{"id":712,"date":"2010-05-21T18:36:00","date_gmt":"2010-05-21T18:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=712"},"modified":"2010-05-21T18:36:00","modified_gmt":"2010-05-21T18:36:00","slug":"bundalelismo-esboco-de-uma-teoria-carioca-primeira-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=712","title":{"rendered":"Bundalelismo: esbo\u00e7o de uma teoria carioca &#8211; primeira parte"},"content":{"rendered":"<p>Mais uma obraprima que Frederico Coelho publicou l\u00e1 no blog dele, <a href=\"http:\/\/objetosimobjetonao.blogspot.com\/2010\/05\/bundalelismo-esboco-de-uma-teoria.html#comments\">objetosimobjetonao<\/a>. De novo ele acertou na mosca e deixou um mont\u00e3o de perguntas no ar. Texto cheio de gra\u00e7a poesia e raiva. Fred \u00e9 o melhor pensador do RioDJanira (como ele bem batizou nosso balneario querido e fudido), o olhar mais atento e agudo pra cima do real, o texto mais delicioso do peda\u00e7o. LEIAM E PASSEM ADIANTE! <\/p>\n<div><\/div>\n<div><img alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5473427988958828354\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_VPHVt757pfA\/S_WFwamSV0I\/AAAAAAAAAmw\/WD4Gv9nggW4\/s400\/002.JPG\" style=\"cursor: pointer; display: block; height: 300px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 400px;\" \/><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_VPHVt757pfA\/S_WFwamSV0I\/AAAAAAAAAmw\/WD4Gv9nggW4\/s1600\/002.JPG\" onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\"><\/a><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\" style=\"line-height: 24px;\"><br \/><\/span><\/div>\n<div><b><span class=\"Apple-style-span\" style=\"line-height: 24px;\">I &#8211; o quadro<\/span><\/b><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">O rio d\u2018janira engole. Esse peda\u00e7o  encravado e improv\u00e1vel entre sal, areia e granito grita e canta aos  quatro ventos sua impossibilidade. Sua velhacaria. Sua pregui\u00e7a  dadivosa. Sua genialidade gratuita. Seu desperd\u00edcio de beleza. Sua fus\u00e3o  perfeita entre a surpresa di\u00e1ria da natureza e a certeza cotidiana do  \u00f3dio entre classes. Uma energia sinistra, uma sarna hedonista que  alimenta o esmeril e tritura o passante, uma m\u00e1quina iluminada e  enferrujada que afunda a cidade e nos liberta para o mundo. <\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><o:p> <\/o:p><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">Muitas  vezes, por\u00e9m, o carioca acredita piamente que n\u00e3o precisa do mundo.  Basta o pared\u00e3o imp\u00e1vido da Pedra da G\u00e1vea ou a mureta do Bar Urca e  est\u00e1 tudo certo, e n\u00e3o h\u00e1 nada mais. Essa \u00e9 a for\u00e7a criadora da cidade.  Essa \u00e9 a certeza venenosa que nos fartamos entre bravatas est\u00e9ticas e  sil\u00eancios sobre nossa afasia cultural. Essa cren\u00e7a at\u00e1vica em n\u00f3s  mesmos, essa condescend\u00eancia tropical e gordurosa com o prec\u00e1rio \u2192  dentre os bares e as artes, dentre as aulas e as casas de festas, o  prec\u00e1rio como estilo, o arremedo como direito autoral, o projeto n\u00e3o  como esfor\u00e7o inicial, mas sim como resultado e realiza\u00e7\u00e3o. Em um  discurso radical e sem relativismos (pois sempre existem alternativas e  caminhos divergentes), vivemos dia-a-dia a aceita\u00e7\u00e3o de estar ficando  para tr\u00e1s, praticamos envergonhados e entredentes a louva\u00e7\u00e3o de  prov\u00edncia, valorizamos pouco o ESFOR\u00c7O SUPREMO que \u00e9 preciso para  ampliar as possibilidades de a\u00e7\u00f5es e ideias. Pois, no rio d\u2019janira,  somos reluzentes, somos a tradi\u00e7\u00e3o cultural do pa\u00eds, somos personagens  de novelas, somos assassinos em capas de jornais. <\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><o:p> <\/o:p><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><b>II &#8211; a teoria<\/b><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">O  <i>Bundalelismo <\/i>\u00e9 uma praga. O Bundalelismo \u00e9 uma del\u00edcia. O  Bundalelismo \u2013 e seu desdobramento, o <i>Obaobismo<\/i> \u2013 \u00e9, de  fato, uma pr\u00e1tica cultural. O Bundalelismo \u00e9 a certeza de que pouco \u00e9  muito, de que a festa n\u00e3o vem depois da colheita e sim durante, de que a  cigarra sempre, sempre, sempre, se dar\u00e1 bem sobre a formiga. O  Bundalelismo \u00e9 genial porque engloba tudo em um \u201call togheter now\u201d  levando todos em frente sem precisar de licen\u00e7a de nenhuma tradi\u00e7\u00e3o.  Pois o Bundalelismo <i>\u00e9<\/i> uma tradi\u00e7\u00e3o carioca. O  Bundalelismo \u00e9 rizom\u00e1tico, se entranha na cultura, se espalha pelas  institui\u00e7\u00f5es, se desdobra em todas as \u00e1reas. No Bundalelismo, qualquer  espa\u00e7o pode ser ocupado. O Bundalelismo \u00e9 um furac\u00e3o que quando passa  nos d\u00e1 a impress\u00e3o de que tudo ser\u00e1 destru\u00eddo e renovado, mas depois  vemos que a destrui\u00e7\u00e3o aparente n\u00e3o tirou nada do lugar. Apenas deixou  um leve cheiro de felicidade e ressaca.