{"id":723,"date":"2010-05-27T21:11:00","date_gmt":"2010-05-27T21:11:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=723"},"modified":"2010-05-27T21:11:00","modified_gmt":"2010-05-27T21:11:00","slug":"pintar-apos-a-morte-da-pintura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=723","title":{"rendered":"Pintar ap\u00f3s a morte da pintura"},"content":{"rendered":"<p><strong style=\"font-weight: normal;\">O jornailsta e escritor Luciano Trigo<\/strong> colocou hoje l\u00e1 no <a href=\"http:\/\/colunas.g1.com.br\/maquinadeescrever\/\">blog dele<\/a> essa post\/entrevista c Zerbini.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><span style=\"font-family: Times New Roman;\"><span style=\"color: red;\"><em>O&nbsp;artista  pl\u00e1stico Luiz Zerbini tem sua obra multifacetada analisada em livro<\/em><\/span><\/span><\/span><br \/><span style=\"font-size: 14pt;\"><span style=\"font-family: Times New Roman;\"><span style=\"color: red;\"><em>&nbsp;<\/em><\/span><\/span><\/span> <br \/><img alt=\"capa arte bra\" src=\"http:\/\/imagens.travessa.com.br\/livro\/DT\/f8\/f8c7a5b8-fa7e-4388-88c5-f5405046205e.jpg\" \/><img loading=\"lazy\" alt=\"instala\u00e7\u00e3o 2009\" height=\"517\" src=\"http:\/\/gemagema.tv\/blogs\/agemda\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/26-768x1024.jpg\" width=\"387\" \/><\/p>\n<p>Esculturas, instala\u00e7\u00f5es, v\u00eddeos, fotografias, cen\u00e1rios, ilustra\u00e7\u00f5es,  textos&nbsp;e composi\u00e7\u00f5es sonoras integram a obra multifacetada do&nbsp;artista  pl\u00e1stico Luiz Zerbini, mas ele se define&nbsp;sobretudo como um pintor. Com  uma vis\u00e3o de mundo extremamente particular,&nbsp;Zerbini usa diferentes  linguagens e t\u00e9cnicas para explorar as rela\u00e7\u00f5es entre&nbsp;imagens, sons  e&nbsp;palavras. Desde 1995,&nbsp;integra tamb\u00e9m o coletivo multim\u00eddia Chelpa  Ferro, ao lado dos artistas Barr\u00e3o e Sergio Mekler, criando instala\u00e7\u00f5es  sonoras. Mas o que mais chama a aten\u00e7\u00e3o em sua obra s\u00e3o mesmo seus  quadros, de uma paleta rica e luminosa, nos quais se alternam cenas  dom\u00e9sticas, paisagens naturais e urbanas&nbsp;e imagens abstratas,&nbsp;com  padr\u00f5es geom\u00e9tricos que convidam \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o &#8211;&nbsp;sempre com um olhar  inesperado sobre as coisas.<br \/><strong>Luiz Zerbini<\/strong> \u00e9 o novo volume da cole\u00e7\u00e3o Arte BRA  (editora Aeroplano, 192 pgs. R$35), que tamb\u00e9m inclui t\u00edtulos sobre os  artistas&nbsp;Marcos Chaves, Raul Mour\u00e3o e Lucia Koch.&nbsp;&nbsp;O livro traz ensaios e  reprodu\u00e7\u00f5es que fazem uma esp\u00e9cie de s\u00famula da obra desse artista  paulista de 51 anos,&nbsp;radicado no Rio desde o in\u00edcio dos anos 80. &nbsp;Nesta  entrevista, Zerbini reconstitui sua trajet\u00f3ria e fala sobre o momento  atual da arte brasileira.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Como voc\u00ea, sendo pintor, lida com a id\u00e9ia da morte da  pintura, que \u00e9 um tema recorrente na reflex\u00e3o sobre a arte nos \u00faltimos  50 anos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LUIZ ZERBINI:<\/strong> Vejo com bons olhos. Desde de que a  pintura morreu, eu nunca deixei de pensar nela um unico instante.  