra de estudantes que colaboravam para a revista e faz\u00ea-la foi, para mim, uma inser\u00e7\u00e3o no ambiente da faculdade. Este meu grupo chegou a faz\u00ea-la de modo aut\u00f4nomo nos n\u00fameros 7 e 8. Ao mesmo tempo, trabalhei com cen\u00e1rio da pe\u00e7a Bacantes, no Teatro Oficina, no escrit\u00f3rio do Paulo Mendes da Rocha, na produ\u00e7\u00e3o da Bienal de S\u00e3o Paulo e fazia uma bolsa de inicia\u00e7\u00e3o cientifica no Departamento de Hist\u00f3ria. \u00c9 curioso, pois observando hoje, n\u00e3o sei como eu fazia todas essas coisas ao mesmo tempo dentro de uma faculdade em per\u00edodo integral.<br \/>A Ana ressaltou a import\u00e2ncia do Ronaldo Brito na forma\u00e7\u00e3o dela. N\u00e3o sei se tive algu\u00e9m t\u00e3o formador no meu caminho. Na faculdade, o Paulo Mendes da Rocha foi mais do que um grande professor de projeto. N\u00e3o sei como definir a import\u00e2ncia do Paulo para quem o teve como professor. Ele \u00e9 capaz de abrir a cabe\u00e7a de todos ao nos deixar em um estado de inquieta\u00e7\u00e3o profunda permanente. Diferentemente da maioria dos professores de projeto que davam somente atendimento de projeto, o Paulo deixava todos em crise com a pr\u00f3pria vida e com o mundo.<br \/>Outra pessoa importante na minha gradua\u00e7\u00e3o foi um professor de Hist\u00f3ria Antiga chamado Jonas Malaco. Especialista em Atenas, ele deu uma disciplina sobre fundamentos sociais da arquitetura e urbanismo antigo, com foco na Gr\u00e9cia. Passei a segui-lo, fazendo as optativas que ele oferecia. \u00c9 engra\u00e7ado: por causa dos meus estudos sobre a Gr\u00e9cia que, pela primeira vez, considerei estudar mais seriamente, pensando, escrevendo e fazendo cr\u00edtica. Meu trabalho final de gradua\u00e7\u00e3o na FAU n\u00e3o foi um projeto, mas sim um trabalho te\u00f3rico. Fato que indicava meu futuro caminho, mesmo que naquele momento eu achasse que seria arquiteto e, durante algum tempo, fui mesmo. Mas o meu TFG [Trabalho Final de Gradua\u00e7\u00e3o] foi um estudo te\u00f3rico sobre a origem da cidade na Mesopot\u00e2mia e na Gr\u00e9cia; ou seja, uma tentativa de pensar o que \u00e9 a cidade na sua origem, por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 aldeia. Quando passa a ser cidade? O que \u00e9 o que chamamos de cidade? Enfim, foi um trabalho muito influenciado pelo professor Jonas. Atrav\u00e9s dos livros do Jean-Pierre Vernant sobre a Gr\u00e9cia, que abordavam o espa\u00e7o pol\u00edtico, o plano ortogonal, o desenho informal (org\u00e2nico contra o geom\u00e9trico), que, pela primeira vez, pensei na possibilidade da pol\u00edtica estar associada ao urbanismo. A palavra grega polis d\u00e1 origem ao termo pol\u00edtica. A rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e urbanismo \u00e9 direta. O desenho urbano \u00e9 pol\u00edtico. Apesar de esse pensamento estar ligado \u00e0 Antiguidade, ele me acendia para quest\u00f5es contempor\u00e2neas.<br \/>Curiosamente, at\u00e9 achei que, talvez, me tornaria um estudioso da antiguidade, mas logo entrei em crise com esta possibilidade, pois n\u00e3o queria fazer uma op\u00e7\u00e3o t\u00e3o restrita. Nesse momento, apareceu para mim a figura do Rodrigo Naves, que \u00e9 equivalente ao que Ronaldo Brito \u00e9 para a Ana Luiza. Ao fazer os cursos dados por ele, me aproximei da ideia de cr\u00edtica de arte e arquitetura contempor\u00e2nea. Ele me incentivou a escrever sobre atualidade, na \u00e9poca em que estava organizando a cole\u00e7\u00e3o Espa\u00e7o da Arte Brasileira pela Cosac Naify.