<\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><o:p>  <\/o:p><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">O Bundalelismo \u00e9 contempla\u00e7\u00e3o. A  a\u00e7\u00e3o fica para depois. Ali\u00e1s, para o bundalelista, a contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 a  a\u00e7\u00e3o. O Bundalelismo, enquanto pr\u00e1tica, \u00e9 a\u00e7\u00e3o im\u00f3vel, Movimento  Uniforme Vari\u00e1vel. Uma a\u00e7\u00e3o contemplativa em um mundo tapinha nas  costas. <\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><b>III  &#8211; a pr\u00e1tica<\/b><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><o:p> <\/o:p><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">A pr\u00e1tica bundalelista prop\u00f5e a a\u00e7\u00e3o cultural  enquanto um objeto cuja superf\u00edcie \u00e9 agitada (agita\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ideia chave  no Bundalelismo) por\u00e9m o interior \u00e9 oco. O bundalelista \u00e9 m\u00faltiplo, \u00e9  poli, vive dentre grupos e projetos, planeja<span>  <\/span>e  pondera (por poucos minutos) por\u00e9m se basta. No Bundalelismo n\u00e3o h\u00e1  preocupa\u00e7\u00e3o em ampliar a festa para al\u00e9m dos mesmos convidados. No  fundo, o bundalelista tenta reproduzir, pro resto da vida, sua turma  legal do col\u00e9gio. <\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><o:p> <\/o:p><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 coadjuvantes no Bundalelismo. Todos t\u00eam um  sobrenome. Ou um nome que se torna um sobrenome dentre os  bundaleslistas.<\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">O Bundalelismo sou eu. O  Bundalelismo \u00e9 voc\u00ea. <\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><o:p> <\/o:p><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">O bundalelista \u00e9 oxig\u00eanio, pois \u00e9 essencial para a  vida fluir tranquila feito vento terral em fim de tarde de ver\u00e3o. O  bundalelista \u00e9 t\u00f3xico porque entope os espa\u00e7os e coagula o sangue novo,  logo transformando ao primeiro toque tudo vigoroso e inovador em  Bundalelismo. O bundalelista se contenta com pouco, pois pouco \u00e9  \u201cverdadeiro\u201d. O bundalelista acha que \u201cmais ou menos\u201d \u00e9 igual a \u201c\u00f3timo\u201d.  O bundalelista investe pela metade porque fazer por inteiro para que? O  bundalelista come\u00e7a e deixa pra l\u00e1, pois para o bundalelista o que  importa \u201c\u00e9 a inten\u00e7\u00e3o\u201d. O Bundalelismo domina a Zona Sul mas acredita  piamente que se comunica com o mundo todo. Pois para o bundalelista a  Zona Sul <i>\u00e9<\/i> o mundo todo. <\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><o:p>  <\/o:p><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">Um evento bundalelista \u00e9 de  gra\u00e7a porque o bundalelista confunde camaradagem com explora\u00e7\u00e3o, acha  que \u201cser brother\u201d \u00e9 n\u00e3o respeitar o trabalho alheio. O Bundalelismo \u00e9 um  determinismo geogr\u00e1fico. O Bundalelismo \u00e9 a cara do rio d\u2019janira mas <i>n\u00e3o \u00e9<\/i> o rio d\u2019janira. O Bundalelismo pode ser Federal,  Estadual, Municipal, pode ser p\u00fablico e privado, amador ou profissional,  pessoa f\u00edsica ou pessoa jur\u00eddica. O bundalelista pode ser de esquerda  ou de direita, apesar de todo o bundalelista, no fundo, achar que faz  parte do \u201cpovo carioca\u201d, isto \u00e9, a classe m\u00e9dia. O Bundalelismo \u00e9 a  eterniza\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o do carioca como um cara gente fina e  malandro, pronto para se dar bem. <\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"MsoNormal\" style=\"line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\">O Bundalelismo \u00e9 irresist\u00edvel na beira da praia e  nas ruas da Lapa, nas noites de lua e nas ruas da g\u00e1vea. O Bundalelismo \u00e9  grudento e vem com cerveja quente. O Bundalelismo prega paz para todos  em meio a gambiarras, improvisos, romantismos escolares e poesia barata.  Por isso, \u00e9 profundamente carioca e profundamente nocivo. N\u00e3o se  engane: no rio, todos n\u00f3s, quase todos os dias, praticamos em algum  momento o Bundalelismo. O lance \u00e9 perceber que ele, apesar de ser uma  gra\u00e7a, n\u00e3o basta. Em toda a loucura, \u00e9 preciso rigor. <span> <\/span>Fazer  bem feito n\u00e3o significa morar em torres de marfim. A qualidade do  produto n\u00e3o anula sua pot\u00eancia po\u00e9tica. Espontaneidade demanda  decanta\u00e7\u00e3o. Poesia demanda labuta. A vida est\u00e1 l\u00e1 fora, pronta para ser  explodida. <\/div>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=712\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma obraprima que Frederico Coelho publicou l\u00e1 no blog dele, objetosimobjetonao. De novo ele acertou na mosca e deixou um mont\u00e3o de perguntas no ar. Texto cheio de gra\u00e7a poesia e raiva. 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