Gosto&nbsp;da ideia de que ela tambem morra. E sinto um certo orgulho por ela  ter sido a primeira a ser sacrificada. \u00c9 justa a importancia atribuida a  ela. Logo em seguida&nbsp;\u00e0 sua morte, naturalmente morreu quem falou isso, e  em seguida a m\u00fasica, o cinema e a literatura. A instala\u00e7\u00e3o j\u00e1 nasce  morta.<br \/>Sempre me favoreceu considerar que pintar \u00e9 uma causa perdida, assim  como tudo na vida. Quando pinto n\u00e3o tenho inten\u00e7\u00e3o nenhuma de faz\u00ea-la  renascer. N\u00e3o existe defesa a ser feita. Para mim n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de  tomar partido. N\u00e3o existe um ponto final com a sua morte. \u00c9 um fato, um  dado a mais para a Hist\u00f3ria. Pintar \u00e9 dialogar com espiritos. vivos e as  vezes mortos.<br \/>Nesse livro que acaba de ser lan\u00e7ado, que faz parte da cole\u00e7\u00e3o  arteBra junto com Lucia Koch, Raul Mour\u00e3o e Marcos Chaves, tem um  pequeno texto que escrevi sobre esse tema que diz assim:<\/p>\n<p><em>Minha m\u00fasica, a pintura<\/em><br \/><em>a \u00fanica que ainda me atura<\/em><br \/><em>ambas j\u00e1 mortas a essa altura.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" alt=\"gelatina\" height=\"322\" src=\"http:\/\/gemagema.tv\/blogs\/agemda\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/51-1024x767.jpg\" width=\"430\" \/><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Na inf\u00e2ncia e  adolesc\u00eancia voc\u00ea teve aulas de pintura, aquarela e fotografia. Fale  sobre as lembran\u00e7as marcantes dessa fase e sobre a influ\u00eancia desses  anos de forma\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>ZERBINI:<\/strong> Na sala da casa do meus pais havia um sofa  confotavel que ficava de frente para uma televis\u00e3o. Atr\u00e1s desse sof\u00e1 uma  mesa com um abajur. Uma lembra\u00e7a marcante que tenho sou eu crian\u00e7a,  sentado nessa mesa, desenhando todas as noites, enquanto eles assistiam  ao notici\u00e1rio.<br \/>Outra lembra\u00e7a foi meu encontro com Jos\u00e9 Antonio Van Acker, um pintor  figurativo, colorista que sempre andou&nbsp;\u00e0 margem das principais  galerias, institui\u00e7\u00f5es e cole\u00e7\u00f5es. S\u00f3 o MASP tem obras suas. Com ele  aprendi a pintar a \u00f3leo. Depois encontrei Dudi Maia Rosa. Entendi que  artistas podiam ser felizes, ter familia e uma casa ensolarada com  jardim. Outro encontro foi Leonilson que conheci na FAAP, com quem  aprendi muita coisa. Amigo, com quem dividi atelier durante alguns anos.<\/p>\n<p><strong>&#8211; No in\u00edcio dos anos 80, ap\u00f3s se mudar para o Rio, voc\u00ea  trabalhou como cen\u00f3grafo e fez performances em bares. qual era o seu  projeto, naquele momento? J\u00e1 se sentia (ou se definia como)  essencialmente um artista pl\u00e1stico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ZERBINI:<\/strong> N\u00e3o tinha um projeto. Foi uma \u00e9poca onde  muita coisa estava acontecendo, e quis ficar no Rio. Foi quando comecei a  fazer outras coisas, alem de pintar.<br \/><strong><img alt=\"auto-retrato\" src=\"http:\/\/www.estacio.br\/site\/universidarte\/galeria\/luiz_zerbini\/Luiz%20Zerbini%20%20-%20Baixa%20Resolu%E7%E3o.jpg\" \/>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Como foi sua inser\u00e7\u00e3o na chamada Gera\u00e7\u00e3o 80? Quais  foram os encontros determinantes, com quem voc\u00ea dialogava?&nbsp;O que  representava, como voc\u00ea entendia a Gera\u00e7\u00e3o 80? E como voc\u00ea a enxerga  hoje, retrospectivamente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ZERBINI:<\/strong> <em>Como vai voc\u00ea, Gera\u00e7\u00e3o 80?