<br \/>Outra pessoa importante nesse percurso foi o Pedro Arantes, meu amigo desde a FAU, que tamb\u00e9m me puxava para a ideia de pensar o mundo de hoje. Ao ser muito critico \u00e0 arquitetura paulista e ao edif\u00edcio da FAU \u2013 aproximando-se mais dos ensinamentos da Lina Bo Bardi e do S\u00e9rgio Ferro \u2013, ele me fez observar um caminho por onde comecei a pensar no Lucio Costa como uma figura, no Rio de Janeiro e no Brasil, importante em um pensamento mais amplo sobre arquitetura. E passei a me interessar, atrav\u00e9s do trabalho de Lucio Costa, pela possibilidade de compreender a forma\u00e7\u00e3o brasileira junto com a hist\u00f3ria, sociologia, literatura e a arquitetura.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 Ana, como foi sua gradua\u00e7\u00e3o?<\/span><br \/>ANA LUIZA NOBRE &#8211;<\/strong>&nbsp;Fui uma p\u00e9ssima aluna! Meu curso de arquitetura foi muito ruim. Formei-me em 1986, na FAU-UFRJ. Era um per\u00edodo de muita desarticula\u00e7\u00e3o na escola. Os bons professores por vezes n\u00e3o apareciam para dar aula. A palavra \u201ccr\u00edtica\u201d n\u00e3o existia dentro da escola. Tudo era focado em projeto e este se resumia a composi\u00e7\u00e3o.<br \/>Como eu gostava de ler e escrever, tentava me aproximar dos professores de hist\u00f3ria, mas n\u00e3o era f\u00e1cil. S\u00f3 tive um professor, o Alfredo Britto, que falava de arquitetura moderna. De resto, arquitetura moderna n\u00e3o era assunto dentro da escola. Nunca tive uma aula sobre Le Corbusier, por exemplo. E foi essa falta, de um certo modo, que me moveu depois. Quando terminei a faculdade, percebi que minha forma\u00e7\u00e3o era muito incompleta, ainda mais porque eu n\u00e3o queria fazer projeto. Ent\u00e3o fui fazer o Curso de Especializa\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Arte e Arquitetura no Brasil, no Departamento de Historia da PUC-Rio. Ao terminar esse curso, fui estudar dois anos na It\u00e1lia. Mas o curso que fiz em Turim tamb\u00e9m era ruim. Ent\u00e3o fui buscar o Manfredo Tafuri. Eu pegava um trem todo s\u00e1bado pela manh\u00e3 de Turim para Veneza, assistia \u00e0 aula dele e, depois, voltava para Turim. Era uma coisa meio insana, mas estava indo atr\u00e1s do professor que considerava importante. Ali\u00e1s, sempre fui muito mais atr\u00e1s do professor do que da escola. Isso provavelmente tem a ver com o fato de eu ter estudado em ambientes que n\u00e3o eram propriamente escolas (Rio de Janeiro e Turim), diferentemente do Guilherme, por exemplo, que estava em uma escola muito forte.<br \/>Os professores que mais me marcaram foram o Manfredo Tafuri, o Ronaldo Brito, e mais tarde o Alcides Rocha Miranda, que foi um grande mestre para mim. Ele foi objeto da minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, e mesmo j\u00e1 tendo quase noventa anos quando nos conhecemos, tornou-se uma presen\u00e7a muito pr\u00f3xima. Ele me ensinou a enxergar as coisas de uma maneira muito particular. Nossa conversa n\u00e3o era em um ambiente acad\u00eamico, mas no sof\u00e1 da casa dele. Ou seja, nem sempre a forma\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em um ambiente acad\u00eamico. Na falta de uma escola, tamb\u00e9m podemos cobrir as lacunas da nossa forma\u00e7\u00e3o buscando aquelas pessoas que t\u00eam algo a dizer para n\u00f3s. Mas para isso \u00e9 fundamental identific\u00e1-las.<br \/>Al\u00e9m disso, posso dizer que faz parte da minha forma\u00e7\u00e3o o per\u00edodo de dois anos que passei em S\u00e3o Paulo, trabalhando na revista AU. Foi um certo desvio, sair do Rio para S\u00e3o Paulo para trabalhar em uma editora, imaginando que seria poss\u00edvel fazer cr\u00edtica numa revista comercial. Mas aprendi muito trabalhando com jornalistas como Haifa Sabbag e Jos\u00e9 Wolf.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 Voc\u00eas afirmaram que a cr\u00edtica, necessariamente, se d\u00e1 na esfera p\u00fablica. Observando suas atua\u00e7\u00f5es \u2013 a Ana escreve no blog Posto 12 e o Guilherme Wisnik tinha uma coluna na Folha de S\u00e3o Paulo \u2013, o que poderiam falar sobre esses espa\u00e7os que a cr\u00edtica tem? Qual seria o espa\u00e7o que melhor responderia \u00e0s demandas da nossa \u00e9poca?