{"id":582,"date":"2010-01-15T20:59:00","date_gmt":"2010-01-15T20:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=582"},"modified":"2010-01-15T20:59:00","modified_gmt":"2010-01-15T20:59:00","slug":"situacao-de-museus-de-arte-no-pais-e-deploravel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=582","title":{"rendered":"Situa\u00e7\u00e3o de museus de arte no pa\u00eds \u00e9 deplor\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/S1DXFeKvbMI\/AAAAAAAACn8\/IKSuHdzjl8g\/s1600-h\/Paulo+S%C3%A9rgio+Duarte.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img border=\"0\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/S1DXFeKvbMI\/AAAAAAAACn8\/IKSuHdzjl8g\/s400\/Paulo+S%C3%A9rgio+Duarte.jpg\" \/><\/a><\/div>\n<p>Segue abaixo a entrevista que saiu ontem na Ilustrada FSP do jornalista Marcos Augusto Gon\u00e7alves com o cr\u00edtico e curador Paulo S\u00e9rgio Duarte.<\/p>\n<p>Professor de hist\u00f3ria da arte, Paulo Sergio Duarte cita o abandono do Museu de Bras\u00edlia como exemplo da indig\u00eancia das pol\u00edticas p\u00fablicas em rela\u00e7\u00e3o ao setor e diz que o Instituto Brasileiro de Museus \u00e9 s\u00f3 &#8220;um escrit\u00f3rio com diretoria e alguns assessores&#8221;. Ele v\u00ea os museus como &#8220;instrumentos indispens\u00e1veis para qualquer sistema educacional que se preze&#8221; e advoga intera\u00e7\u00e3o entre essas institui\u00e7\u00f5es e universidades. Para Paulo Sergio as pol\u00edticas do Estado brasileiro &#8220;refletem estatuto da arte na consci\u00eancia da elite, que \u00e9 inexistente&#8221;<\/p>\n<p>Pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Candido Mendes, no Rio, Duarte, foi curador da 5\u00aa Bienal do Mercosul (2005) e do Projeto Rumos Artes Visuais do Ita\u00fa Cultural, no ano passado. Ele cobra do governo Lula a defini\u00e7\u00e3o de prioridades e defende que os museus federais sejam centros de excel\u00eancia e forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Quanto \u00e0s mudan\u00e7as na Lei Rouanet, prop\u00f5e tratamento especial para investimentos em aquisi\u00e7\u00e3o de acervos e infraestrutura de museus -hoje preteridos em favor do patroc\u00ednio de exposi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias.<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o da rede de museus do pa\u00eds?<br \/>PAULO S\u00c9RGIO DUARTE &#8211; \u00c9 preciso lembrar logo que s\u00f3 vamos falar de museu de arte, a cultura em t\u00e3o elevado estado de condensa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s n\u00e3o chamamos de cultura, mas de arte. No caso desses museus, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 deplor\u00e1vel. Existem ilhas razo\u00e1veis que est\u00e3o longe de dar um bom panorama hist\u00f3rico da arte no pa\u00eds.<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; Qual \u00e9 a responsabilidade do governo nessa situa\u00e7\u00e3o?<br \/>DUARTE &#8211; N\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 de governo, este ou passados. A pol\u00edtica cultural do Estado reflete o estatuto da arte na consci\u00eancia da elite brasileira. E esse lugar simplesmente n\u00e3o existe, com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es. Repetindo o que digo h\u00e1 30 anos: percorrendo, em qualquer uma das duas maiores cidades do pa\u00eds, todos os seus museus, \u00e9 imposs\u00edvel para um professor dar um curso digno da hist\u00f3ria da arte do s\u00e9culo 20.<br \/>Tenho insistido sobre o fato de que neste ano Bras\u00edlia completa 50 anos. Onde est\u00e1 seu museu de arte? No antigo Clube das For\u00e7as Armadas, depois cedido para o Casar\u00e3o do Samba, e posteriormente transformado no museu de arte. Est\u00e1 l\u00e1 num pr\u00e9dio interditado, cercado por hot\u00e9is de arquitetura p\u00edfia. At\u00e9 aqui, este \u00e9 o lugar do museu na capital da na\u00e7\u00e3o. Eu defendo que se fa\u00e7a um concurso internacional para este museu, como foi feito no Rio para o Museu da Imagem e do Som.<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; Isso \u00e9 simb\u00f3lico quanto \u00e0 import\u00e2ncia que o poder p\u00fablico confere \u00e0 arte?