{"id":735,"date":"2010-06-02T06:28:00","date_gmt":"2010-06-02T06:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=735"},"modified":"2010-06-02T06:28:00","modified_gmt":"2010-06-02T06:28:00","slug":"o-campo-todo-fraturado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=735","title":{"rendered":"O campo todo fraturado"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both; margin: 0px; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/TAZUNNfKPDI\/AAAAAAAADHQ\/DpwVtpAFaO0\/s1600\/campo+fraturado_02.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img loading=\"lazy\" border=\"0\" height=\"303\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/TAZUNNfKPDI\/AAAAAAAADHQ\/DpwVtpAFaO0\/s400\/campo+fraturado_02.jpg\" width=\"400\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">O campo todo fraturado, 2010<\/span><br \/><span style=\"font-size: xx-small;\">a\u00e7o 1020 com resina sint\u00e9tica, dimans\u00f5es vari\u00e1veis<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<div style=\"text-align: left;\">Segue abaixo a coluna do Francisco Bosco de hoje no Segundo Caderno d&#8217;O Globo. Ao fim do texto ele menciona o trabalho acima. Uma honra ser citado pelo escritor-pensador-letrista que vem ocupando sua coluna no Globo com textos maravilhosos a cada quarta. Pra quem n\u00e3o conhece o autor recomendo a leitura do pequeno Banalogias que saiu pela Objetiva e <a href=\"http:\/\/www.travessa.com.br\/Busca.aspx?d=1&amp;cta=1&amp;tt=banalogias\">no site da livraria da Travessa<\/a> sai por R$30,16. L\u00e1 vai&#8230;<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><b>Limpando a \u00e1rea<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\">O escritor Paul Val\u00e9ry costumava dizer que antes de se proceder a uma investiga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 recomend\u00e1vel &#8220;uma limpeza da situa\u00e7\u00e3o verbal&#8221;. Pouco visitada pelos fil\u00f3sofos, a \u00e1rea discursiva do futebol anda precisando de um bom ajuste conceitual para clarificar suas figuras de jogo. \u00c0s v\u00e9speras da Copa do Mundo, apresento aqui tr\u00eas verbetes do que, com o tempo, pode vir a ser um Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico do Futebol.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><i><br \/><\/i><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><i>Paradinha e Cavadinha<\/i> &#8211; A International Board, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelas regras do futebol, acaba de proibir, para al\u00edvio dos goleiros, a famigerada paradinha. Esta se caracteriza por uma finta que o batedor do p\u00eanalti faz no momento de chutar a bola, induzindo o goleiro a saltar antes do chute e, assim, deixar um lado do gol vazio para o batedor. O ponto que interessa mostrar aqui \u00e9 o seguinte: o fundamento dessa proibi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 legal, e sim moral. A paradinha n\u00e3o infringe nenhuma lei do futebol. Prova disso \u00e9 que o mesmo recurso continua a poder ser usado em cobran\u00e7as de faltas. Nessa, um jogador pode fingir que vai bater, enquanto o outro vem por tr\u00e1s e bate, enganando o goleiro segundo o mesmo princ\u00edpio da paradinha.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\">Da perspectiva legal, um jogador pode fazer o que quiser at\u00e9 tocar a bola e esta girar sobre seu pr\u00f3prio eixo; s\u00f3 a\u00ed o jogo recome\u00e7a. A paradinha n\u00e3o infringe essa lei. Sua proibi\u00e7\u00e3o, portanto, tem outro fundamento, de ordem moral. A paradinha \u00e9 uma covardia contra o goleiro. Ela \u00e9 um recurso a mais a favor de algu\u00e9m &#8211; o batedor &#8211; que j\u00e1 se encontra em posi\u00e7\u00e3o favorecida. H\u00e1 algo de vil\u00e3o de telecatch no batedor que emprega a paradinha. \u00c9 pena que Nelson Rodrigues, o maior escritor da dimens\u00e3o moral do futebol, n\u00e3o p\u00f4de escrever sobre ela.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\">Seu oposto sim\u00e9trico \u00e9 a chamada cavadinha. Nesta, o batedor aposta todas as suas fichas que conseguir\u00e1 deslocar o goleiro apenas pela inten\u00e7\u00e3o do corpo durante a corrida em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 bola. No instante do chute, ele toca levemente a bola, em geral no meio do gol. \u00c9 um lance her\u00f3ico, de grandeza moral. Por ele, o batedor se exp\u00f5e ao fracasso retumbante: o goleiro, se n\u00e3o for fintado, pode matar a bola no peito e sair jogando. N\u00e3o deve ser por acaso, diria Nelson, que o \u00faltimo a fazer isso chamava-se Loco.