<\/span><br \/>ANA LUIZA NOBRE &#8211;<\/strong>&nbsp;Nunca pensei em dar aula, mas foi o espa\u00e7o que encontrei: o espa\u00e7o de liberdade da escola. Sobretudo no Brasil, onde n\u00e3o h\u00e1 muitas outras possibilidades, o ambiente acad\u00eamico \u00e9 o melhor espa\u00e7o para a cr\u00edtica, a discuss\u00e3o e a reflex\u00e3o. E \u00e9 fundamental que seja assim.<br \/>As revistas n\u00e3o representam mais um espa\u00e7o confi\u00e1vel. Sinceramente, tenho me recusado a escrever para as revistas comerciais. Hoje em dia, existem outros espa\u00e7os que me parecem muito mais adequados, como a Internet. Da\u00ed a ideia de fazer o blog, um meio que me d\u00e1 grande autonomia porque n\u00e3o dependo dos outros para publicar. O blog oferece liberdade para pensar, pois n\u00e3o existe a necessidade de submeter o que foi escrito a editores que muitas vezes tem interesses distintos dos seus. Al\u00e9m disso, o blog \u00e9 importante tamb\u00e9m pela imediaticidade: tudo o que acontece \u00e9 colocado rapidamente l\u00e1 e, assim, a cr\u00edtica pode ser exercida cotidianamente. Nem as revistas eletr\u00f4nicas t\u00eam mais esse car\u00e1ter. De certa maneira, elas envelheceram. O processo de passar por um conselho de editores, revisores de texto, editores de imagens etc. \u00e9 longo. Muitas coisas j\u00e1 n\u00e3o podem esperar tanto tempo. A situa\u00e7\u00e3o que o Rio de Janeiro vive hoje, por exemplo, n\u00e3o pode esperar nem uma semana. Portanto, o blog \u00e9 fruto da minha necessidade de conquistar um espa\u00e7o p\u00fablico em que eu tivesse autonomia total.<br \/>Mas \u00e9 importante manter, em paralelo, outras formas de atua\u00e7\u00e3o. A escola e o blog n\u00e3o bastam. Estou fazendo o roteiro de um filme com apoio da FAPERJ, por exemplo. E quando posso, fa\u00e7o exposi\u00e7\u00f5es. Cr\u00edtica n\u00e3o \u00e9 somente texto. \u00c9 necess\u00e1rio buscar novas linguagens, novas m\u00eddias, espa\u00e7os alternativos. N\u00e3o existe um sistema que nos garanta um espa\u00e7o cr\u00edtico. Ent\u00e3o n\u00f3s mesmos devemos criar essas redes, com apoio das institui\u00e7\u00f5es e dos meios existentes, como a internet, revistas ou jornais, e abrir uma interlocu\u00e7\u00e3o com outras \u00e1reas. Se pensarmos que a cr\u00edtica s\u00f3 pode se dar nos espa\u00e7os da arquitetura, estamos fritos.<br \/><strong>GUILHERME WISNIK &#8211;<\/strong>&nbsp;Complementando o que foi dito pela Ana Luiza, acredito que se deve agir de modo enf\u00e1tico no que \u00e9 o meio arquitet\u00f4nico stricto sensu, por meio do IAB e de outras institui\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 necess\u00e1rio ampliar esse leque para outras \u00e1reas, atuando de maneira multidisciplinar, seja atrav\u00e9s de exposi\u00e7\u00f5es, filmes, pe\u00e7as de teatro.<br \/>Por exemplo, o Teatro Oficina, ao encenar Os Sert\u00f5es, se inseriu na discuss\u00e3o sobre a expuls\u00e3o dos sem-teto do edif\u00edcio Prestes Maia. Gerou-se uma grande converg\u00eancia de quest\u00f5es da ordem do teatro, da literatura do livro do Euclides da Cunha, que foi um evento pol\u00edtico importante do fim do s\u00e9culo XIX, e de quest\u00f5es candentes de S\u00e3o Paulo nesses anos 2000, como o centro da cidade e os sem-teto. Esse tipo de n\u00f3 \u00e9 o que chamo de cr\u00edtica. Em outro exemplo, o Tablado de Arruar, que \u00e9 um grupo de teatro de rua aqui de S\u00e3o Paulo, fez uma pe\u00e7a que \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o do livro da Mariana Fix sobre a Opera\u00e7\u00e3o Urbana da \u00c1gua Espraiada. Estes cruzamentos s\u00e3o muito interessantes.