<br \/>DUARTE &#8211; Isto n\u00e3o acontece por mero acaso no pa\u00eds no qual sobra dinheiro para malas em autom\u00f3veis e avi\u00f5es de pastores evang\u00e9licos, fraldas de d\u00f3lares debaixo das cal\u00e7as de cabos eleitorais e at\u00e9 nas meias de deputados. Qual pode ser o estatuto da arte nesse lugar? Como acreditar que a arte \u00e9 um conhecimento espec\u00edfico, muito importante para compensar os efeitos da ind\u00fastria cultural, e formar um olhar cr\u00edtico no cidad\u00e3o se, na capital do pa\u00eds, \u00e9 tratada de modo t\u00e3o lament\u00e1vel?<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; Como voc\u00ea v\u00ea a atua\u00e7\u00e3o do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), criado pelo governo?<br \/>DUARTE &#8211; Por enquanto, \u00e9 um escrit\u00f3rio com uma diretoria e alguns assessores.<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; Como ele deveria se estruturar?<br \/>DUARTE &#8211; Os museus s\u00e3o, antes de tudo, equipamentos necess\u00e1rios \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de cidadania e um instrumento indispens\u00e1vel de qualquer sistema educacional que se preze. Com as tarefas enormes e com o alarme de emerg\u00eancias tocando todo dia, o Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional, o Iphan, n\u00e3o pode dar a devida prioridade aos museus.<br \/>Parodiando Carl von Clausewitz, na sua frase que j\u00e1 se tornou clich\u00ea: os museus s\u00e3o importantes demais para ficar nas m\u00e3os de muse\u00f3logos. Os acordos e conv\u00eanios com universidades e institutos de ensino e pesquisa nas diversas regi\u00f5es do pa\u00eds poupariam da incha\u00e7\u00e3o o quadro de pessoal do Ibram.<br \/>Acredito que, para o primeiro mandato do presidente Lula, estava correta a pol\u00edtica do Minist\u00e9rio da Cultura de prospec\u00e7\u00e3o do campo realizada pelas consultas a c\u00e2maras setoriais, reuni\u00f5es e est\u00edmulos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o. Mas j\u00e1 \u00e9 tempo de ter focos precisos, prioridades de efeitos multiplicadores. Acima de tudo, as institui\u00e7\u00f5es federais t\u00eam de ser centros de excel\u00eancia e de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; Que prioridades?<br \/>DUARTE &#8211; Por exemplo, os projetos educativos dos museus devem priorizar a forma\u00e7\u00e3o de professores e secundariamente se voltar para o cidad\u00e3o comum. As visitas de turmas de alunos de escolas e col\u00e9gios devem estar sempre programadas como trabalhos pr\u00e1ticos de professores preparados pelos pr\u00f3prios museus em programas de conv\u00eanios com as secretarias de educa\u00e7\u00e3o. Os programas educativos para professores devem estar voltados para os docentes de todas as \u00e1reas, e n\u00e3o apenas para aqueles de arte e educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica. S\u00f3 desse modo far\u00e1 sentido a divulga\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros de visita\u00e7\u00e3o de alunos; por enquanto servem para a satisfa\u00e7\u00e3o demag\u00f3gica e a presta\u00e7\u00e3o de contas a departamentos de marketing de patrocinadores.<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; Em rela\u00e7\u00e3o a museus, o que deveria mudar na Lei Rouanet?<br \/>DUARTE &#8211; Eu considero que deveria haver mais est\u00edmulo fiscal aos investimentos em infraestrutura dos museus e aquisi\u00e7\u00e3o de acervos do que para exposi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias. N\u00e3o se trata de acabar com o est\u00edmulo \u00e0s exposi\u00e7\u00f5es e sua documenta\u00e7\u00e3o em cat\u00e1logos. Mas a aquisi\u00e7\u00e3o de obras e publica\u00e7\u00f5es que exigem longas pesquisas e n\u00e3o est\u00e3o vinculadas a um evento tempor\u00e1rio mereceriam receber tratamento diferenciado. O mais grave, segundo li na Folha [Ilustrada, 24\/11\/09], \u00e9 o governo querer disciplinar ou mesmo proibir a remunera\u00e7\u00e3o dos profissionais contratados para dirigir museus ou institui\u00e7\u00f5es culturais que adquiriram um estatuto aut\u00f4nomo, como organiza\u00e7\u00f5es sociais. \u00c9 um est\u00edmulo ao pior amadorismo ou a uma p\u00e9ssima elitiza\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es: s\u00f3 ricos, pessoas que n\u00e3o vivem do que fazem, poder\u00e3o ocupar essa dire\u00e7\u00e3o, ou funcion\u00e1rios mal remunerados.