<\/em> foi o  nome de uma exposi\u00e7\u00e3o que aconteceu no Parque Lage em 1984, que  pretendia, dentro do poss\u00edvel, mapear a produ\u00e7\u00e3o artistica do Rio de  Janeiro e S\u00e3o Paulo.&nbsp;A exposi\u00e7\u00e3o durou um final de semana ou uma semana  inteira, n\u00e3o lembro. Esse t\u00edtulo passou a ser uma marca forte, que  parece ter um significado que vai muito al\u00e9m do simples t\u00edtulo de uma  exposi\u00e7\u00e3o de final de semana. Gera\u00e7\u00e3o 80 para mim passaria a ser sempre  associada a uma frase que ouviria de tempos em tempos durantes as&nbsp;tr\u00eas  d\u00e9cadas seguites: a volta&nbsp;\u00e0 pintura.<br \/>Na sua maioria os artista eram pintores, mas se repararmos nos nomes  que participaram da exposi\u00e7\u00e3o no inicio de suas carreiras e continuam a  atuar at\u00e9 hoje, veremos que esses artistas n\u00e3o se firmariam apenas como  pintores naquela d\u00e9cada de 80, mas tamb\u00e9m nas seguintes, de 90 e 2000,  portanto existe um erro a\u00ed, a coisa era bem mais equilibrada.<br \/>Na d\u00e9cada de 80 os artistas privilegiados foram os pintores por uma  quest\u00e3o externa ao potencial da totalidade dos artistas da \u00e9poca.&nbsp;O  mundo, principalmente Estados Unidos e Alemanh\u00e3, apostaram em jovens  pintores figurativos e grafiteiros incluidos ent\u00e3o no mercado de arte.  Aqui n\u00e3o foi diferente, privilegiou-se a pintura pela facilidade.  Esculturas e instala\u00e7\u00f5es eram vistas sem interesse por galerias  comerciais, por motivos \u00f3bvios, e espa\u00e7os p\u00fablicos n\u00e3o existiam.<br \/>Ouvi muitas vezes usarem o termo Gera\u00e7\u00e3o 80 como um adjetivo, como se  fosse um tipo de pintura, um estilo, sempre referindo-se a pinturas de  p\u00e9ssima qualidade.&nbsp;Isso tudo atrasou o entendimento do que j\u00e1 estava  acontecendo no Brasil desde muito tempo e que agora, nos dias de hoje, \u00e9  f\u00e1cil perceber.&nbsp;A ditadura pol\u00edtica interrompeu esse processo, e a  euforia de estarmos vivendo a volta da liberdade deixou o Brasil cego  para&nbsp; o que n\u00e3o fosse pintura e miope para a boa pintura. O caos  imperava, e as festas eram sempre muito boas.<br \/>A tentativa de se criar um mercado ou de inserir o Brasil no mercado  internacional atrasou e atrapalhou pintores e n\u00e3o-pintores, mas se  entendermos o que se passa hoje em dia no mundo das artes, com seus  exageros, como uma coisa positiva, o que aconteceu nos anos 80 foi  necess\u00e1rio, ali nascia o modelo do que estamos vivendo agora.<br \/>Eu me mudei para o Rio em 1982. Vim de S\u00e3o Paulo, onde conheci  Leonilson, Leda Catunda, Sergio Romagnolo e Ciro Cozzolino, que tinham  uma sala especial dentro da exposi\u00e7\u00e3o. Fora esses artistas, me aproximei  de Daniel Senise, Angelo Venosa, Beatriz Milhazes, Ricardo Basbaum e  Barr\u00e3o, &nbsp;atualmente meu parceiro no Chelpa Ferro. Mais tarde, em 1985,  conheci em S\u00e3o Paulo Carlito Carvalhosa, Fabio Miguez, Rodrigo Andrade,  Paulo Monteiro e Nuno Ramos, da Casa 7. Da exposi\u00e7\u00e3o participaram ainda  Jo\u00e3o Mod\u00e9 e Eduardo Kac, entre outros muitos, mais de 100, talvez 200.  