<br \/>Apesar de, pessoalmente, n\u00e3o ter uma a\u00e7\u00e3o muito grande na internet, a considero o meio mais adequado ao nosso tempo. Recentemente, colaborei para um jornal chamado \u201cATUAL \u2013 o \u00faltimo jornal da Terra\u201d, fundado pelo S\u00e9rgio Cohn, criador da Azougue. Na verdade, ele \u00e9 um fanzine impresso em papel jornal e distribu\u00eddo de gra\u00e7a numa tiragem alta. Assim, com essa grande distribui\u00e7\u00e3o e conte\u00fado aberto, torna-se uma situa\u00e7\u00e3o similar \u00e0 internet. Os grandes ve\u00edculos de m\u00eddia, como a Folha de S\u00e3o Paulo e Estado de S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m s\u00e3o fundamentais, apesar de todos seus problemas, para veicular e debater publicamente essas ideias.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 Que perspectivas voc\u00eas v\u00eaem para a cidade do Rio de Janeiro e sua arquitetura?<\/span><br \/>GUILHERME WISNIK &#8211;<\/strong>&nbsp;A Copa do Mundo de futebol e as Olimp\u00edadas s\u00e3o fatos gigantescamente importantes hoje e nos pr\u00f3ximos anos para o Brasil. Ao que parece, as decis\u00f5es sobre o que ser\u00e1 feito com todo investimento est\u00e3o acontecendo de maneira n\u00e3o p\u00fablica, por debaixo dos panos, ou seja, do pior modo poss\u00edvel. \u00c9 uma grande chance hist\u00f3rica que est\u00e1 sendo posta nas m\u00e3os do Brasil. A ideia da chance \u00e9 muito ideol\u00f3gica, como um discurso para ingl\u00eas ver, mas, de certo modo, h\u00e1 algo de verdade nisso, uma vez que o olhar do mundo parece que se voltou para o Brasil, o elegendo como bola da vez, representante da Am\u00e9rica Latina na globaliza\u00e7\u00e3o e ocupando um espa\u00e7o de grandeza no concerto das na\u00e7\u00f5es. Isso significa que o Brasil vai de fato se globalizar nos pr\u00f3ximos anos; n\u00e3o o pa\u00eds inteiro, mas uma parcela. O Rio de Janeiro \u00e9 o foco principal, mas tamb\u00e9m apenas uma parcela dele. Globalizar significa receber investimentos maci\u00e7os e tamb\u00e9m pagar por eles em obras que correspondem a uma expectativa global em termos de arquitetura, infraestrutura, urbanismo e tamb\u00e9m participar de um movimento global de dinheiro, pessoas, turismo e mercadorias.<br \/>Apesar de todos os problemas do governo Lula, parece que, diplomaticamente, o Brasil alcan\u00e7ou um patamar importante nesta nova ordem mundial que est\u00e1 se desenhando, pela estabilidade econ\u00f4mica, pelo que representa ideologicamente e por uma certa confiabilidade que transmite. No entanto, tudo que est\u00e1 ligado a urbanismo, principalmente no Rio de Janeiro, n\u00e3o acompanhou esse salto. As a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas no espa\u00e7o p\u00fablico carioca continuam a ser daninhas, patrimonialistas, corruptas, tacanhas, visando o privil\u00e9gio de poucos, mantendo todas as contradi\u00e7\u00f5es e exclus\u00f5es, e embalando a cidade numa face tur\u00edstica e globalizada no pior sentido. Parece que o Rio de Janeiro n\u00e3o est\u00e1 escolhendo um caminho que gere efeitos positivos, como aconteceram em alguns mega eventos como esses \u2013 sendo Barcelona 92 tratada como o caso mais emblem\u00e1tico. Por isso, o nosso papel como cr\u00edticos \u00e9 vital. Tudo que fizemos at\u00e9 hoje como cr\u00edtica de arquitetura e urbanismo no Brasil \u00e9 nada, tendo em vista o que precisaremos fazer nos pr\u00f3ximos anos. Vamos precisar ocupar p\u00e1ginas importantes dos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o para trazer essas discuss\u00f5es \u00e0 tona. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil, mas se n\u00e3o fizermos isso, seremos grandes perdedores.