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><i><br \/><\/i><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><i>A regra \u00e9 clara<\/i> \u2013 O bord\u00e3o iluminista do ex-juiz Arnaldo C\u00e9sar Coelho \u00e9 de uma inutilidade \u00e0 toda prova. Pois, se a regra \u00e9 clara, o jogo n\u00e3o o \u00e9. A regra do impedimento, por exemplo, \u00e9, em si, clara: estar\u00e1 impedido o jogador se receber uma bola e n\u00e3o houver no m\u00ednimo um advers\u00e1rio, al\u00e9m do goleiro (portanto dois, na falta deste), atr\u00e1s da linha imagin\u00e1ria em que ele se encontra. No jogo, contudo, essa f\u00f3rmula simples se complica. \u00c0s vezes at\u00e9 mesmo no &#8220;tira-teima ficamos em d\u00favida quanto a como aplic\u00e1-la.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\">E isso \u00e9 s\u00f3 o aspecto da regra menos suscet\u00edvel a d\u00favidas. A coisa se confunde mesmo quando se trata da quest\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o ativa ou passiva do jogador. A regra diz que, se um jogador estiver em posi\u00e7\u00e3o de impedimento mas n\u00e3o participar ativamente do lance, sua posi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 desconsiderada e o lance prosseguir\u00e1 normalmente. Mas se o jogador, mesmo que n\u00e3o participe diretamente do lance (tocando na bola), tirar proveito de sua posi\u00e7\u00e3o, interferindo de algum modo na jogada, a\u00ed ser\u00e1 marcado impedimento. De novo, no jogo \u00e9 muitas vezes dif\u00edcil determinar se o jogador em posi\u00e7\u00e3o de impedimento teve ou n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o ativa numa jogada.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\">Ao lembrar isso, n\u00e3o estou afirmando que a regra \u00e9 equivocada. A regra \u00e9 clara, o jogo n\u00e3o \u00e9. \u00c9 no intervalo dessa assimetria fundamental que se situa a figura do juiz. Outro dia um comentarista de mesa-redonda disse o seguinte: \u201cA\u00ed entra a quest\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o, essa palavrinha que me incomoda\u201d. Ora, mas n\u00e3o h\u00e1 regra sem interpreta\u00e7\u00e3o. Postular que haja uma transpar\u00eancia tal entre a linguagem e o fato de forma a prescindir de uma media\u00e7\u00e3o para aplicar a universalidade de uma \u00e0 particularidade do outro \u00e9 de uma ingenuidade absurda. A capacidade de interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 precisamente o que faz com que o juiz n\u00e3o seja uma mera m\u00e1quina de calcular. S\u00f3 a interpreta\u00e7\u00e3o pode processar a complexidade que est\u00e1 envolvida em cada lance particular, e que n\u00e3o pode, porque nunca \u00e9 uma complexidade id\u00eantica a si mesma, ser contemplada pela regra.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><i>O craque<\/i> &#8211; Junto \u00e0 leitura desse verbete, recomendo ao leitor que veja a obra &#8220;Campo fraturado&#8221;, do artista Raul Mour\u00e3o (raulmourao.blogspot.com), que me revelou a seguinte vis\u00e3o do jogo e do craque.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\">Um jogo de futebol \u00e9 um campo de paradigmas, de infinitos paradigmas virtualmente presentes a cada instante. O que chamo aqui de paradigmas pode ser tamb\u00e9m chamado de possibilidades, para ajudar a compreens\u00e3o. A cada momento do jogo, entre essa multiplicidade de paradigmas poss\u00edveis, s\u00f3 alguns poucos s\u00e3o vis\u00edveis. Exemplo: um jogador est\u00e1 com a bola na ponta-direita, seu tronco est\u00e1 virado para a linha de fundo, um marcador est\u00e1 em seu encal\u00e7o. Os paradigmas vis\u00edveis s\u00e3o poucos: ou o jogador vai cruzar (e a\u00ed ou a bola chegar\u00e1 \u00e0 \u00e1rea ou bater\u00e1 no advers\u00e1rio), ou vai tentar cortar para o meio, ou vai parar para recuar. O jogador vulgar \u00e9 esse que obedece aos paradigmas vis\u00edveis. O craque \u2013 \u00e9 essa sua defini\u00e7\u00e3o, digamos, geom\u00e9trica \u2013 \u00e9 aquele que saber\u00e1 trazer do caos virtual um paradigma insuspeitado, e inesperadamente torn\u00e1-lo vis\u00edvel, realiz\u00e1-lo no jogo. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a fundamental estabelecida por Pasolini entre futebol de prosa e futebol de poesia. A poesia, que tem no craque seu poeta, \u00e9 o paradigma-surpresa. O outro nome disso \u00e9 beleza.<\/div>\n<p><\/p>\n<div style=\"text-align: left;\">Francisco Bosco, maio 2010<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=735\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O campo todo fraturado, 2010a\u00e7o 1020 com resina sint\u00e9tica, dimans\u00f5es vari\u00e1veis Segue abaixo a coluna do Francisco Bosco de hoje no Segundo Caderno d&#8217;O Globo. Ao fim do texto ele menciona o trabalho acima. Uma honra ser citado pelo escritor-pensador-letrista que vem ocupando sua coluna no Globo com textos maravilhosos a cada quarta. 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