<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; Que li\u00e7\u00f5es devemos tirar do inc\u00eandio que destruiu parte importante da obra de H\u00e9lio Oiticica?<br \/>DUARTE &#8211; A primeira li\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o se deve nunca dispensar uma consultoria de risco indicada por uma boa empresa de seguros para qualquer edifica\u00e7\u00e3o que for armazenar acervos preciosos. Mais do que isso: uma das cl\u00e1usulas ao uso das leis de incentivo \u00e0 cultura para institui\u00e7\u00f5es que preservam acervos seria a realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via da consultoria e o financiamento, pela pr\u00f3pria lei de incentivo, da execu\u00e7\u00e3o de todas as medidas t\u00e9cnicas que sejam recomendadas.<br \/>Acho que quem primeiro deveria dar esse exemplo \u00e9 o pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Cultura, realizar essa consultoria em cada uma das institui\u00e7\u00f5es sob sua responsabilidade. A verdade \u00e9 que em muitos casos nem as normas estabelecidas pelos Bombeiros s\u00e3o cumpridas.<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; Se compararmos arte contempor\u00e2nea, mercado e institui\u00e7\u00f5es do Brasil com arte contempor\u00e2nea, mercado e institui\u00e7\u00f5es de pa\u00edses mais avan\u00e7ados, quais s\u00e3o os principais descompassos?<br \/>DUARTE &#8211; Temos atualmente uma excelente produ\u00e7\u00e3o de arte, reconhecida, antes de tudo, por importantes institui\u00e7\u00f5es e cole\u00e7\u00f5es estrangeiras. Nossas institui\u00e7\u00f5es apresentam os mesmos descompassos que existem para outras \u00e1reas, a come\u00e7ar pelo sistema educacional: quais s\u00e3o os descompassos que existem entre os sistemas educacionais brasileiro, japon\u00eas, alem\u00e3o, americano, franc\u00eas e ingl\u00eas, por exemplo?<br \/>Nossas institui\u00e7\u00f5es de arte est\u00e3o para as institui\u00e7\u00f5es desses pa\u00edses assim como [est\u00e3o] nossa educa\u00e7\u00e3o e nossos servi\u00e7os de sa\u00fade. Quanto ao mercado, me parece que amadureceu muito, nos \u00faltimos 20 anos, em S\u00e3o Paulo; se estrutura no Rio e em Belo Horizonte, mas depende exclusivamente de colecionadores particulares. As institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas n\u00e3o t\u00eam recursos regulares para aquisi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>FOLHA &#8211; E as doa\u00e7\u00f5es?<br \/>DUARTE &#8211; Dou um exemplo. A diretora do Museu Nacional de Belas Artes declarou que recebeu em poucos anos milhares de doa\u00e7\u00f5es. O n\u00famero publicado chegava a dezenas de milhares, embora isso possa ter sido um erro tipogr\u00e1fico. Mas, se \u00e9 verdade, \u00e9 evidente prova do elevado grau de indig\u00eancia que conduz a pol\u00edtica cultural de artes visuais. Integrar o acervo do Museu Nacional de Belas Artes deve ser privil\u00e9gio reservado \u00e0s obras de artistas que constituem um patrim\u00f4nio do povo brasileiro e cuja frui\u00e7\u00e3o vai efetivamente formar o olhar do cidad\u00e3o no campo da arte.<br \/>Visite-se a sala de arte moderna e contempor\u00e2nea do museu e ver-se-\u00e1 que, al\u00e9m das in\u00fameras lacunas, existe quase sempre a invers\u00e3o de valores: quanto menos importante o artista mais espa\u00e7o ocupa sua obra. \u00c9 uma aula completa do que n\u00e3o deve ser feito.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=582\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segue abaixo a entrevista que saiu ontem na Ilustrada FSP do jornalista Marcos Augusto Gon\u00e7alves com o cr\u00edtico e curador Paulo S\u00e9rgio Duarte. 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