Jac Leirner eu j\u00e1 conhecia da FAAP, onde estudei<br \/>Vendo retrospectivamente, a Gera\u00e7\u00e3o 80 n\u00e3o foi um movimento. Foi um  acontecimento isolado de final de semana que ganhou importancia por uma  conjun\u00e7\u00e3o historica, a abertura pol\u00edtica. N\u00e3o foi uma d\u00e9cada s\u00f3 de  pintura, e n\u00e3o foi uma resposta a nada. Sempre ouvi dizer que a Gera\u00e7\u00e3o  80 foi uma resposta ao que se fazia antes, nos anos 70, mas nunca ouvi  nenhum artista dizer isso. Ouvi sempre que t\u00ednhamos os artistas da  gera\u00e7\u00e3o anterior como refer\u00eancia &#8211;&nbsp;Antonio, Barrio, Vergara, Shir\u00f3,  Cildo, Ligias, Helio, Waltercio e Tunga.<br \/>Ou seja, a Gera\u00e7\u00e3o 80 n\u00e3o exisitiu, assim como n\u00e3o existe a 70 nem a  90 etc.<br \/><strong><img alt=\"reflexo\" src=\"http:\/\/gemagema.tv\/blogs\/agemda\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/bVideoRuido13.jpg\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Como se deu a passagem da pintura para outros meios, em que  contexto ela se deu e qual foi a sua motiva\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ZERBINI:<\/strong> Sou um pintor, penso como um pintor mas n\u00e3o  estou limitado a pintar telas. N\u00e3o houve um momento de transi\u00e7\u00e3o.  Sempre fui assim. Para mim a maior caracteristica dessa gera\u00e7\u00e3o, se \u00e9  que existe uma, \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o e express\u00e3o de um pensamento n\u00e3o-linear.<br \/>Desde a minha primeira exposi\u00e7\u00e3o individiual, no Subdisrito em S\u00e3o  Paulo, expus instala\u00e7\u00f5es. Continuei fazendo isso nas minhas exposi\u00e7\u00f5es  seguintes. Participei da Bienal de SP de 87 com uma instala\u00e7\u00e3o e fa\u00e7o  instala\u00e7\u00f5es at\u00e9 hoje, mas continuo sendo lembrado sempre como um pintor.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Qual a id\u00e9ia do chelpa ferro? As cria\u00e7\u00f5es s\u00e3o efetivamente  coleivas? De que forma o trabalho no chelpa se diferencia das suas  cria\u00e7\u00f5es individuais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ZERBINI: <\/strong>A ideia era trabalharmos em grupo com som.  Al\u00e9m de nos divertir, fazer o que est\u00e1vamos a fim de fazer, sem  compromisso.N\u00e3o t\u00ednhamos a pretens\u00e3o de continuar como grupo por tanto  tempo. No in\u00edcio pensei que cada um contribuiria com o que sabe fazer  melhor, mas n\u00e3o foi o que aconteceu. Todo mundo fazia tudo. S\u00f3 agora,  muitos anos depois, \u00e9 que vejo uma posi\u00e7\u00e3o mais definida de cada um  dentro do Chelpa. N\u00f3s nos conhecemos&nbsp;h\u00e1 muito tempo, bem antes de o  Chelpa existir, e sempe foi&nbsp; f\u00e1cil para a gente trabalhar junto. Algu\u00e9m  joga uma ideia na roda, e ela vai mudando r\u00e1pido com a participa\u00e7\u00e3o dos  outros. Se a ideia vingar \u00e9porque \u00e9 boa.<br \/>Diferente do meu trabalho individual, o Chelpa come\u00e7a um trabalho a  partir de uma ideia, enquanto na pintura a coisa acontece no dia-a-dia  do atelier. O que \u00e9 comum aos dois \u00e9 que solucionamos as quest\u00f5es de  maneira intuitiva.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&#8211; Voc\u00ea trafega entre muitas t\u00e9cnicas, temas, materiais e  linguagens, da figura\u00e7\u00e3o \u00e1 abstra\u00e7\u00e3o, da arte popular \u00e0 conceitual, a  ponto de ser dif\u00edcil identificar um estilo que unifique tudo. O que  significa para voc\u00ea a palavra estilo e como voc\u00ea definiria o seu estilo  pessoal?