<br \/><strong>ANA LUIZA NOBRE \u2013&nbsp;<\/strong>A situa\u00e7\u00e3o do Rio \u00e9 muito emergencial e alarmante. V\u00e1rios projetos est\u00e3o surgindo cotidianamente na m\u00eddia: um vai atropelando o outro sem que haja qualquer correla\u00e7\u00e3o entre eles. A cidade est\u00e1 sendo pensada como uma s\u00e9rie de polos segmentados: Zona Portu\u00e1ria, Barra da Tijuca, as instala\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas que se espalham pela cidade\u2026 Mas n\u00e3o existe sequer um Plano Diretor, j\u00e1 que o nosso \u00e9 de 1992. Como o Plano Diretor \u00e9 decenal, o Plano do Rio deveria ter passado por um processo de revis\u00e3o em 2002, ou seja, estamos atrasados oito anos!<br \/>Em um debate em outubro, no IAB, t\u00e9cnicos da prefeitura apresentaram estes projetos como o \u201cnovo urbanismo\u201d,&nbsp;que eles dizem ser&nbsp;uma nova maneira de projetar, em que n\u00e3o se pensa a cidade como um todo. Ora, isso \u00e9 uma fal\u00e1cia. N\u00e3o sabemos sequer quem est\u00e1 por tr\u00e1s desses projetos. N\u00e3o existe um autor, ou dois, ou dez. Os projetos v\u00e3o pipocando e temos feito um esfor\u00e7o enorme para, pelo menos, identificar alguns autores, e mesmo quando essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 solicitada, ela \u00e9 negada. H\u00e1 muitos interesses em jogo e grandes imobili\u00e1rias, grandes empresas e corpora\u00e7\u00f5es que est\u00e3o orquestrando isso.<br \/>Hoje, o Rio de Janeiro est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o invej\u00e1vel, devido ao alinhamento entre os poderes municipal, estadual e federal, e a uma s\u00e9rie de eventos j\u00e1 confirmados, como a Copa do Mundo, os Jogos Ol\u00edmpicos e at\u00e9 uma Olimp\u00edada Gay. A revitaliza\u00e7\u00e3o da \u00e1rea portu\u00e1ria, proposta h\u00e1 trinta anos, est\u00e1 em vias de ser concretizada. Mas o primeiro projeto do Porto Maravilha, por exemplo, \u00e9 uma pracinha com arco triunfal, quiosques e espelho d\u2019\u00e1gua em pleno P\u00eder Mau\u00e1. E como havia pressa, o pr\u00f3prio Secret\u00e1rio de Urbanismo, engenheiro S\u00e9rgio Dias, fez o projeto. Isso n\u00f3s s\u00f3 ficamos sabendo agora. Mas \u00e9 um exemplo de como as informa\u00e7\u00f5es sobre os projetos para a cidade v\u00e3o surgindo em um ritmo alucinante que ningu\u00e9m consegue acompanhar, nem mesmo os vereadores que precisam aprovar ou n\u00e3o estes projetos.<br \/>N\u00e3o est\u00e3o sendo sequer cogitados concursos p\u00fablicos de projetos de arquitetura. A n\u00e3o ser um, para o marco ol\u00edmpico do Rio de Janeiro. O IAB foi convocado a organizar o concurso e o prefeito diz que o marco ficar\u00e1, provavelmente, em cima de algum morro, como uma pira ol\u00edmpica eterna. Isso mesmo: uma pira ol\u00edmpica eterna!<br \/>\u00c9 importante que isso ganhe uma dimens\u00e3o que ainda n\u00e3o tem. A discuss\u00e3o n\u00e3o pode ser restrita ao Rio. Tem que ganhar uma dimens\u00e3o nacional, afinal o Rio \u00e9 uma cidade importante para o Brasil, um s\u00edmbolo em v\u00e1rios sentidos. N\u00e3o \u00e9 um problema somente das pessoas que moram no Rio. As pessoas e a m\u00eddia de S\u00e3o Paulo t\u00eam que fazer seu papel. Todo mundo tem que se mobilizar. Afinal, estamos correndo o risco de que o pouco que resta de urbanidade nesta cidade seja destru\u00eddo por esse processo avassalador. Nem estou entrando na quest\u00e3o mais qualitativa, embora eu devesse falar disso tamb\u00e9m. O argumento da \u201cceleridade\u201d, muito utilizado nos discursos da prefeitura, tem sido justificativa para tudo, mas a maneira como o futuro do Rio de Janeiro est\u00e1 sendo conduzido \u00e9 assustadora.