<\/strong><br \/><img alt=\"capa rasura\" src=\"http:\/\/editora.cosacnaify.com.br\/Upload\/Produto\/1\/0\/3\/1\/2\/10312g.jpg\" \/><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>ZERBINI: <\/strong>&nbsp;Eu n\u00e3o me defino, sou a  soma de tudo isso. Durante os anos em que trabalhei no meu livro <em>Rasura,<\/em>  lan\u00e7ado em 2005 e que levei 10 anos pra terminar, fui obrigado a fazer  uma releitura dos meus trabalhos associando imagens a ideias e textos.  Percebi que a experimenta\u00e7\u00e3o estava ligada&nbsp;\u00e0 vontade de criar rela\u00e7\u00f5es  entre as coisas, de fazer associa\u00e7\u00f5es. Trafegar por tecnicas e  linguagens diferentes n\u00e3o \u00e9 regra mas circunst\u00e2ncia, necessidade  natural.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Como voc\u00ea analisa a situa\u00e7\u00e3o atual do mercado de arte  contempor\u00e2nea? como enxerga o papel dos curadores, dos cr\u00edticos, das  galerias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ZERBINI:<\/strong> Acho que o mercado esta num \u00f3timo momento,  principalmente no Brasil. O mercado visa o lucro, e estamos falando de  pol\u00edtica. Acho que, &nbsp;nos \u00faltimos 20 anos, conseguimos construir uma cena  que come\u00e7a a se solidificar. Curadores, cr\u00edticos, galeristas e  instituic\u00f5es&nbsp;conseguiram, com algumas edi\u00e7\u00f5es bem-sucedidas da Bienal de  S\u00e3o Paulo &#8211;&nbsp;mais o fato de artistas brasileiros, primeiro Helio  Oiticica e depois Cildo Meirelles, Ernesto Neto,&nbsp;Beatriz Milhazes e  Adriana Varej\u00e3o&nbsp;entraram definitivamente no cenario mundial, com o  reconhecimento da qualidade de seus trabalhos e com exposi\u00e7\u00f5es nas  melhores galerias e museus do mundo. E ainda, institui\u00e7\u00f5es e  patrocinadores apoiando grandes exposi\u00e7\u00f5es retrospectivas de grandes  mestres, artistas&nbsp; estrangeiros no Rio e em S\u00e3o Paulo. Isso tudo fez com  que o Brasil se colocasse como um centro de arte contempor\u00e2nea  importante do mundo.<br \/>Nos anos 60, Tom Jobim gravou com Frank Sinatra uma vers\u00e3o de <em>Garota  de Ipanema<\/em> que vendeu milh\u00f5es de d\u00f3lares no mundo todo. Reza a  lenda que a gravadora obrigou Tom a assinar um contrato com uma  gravadora no Brasil para poder receber o dinheiro que lhe cabia pela  grava\u00e7\u00e3o, caso contr\u00e1rio a gravadora n\u00e3o pagaria. Isso teria mudado a  hist\u00f3ria da musica brasileira. O mercado fonogr\u00e1fico passou a existir do  jeito que \u00e9 at\u00e9 hoje a partir daquele momento. Antes disso, o sujeito  subia o morro e comprava um samba com dinheiro vivo.<br \/><img alt=\"idbi\" src=\"http:\/\/www.universes-in-universe.de\/car\/habana\/bien7\/obrapia\/img\/zerbini-1b.jpg\" \/><\/p>\n<p>Acho possivel pensar as artes plasticas no Brasil como a musica. O  primeiro passo \u00e9 a profissionaliza\u00e7\u00e3o.&nbsp;Eu entendo totalmente que o  acelerador de particulas exer\u00e7a um facinio sobre as pessoas, mas n\u00e3o  existe nada t\u00e3o sofisticado quanto uma pintura. Como&nbsp;bem disse o  professor Agnaldo Farias, todo o pensamento filos\u00f3fico ocidental foi  constru\u00eddo, pensado a partir da observa\u00e7\u00e3o de pinturas. Pensadores  escreveram tratados filos\u00f3ficos a partir de pinturas. Olhando para uma  tela. Isso \u00e9 incrivel.