<br \/>A Revista de Domingo do jornal O Globo, por exemplo, convocou algumas pessoas, que ela chamou de \u201ccidad\u00e3os do bem\u201d, para apresentarem propostas para o Rio, numa dobradinha com os arquitetos, que desenhar\u00e3o essas ideias. E os arquitetos, ingenuamente, se submeteram a isso! \u00c9 uma confus\u00e3o absoluta: h\u00e1 uma grande incompreens\u00e3o sobre a ideia de projeto. O que \u00e9 um projeto? \u00c9 um projeto de lei, uma ideia, ou um projeto de cidade? Ent\u00e3o algu\u00e9m prop\u00f5e fazer uma cal\u00e7ada rolante ligando o MAM ao aeroporto; o outro prop\u00f5e um trenzinho ligando o aeroporto ao Hotel Gl\u00f3ria; ou seja, cada um tem uma ideia. Apresenta-se isso ao prefeito e ele vai comprando essas ideias. A gente n\u00e3o pode aceitar isso, mesmo porque estamos falando do Rio de Janeiro!<br \/>Vamos aproveitar a oportunidade para alavancar a arquitetura e o urbanismo no Rio de Janeiro e pensar a cidade. Tirar a cidade e a arquitetura feita aqui desse buraco. Mas para isso n\u00f3s, professores, cr\u00edticos, alunos, precisamos nos posicionar e nos mobilizar. Temos que entender que a discuss\u00e3o sobre a cidade n\u00e3o \u00e9 uma discuss\u00e3o arquitet\u00f4nica ou urban\u00edstica, exclusivamente. H\u00e1 de se conversar com todos. Tenho ido at\u00e9 a audi\u00eancias p\u00fablicas na C\u00e2mara dos Vereadores. Converso com vereadores e secret\u00e1rios, procurando mobilizar e alargar essa discuss\u00e3o. Isso tudo para que a cidade permane\u00e7a minimamente habit\u00e1vel. Se as coisas continuarem a serem tocadas com essa irresponsabilidade, daqui a sete anos vamos acordar e s\u00f3 enxergaremos o Corcovado, porque o resto vai acabar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #652d90;\">ENTRE \u2013 O que \u00e9 arquitetura?<\/span><br \/>GUILHERME WISNIK &#8211;<\/strong>&nbsp;Vou usar um subterf\u00fagio e come\u00e7ar a responder como um erudito. A palavra \u201carquitetura\u201d \u00e9 origin\u00e1ria do grego arkh\u00e9 e t\u00e9kton. Arkh\u00e9 \u00e9 um termo interessante por ter diversos sentidos: origem, como algo que est\u00e1 no princ\u00edpio, e, ao mesmo tempo, comando. Arkh\u00e9 \u00e9 uma palavra fundamental na Teogonia de Hes\u00edodo, que aborda a origem do mundo. T\u00e9kton est\u00e1 ligado a tudo que \u00e9 constru\u00eddo pela t\u00e9cnica, ou seja, tect\u00f4nica. Nesse sentido, arquitetura \u00e9 aquilo que est\u00e1 na origem e no comando de todas as constru\u00e7\u00f5es. Arquitetura j\u00e1 foi isso. Hoje em dia, \u00e9 muito menos. Chegamos em um ponto em que os arquitetos est\u00e3o se submetendo a desenhar ideias pensadas por \u201ccidad\u00e3os do bem\u201d. Mas \u201carquitetura\u201d \u00e9 um termo que pode ser utilizado em muitos sentidos. Arquitetar alguma coisa \u00e9 engendrar, construir um discurso, construir algo que para de p\u00e9, seja este concreto ou n\u00e3o. Arquitetura \u00e9 um princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o das coisas.<br \/><strong>ANA LUIZA NOBRE &#8211;<\/strong>&nbsp;Arquitetura \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o do ambiente da vida humana.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=775\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peguei l\u00e1 no site [ENTRE]. Entre a Bela Cintra, a certa dist\u00e2ncia da Paulista, e um Del\u00edrio Tropical em plena G\u00e1vea, debatemos arquitetura e cidade com arquitetos que n\u00e3o s\u00e3o projetistas. Os editores do site [ENTRE] se dividiram para fazer esta entrevista conjunta com Ana Luiza Nobre, no Rio de Janeiro, e Guilherme Wisnik, em &hellip;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=775\" class=\"more-link\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/775"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=775"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/775\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}