<br \/>Sinto muita falta de o Governo entender o que est\u00e1 acontecendo e  deixar de lado essa hist\u00f3ria de que artes pl\u00e1sticas \u00e9 coisa da elite &#8211;&nbsp;e  entenda, por exemplo, que a Bienal de Veneza \u00e9 importante como politica  exterior, mais do que intermediar um acordo com o Ir\u00e3. A Bienal tem um  reflexo direto no valor cultural do pa\u00eds. Governos&nbsp; do mundo todo brigam  para que seus artistas estejam bem representados e os consideram  patrim\u00f4nio. Gostaria que, ao&nbsp;inv\u00e9s de R$25.000, que foi o que o Chelpa  Ferro recebeu para fazer o trabalho no ano em que participou de Veneza,  recebesse U$5.000.000, que foi o que o governo franc\u00eas deu a Anette  Messager, que ganhou o Le\u00e3o de Ouro. Vai longe o tempo que um artista  vencia na vida por um talento nato, um dom. Hoje tudo se ensina na  escola. At\u00e9 grafite. As coisas se constr\u00f3em com parcerias. N\u00e3o tenho  saudade nenhuma de quando as pessoas achavam um absurdo que o <em>Abaporu<\/em>  tivesse sido vendido por U$32.000, carissimo, diziam. Como uma pintura  mal feita custa tanto dinheiro\u2026<br \/>Acho&nbsp;maravilhoso que uma&nbsp; pintura da Beatriz Milhazes valha&nbsp;  U$1.000.000, e devemos torcer que ela valha tanto quanto uma de Gehard  Richter, e que essa diferen\u00e7a n\u00e3o se d\u00ea pelo fato de um ser uma mulher  brasileira e outro um alem\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Fale sobre a experi\u00eancia de ilustrar alice, de Lewis  Carroll.<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" alt=\"capa alice\" height=\"315\" src=\"http:\/\/editora.cosacnaify.com.br\/Upload\/Produto\/1\/0\/1\/6\/9\/alice_gde.jpg\" width=\"216\" \/><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>ZERBINI: <\/strong>Acho,  ao contr\u00e1rio do diz a pr\u00f3pria Alice no come\u00e7o da hist\u00f3ria, que esse  livro n\u00e3o precisa de ilustra\u00e7\u00f5es. \u00c9 impossivel competir com a profus\u00e3o  de imagens que uma \u00fanica frase cont\u00e9m. Parece desnecess\u00e1rio. As  ilustra\u00e7\u00f5es reduzem tudo a uma imagem.<br \/>Demorei&nbsp;dois anos fazendo, e apesar de o livro j\u00e1 estar publicado n\u00e3o  o considero pronto. Penso nele ainda hoje como um trabalho que estou  fazendo e n\u00e3o terminei. Ainda estou dominado por ele, penso nele toda  hora. Gostaria de desmontar o livro, de escrever por cima das  ilustra\u00e7\u00f5es e desenhar por cima dos textos. Foi surpreendente que eu  tenha conseguido. Eu sempre achei que seria incapaz de ilustrar uma  hist\u00f3ria que n\u00e3o fosse minha propria hist\u00f3ria.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=723\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornailsta e escritor Luciano Trigo colocou hoje l\u00e1 no blog dele essa post\/entrevista c Zerbini. O&nbsp;artista pl\u00e1stico Luiz Zerbini tem sua obra multifacetada analisada em livro&nbsp; Esculturas, instala\u00e7\u00f5es, v\u00eddeos, fotografias, cen\u00e1rios, ilustra\u00e7\u00f5es, textos&nbsp;e composi\u00e7\u00f5es sonoras integram a obra multifacetada do&nbsp;artista pl\u00e1stico Luiz Zerbini, mas ele se define&nbsp;sobretudo como um pintor. Com uma vis\u00e3o de &hellip;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=723\" class=\"more-link\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/723"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=723"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/723\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}